
Quando vem tocar em Brasília, Celso Adolfo já sabe: pela quantidade de músicos sempre presente na plateia, é preciso montar um repertório à altura e nunca esquecer os clássicos. Mineiro de São Domingos do Prata, parceiro de Milton Nascimento, João Bosco e César Camargo Mariano, herdeiro de uma música lapidada no canto e violão, o cantor, compositor e violonista sobe ao palco do Clube do Choro hoje para um show cuidadosamente planejado.
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Clássicos como Coração brasileiro, que dá nome ao primeiro disco e tem produção de Milton Nascimento, e Nós dois, regravada pelo ator Gabriel Leone (de O agente secreto) para uma estreia no meio musical, Celso Adolfo resolveu incluir três inéditas. São faixas que estarão no próximo disco e foram gravadas em um estúdio em Barbacena após uma descoberta da qual o compositor não se cansa de falar.
Este ano, ele esteve na cidade mineira para conhecer a Bituca: Universidade de Música Popular, uma escola livre e gratuita fundada em 2004 pelo Grupo Ponto de Partida e referência na formação musical em Minas Gerais. "Me impressionou muito", conta o músico. "Descobri que posso gravar meu disco lá. É incomum pensar em gravar disco numa cidade do interior, isso não acontece, porque os estúdios estão concentrados nas cidades maiores e o custo é muito alto. Mas os estúdios de Barbacena estão bem equipados e já gravei três músicas lá. E tem músicos muito bons que posso contratar pra tocar comigo", garante Celso Adolfo, que ficou encantado com os microfones Neumann, reputados entre os melhores do mercado, disponíveis para gravação. "Quando voltar de Brasília, gravo mais três músicas por lá."
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Para o show do Clube do Choro, ele traz as inéditas Pra mode pensar, referência à corruptela comum na fala interiorana, Flor, minha flor, feita com os versos de Declaração de amor, de Carlos Drummond de Andrade, e Dizumbando, homenagem ao músico Maurício Tizumba. "Esse poema do Drummond é muito lindo e a vida inteira gostei muito dele. Um dia, conversando com José Miguel WIsnik e vendo o que ele fez com um poema do Drummond, me veio a vontade", lembra. "É raro eu fazer isso porque não é toda hora que a gente acerta de colocar melodias em poemas prontos, ainda mais de Carlos Drummond. Mas muita gente faz isso. Meu cuidado foi não interferir no poema. Tem que ter esse cuidado."
Canções do disco Pratiano, o mais recente de Celso Adolfo, lançado em 2023, também estão no show. O álbum é uma homenagem à cidade natal do músico, São Domingos do Prata, e tem o gentílico de quem nasce por lá como título. É um disco melancólico, especialmente no que diz respeito à faixa-título, mas também variado. Celso Adolfo tratou de incluir ritmos que admira e que representam outras regiões do Brasil, como o samba e o coco. Ele sabe que faz música bem mineira e que isso reflete nas letras e melodias. "O que Pratiano e Coração brasileiro têm de comunicação entre si é meu estilo de abordar, de buscar termos, aforismos. Coração brasileiro é totalmente mineiro, mas os dois discos têm esse componente da minha regionalidade, que são as coisas sobre as quais eu suponho ter domínio emocional completo. Minhas coisas vão ter sempre essa marca. Tá na letra, no violão, na melodia. A música mineira não é uma só. Tem do caipira ao rock. Mas tem uma turma com a qual andei muito, e onde estão Milton e Beto Guedes, que é uma turma que tem uma melodia muito própria. Todo mundo acha que isso se deve à música sacra, no fundo da nossa história. Coração brasileiro é isso. É uma música barroca, as notas vão andando juntinhas, isso é Bach puro", explica o músico.
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Mas Pratiano tem também algumas homenagens. Se Minas está muito presente nos discos anteriores, Estrada Vila Real e Remanso do Rio Largo, este último inspirado no livro Sagarana, de Guimarães Rosa, Pratiano tem também o Nordeste. "Tem uma coisa que inventei na música Coco calangado, muita nota num tempo só, desconcerta qualquer um. Para nós, em Minas, o ritmo calango é muito comum. Misturei com o ritmo do coco alagoano homenageando Jacinto Silva e Onildo, os dois cantores de coco de Alagoas", avisa. "Pratiano não é temático e não tem determinados elementos do que é música mineira. Não uso viola, por exemplo, não uso muitos duetos, tem samba. Ele é diferente dos outros, no fim das contas. Coloquei até uma valsa", brinca o descendente direto de Domingos Marcos Afonso, o português que fundou São Domingos do Prata no final do século 18.

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