
No ar como Eduarda em Coração acelerado, da TV Globo, Gabz constrói uma mocinha que se move entre a fragilidade e a potência com a naturalidade de quem conhece bem esse trânsito. "Uma das partes mais divertidas é estar no palco como a Eduarda, porque é outro lugar. Ela se move como uma artista sertaneja, mas a gente tem algo muito forte em comum: o palco como lugar de poder", afirma a atriz e cantora carioca que dá vida a uma representante do feminejo goiano na novela criada e escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento.
Há um espelhamento delicado, quase inevitável. "Fazer música é o lugar onde eu me sinto inteira… me sinto mágica", conta, como quem reconhece um território íntimo. "Eu dei isso para a Eduarda. Alguém com a história dela, uma menina que não tem base familiar, não tem para onde voltar, só tem ela mesma... O palco é o lugar de superpoder dela", observa a ariana, que celebra, neste domingo (29/3), 27 anos.
Para Gabz, há uma troca genuína. "Sinto que ela também passa isso para mim: essa minha necessidade de voltar para a música, de estar com a música perto de mim. Eu acho que vou passar a minha vida inteira tendo saudade de uma das disciplinas que eu faço — acho que se eu ficar muito na música, vou sentir falta de atuar e, se atuo muito, vou sentir falta da música. Esse é um destino que eu aceito com o maior prazer, porque eu acho que tenho uma honra muito grande de poder circular entre esses universos", argumenta a filha de Irajá, reduto da zona norte carioca.
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Talvez seja esse gesto que dá à personagem uma densidade rara para o horário. A travessia entre o rap, o R&B e o sertanejo, longe de ser um obstáculo, transforma-se em ferramenta. Gabz fala de técnica como quem fala de corpo e há, nessa busca, um rigor silencioso. A cantora que nasceu da escrita — "se eu não fosse atriz nem cantora, eu ainda escreveria" — vê-se desafiada por uma personagem que começa pela voz.
"Considero a Eduarda bem mais cantora que eu. Ela me obrigou a ser mais cantora", admite. O resultado é uma troca contínua, quase simbiótica: "Fui obrigada a aprender técnicas que não dominava, e agora tenho esse arcabouço. Ser a atriz tem muito disso, né? Você vai aprendendo a viver outras vidas e encontrando essas vidas dentro de você". E ela solta, meio brincadeira, meio confissão, revelando o tipo de relação que ultrapassa o roteiro: "Eu super faria um feat com ela".
Herança e urgência
Esse trânsito entre linguagens acompanha Gabrielly Nunes desde cedo. Muito antes de protagonizar Mania de você, em 2024, como a cozinheira Viola, ela carregava a arte como herança doméstica — o pai é artista — e urgência pessoal. Passou pela televisão ainda criança, atuando com a Rainha dos Baixinhos no filme Xuxa em sonho de menina, estreando em telenovelas como Gracinha em Ciranda de pedra e dividindo com Taís Araújo a primeira e única Helena negra de Manoel Carlos em Viver a vida (2009). Atravessou sets, palcos e batalhas de slam até entender que não havia outro caminho possível. "Sou artista antes de ser pessoa pública. Meu compromisso é de fazer arte como eu acredito, e de usar minha arte como ferramenta de proposição de debates e mudanças sociais", avalia, com uma firmeza que não soa ensaiada.
Quando fala sobre protagonismo, o tom aprofunda. Há consciência histórica, mas também uma recusa em reduzir a experiência à dor. "A gente precisa que as pessoas enxerguem pessoas negras na sua totalidade, com mais carinho, com mais humanização. O audiovisual constrói nossa visão de beleza, de comportamento. A mudança cultural é essencial para a superação do racismo. A nossa história carrega a racialidade não só no lugar da dor, mas também da experiência humana", defende Gabz.
A memória recente ainda guarda o impacto da série Temporada de verão, gravada em meio à incerteza da pandemia, quando ela tinha sido destacada em Malhação Toda forma de amar e investido tudo na atuação. "Não sabia exatamente o que ia ser do meu futuro, e aí veio esse produto lindo. Esse papel é muito importante pra mim. Lembro dele com muito afeto", emociona-se, destacando, ainda, o filme Um ano inesquecível: Outono, no qual foi dirigida por Lázaro Ramos.
Já em Da ponte pra lá, da HBO Max, o encontro é de origem. "Foi um presente enorme. Pude falar da cultura hip hop, do slam, de algo que dá dignidade e eixo para as pessoas da periferia", dispara a atriz, que estudou em escolas tradicionais, mas reconhece, sem hesitar, onde se formou de fato: "A minha grande escola foi a roda cultural, a roda de rima. A arte faz parte da nossa cultura, da nossa identidade e da formação da gente enquanto ser humano. Cultura é uma das coisas que me faz ser ser humano. Então, eu fico muito emocionada e muito feliz de poder ter representado nas telas essa cultura tão linda e maravilhosa".
Equilíbrio possível
Talvez, por isso, o ritmo industrial das novelas não a assuste, apenas a instigue. "É uma produção que se diferencia de tudo. Por ser uma obra aberta, o processo de estudo do personagem é muito diferente. Eu acho muito interessante, muito instigante. Dá um tesão você não saber o que vai acontecer com o personagem, e isso é meio doido de se construir, porque você tem uma base, mas outras coisas vão acontecer, e você não sabe como o seu personagem vai reagir. E a vida é um pouco assim, a gente não tem certeza de como a gente vai reagir em determinadas situações", diz, rindo da própria franqueza.
Ao mesmo tempo, há o desejo de outro tempo: "O meu sonho enquanto atriz é de variar entre novela e filmes para você não se engessar muito em uma forma. Mas tinha vontade de, um dia, ter oportunidade de ter esse tempo todo para construção de uma personagem de novela".
Entre a urgência e o aprofundamento, Gabz busca o equilíbrio possível. Quer circular, evitar o enrijecimento, manter a curiosidade intacta. "A arte é um aprendizado eterno", resume. No fim, quando olha para trás, para a menina que começou cedo demais para entender o tamanho do caminho, não há conselho elaborado, nem tentativa de controle sobre o destino. "Vai ser difícil, mas você consegue", finaliza.

Diversão e Arte
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