
Durante séculos, o amor foi associado à exclusividade, e para muitos casais, a ideia de amar mais de uma pessoa soa como tabu. Atualmente, contudo, as pessoas questionam essa lógica e passam a experimentar novas formas de se relacionar, entre elas estão o poliamor e o relacionamento aberto, modelos que fazem parte da chamada "não monogamia ética". Apesar de frequentemente confundidos, eles apresentam diferenças importantes, especialmente quando o assunto é a gestão dos sentimentos, dos limites e dos conflitos.
A psicóloga clínica e sexóloga Alessandra Araújo explica as diferenças com um olhar clínico cuidadoso. "A não monogamia ética (NME) retira as pessoas do ‘piloto automático’ social e as obriga a negociar cada centímetro da relação”, defende a especialista.
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Poliamor vs. Relacionamento Aberto
Alessandra explica que, na prática clínica, a principal diferença entre os dois modelos está na gestão do afeto. No relacionamento aberto, os conflitos costumam ser mais “técnicos”, geralmente o foco está no sexo casual. A ansiedade costuma surgir quando um dos parceiros desenvolve sentimentos por um terceiro, o que passa a ser visto como uma “quebra de contrato”.
Já no poliamor, o desafio principal está na gestão do tempo e de múltiplos vínculos, as pessoas lidam com a complexidade de amar e cuidar de várias pessoas ao mesmo tempo. Nesse formato, a vulnerabilidade emocional tende a ser maior, pois os sentimentos não são negados, eles são reconhecidos e trabalhados dentro da relação.
Conflitos mais comuns em terapia
Muitos acreditam que o ciúme seja um sentimento exclusivo de casais monogâmicos e que relações mais abertas ou poliamorosas não enfrentem esse tipo de emoção. No entanto, Alessandra relata que o ciúmes continua sendo o tema central de muitas queixas em terapia.
Segundo ela, esse sentimento costuma aparecer de diferentes formas, uma delas é a chamada assimetria de datas, quando um parceiro consegue muitos encontros enquanto o outro não. Outra situação comum é a quebra de acordos, quando algum limite estabelecido é ultrapassado — por exemplo, levar alguém para casa quando o combinado era não fazer isso.
Há também o chamado conflito de empatia, muitas vezes, um parceiro compreende racionalmente que o outro tem o direito de sair e se relacionar com outras pessoas, mas emocionalmente ainda sente angústia ou tristeza, essa desconexão entre o “entender” e o “sentir” costuma gerar sentimentos de culpa dentro da relação.
Perfil e momento de vida
A psicóloga explica que não existe um perfil único de pessoas que buscam esse tipo de relacionamento, mas alguns padrões aparecem com mais frequência na clínica. Entre eles estão jovens da Geração Z, que muitas vezes iniciam a vida sexual questionando a monogamia como modelo padrão, e também aparecem casais de longa data, que já consolidaram família e patrimônio e buscam revitalizar o desejo sem necessariamente romper o vínculo construído.
O que leva à abertura da relação?
Em muitos casos, a abertura da relação surge a partir da busca por mais autonomia e da percepção de que uma única pessoa não pode, e talvez nem deva, suprir todas as necessidades existenciais, intelectuais e sexuais de um parceiro, explica a psicóloga. Em outras situações, o desejo de explorar fetiches ou experiências que o parceiro atual não compartilha acaba impulsionando essa conversa, a proposta, segundo a especialista, costuma ser somar experiências, e não substituir o parceiro.
Cuidados para a relação funcionar
Para que esse tipo de relação funcione de maneira saudável para todos os envolvidos, o casal precisa desenvolver o que a psicóloga chama de um “músculo altruísta” bem treinado. Um dos conceitos centrais é a compersão, que é a capacidade de sentir alegria pela felicidade do parceiro com outra pessoa, outro ponto é o altruísmo prático.
Além disso, a comunicação precisa ser radicalmente transparente. Nesse tipo de relação, nada pode ser “varrido para debaixo do tapete”.
Dica da Psicóloga
Alessandra acrescenta ainda que um ponto interessante é como a tecnologia e os ambientes imersivos podem ajudar as pessoas a se prepararem para esse tipo de dinâmica.
No futuro, esses ambientes virtuais podem funcionar como “espaços seguros” para que casais simulem a abertura da relação e observem como se sentem antes de tomar essa decisão na vida real.
A não monogamia ética não é o caminho mais fácil, mas pode ser um caminho de profundo autoconhecimento, que exige um equilíbrio constante entre compreender o outro e respeitar os próprios limites emocionais.
*Estagiária sob supervisão de Ronayre Nunes

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