“Antes de sermos Os Melhores do Mundo, éramos A Culpa é da Mãe — dois complexos passíveis de análise, confesso”, zomba Ricardo Pipo, integrante da principal companhia de comédia de Brasília. Quando criado, em 1995, o grupo também formado por Adriano Siri, Adriana Nunes, Jovane Nunes, Victor Leal e Welder Rodrigues talvez estivesse apenas brincando com o superlativo absoluto e mal imaginasse que, 31 anos depois, estaria celebrando três décadas de teatros lotados por todo o país e pelo mundo. A conquista, portanto, é motivo de festa para a Cia., que, durante o mês de maio, apresenta os grandes sucessos da carreira na Sala Martins Pena do Teatro Nacional.
Ao longo do tempo na estrada, foram, segundo Pipo, cerca de 35 espetáculos montados — entre eles, 12 rodam o Brasil “com certa frequência”. “Sem humildade alguma, uma companhia teatral autoral, com a mesma formação há 31 anos e vasto repertório, hoje, no Brasil, é algo raro o suficiente para se dar ao luxo de exibir quaisquer obras com a igual confiança no resultado”, declara Pipo sobre as peças que farão parte do Festival Os Melhores do Mundo 2026.
Nos próximos três fins de semana, os atores sobem ao palco da Martins Pena para apresentar Telaplana, Notícias populares e Os Melhores do Mundo Futebol Clube, espetáculos que abordam desde o universo digital até a Copa. “O grupo trata, em cena, de assuntos cotidianos, não importando o tema da peça. É vivo, orgânico, não datado e, sendo Brasília nossa cidade do coração e onde crescemos e vivemos até hoje, temos o famoso “lugar de fala”. Estamos ansiosos para tratar das particularidades locais usando como pano de fundo temas bíblicos, desportivos, tecnológicos e até mesmo jornalísticos”, adianta o humorista.
Criada na capital, a Cia. divide tamanha conexão com a capital federal que ambas celebram aniversário em 21 de abril. “Nada seríamos sem o público brasiliense, que foi quem nos jogou para cima e nos convenceu de que o que fazíamos era algo digno de atenção. Temos máximo respeito e damos sempre prioridade à cidade. Humor exige lastro cultural e considero o público de Brasília mais exigente neste sentido, sobretudo quando o assunto é política. A cidade sempre me pareceu muito bem informada e disposta a rir para não chorar”, avalia Pipo.
Os espetáculos
Mais atual das peças do grupo, Telaplana promete arrancar gargalhadas dos brasilienses no próximo fim de semana. “Quando alcançamos o reconhecimento nacional, ficamos durante um longo período apenas repetindo os espetáculos que já existiam, apesar de sempre adaptá-los a cada cidade onde nos apresentamos, porém sem criar algo sob um novo tema, que merecesse nossa dedicação”, explica o ator.
A peça, lançada em 2024, foi a primeira inédita dos humoristas desde 2004. “Tratamos do que circunda o assunto, da mesma forma que os ditos especialistas no tema internet: sem saber nada sobre”, brinca o humorista. “Portanto, Telaplana é apenas mais um exercício bastante limitado do pensar sobre o assunto, mas entregando o que vendemos: risadas. Em média, uma a cada minuto, podem cronometrar”, garante o comediante, que ainda considera o grupo “analógico como um Fusca”.
Ele lembra que, nos primeiros espetáculos da Cia., sequer existia telefone celular. “Os fãs faziam todo o trabalho e nos concentramos no fazer teatral. Assim adquirimos uma certa experiência na base da insistência e perseverança”, narra.
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A web, porém, foi uma das principais ferramentas que ajudou na projeção nacional, e até internacional, do grupo, aponta Pipo. “Acho que nós utilizamos muito pouco as plataformas, na verdade, permitimos que as plataformas usassem a gente, evitando derrubar repostagens, por exemplo, e isso ajudou a nos popularizar”, aposta o ator. “O assunto internet, então, ganhou a nossa atenção, e percebemos que gostamos muito mais de criar do que replicar. Nos deu um novo gás”, diz o integrante.
Foi por meio da internet, inclusive, que Joseph Climber se tornou um dos personagens mais icônicos do grupo. Em 2006, o sexteto apresentou uma esquete do espetáculo Notícias populares no Programa do Jô, na Rede Globo, que posteriormente foi publicada na web, ganhando grande repercussão.
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Em Brasília, o papel é relembrado nos dias 16 e 17, com duas sessões da peça que está em cartaz há 29 anos. “Nossas obras são como a estrutura de um prédio cujo acabamento fazemos em cena, a cada apresentação, surpreendendo até mesmo aquele fã que sabe as falas de cor, como o refrão de uma música. Nos divertimos criando e improvisando, sempre, acho que isso mantém o frescor da coisa”, pondera o ator.
Segundo ele, podem-se passar décadas, mas os espetáculos nunca estarão 100% prontos, “a ponto de ter o texto impresso em um livro, por exemplo”. “Somos uma Cia. com seis atores e sem diretor, ou melhor, cuja direção é feita pelo público. Não temos apego a nenhuma ideia. Se a plateia reagir da forma que esperamos, e nem sempre é com risadas, pois somos um estranho grupo de comédia que adora ser vaiado ao pegar propositalmente em pontos sensíveis ao espectador, isso é mantido, sendo improviso ou não. Se não funciona, no dia seguinte não faz mais parte da peça. Simples assim”, resume Pipo.
Fecha o festival, nos dias 23 e 24, o espetáculo Os Melhores do Mundo Futebol Clube, peça que, de certa forma, pode ser vista como novidade, assim como Telaplana, pois é apresentada apenas de quatro em quatro anos, em época de Copa. “Esse assunto é tão bom que está em praticamente todos os nossos espetáculos. Adoramos nos apresentar em cidades com torcidas polarizadas, porque isso só potencializa as piadas em cena”, afirma o integrante do grupo.
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Para Pipo, o mês de celebrações pode ser comparado a “aquela plaquinha na porta da padaria: atendemos desde 1995”. “Acho importante lembrar o cliente que ele pode até não apreciar o sabor dos pães, mas sabemos fazê-los de forma primorosa e não é de hoje. Alcançar o marco de três décadas passa a segurança do profissionalismo e preocupação com o conforto e satisfação do cliente que por ventura ainda não tenha se arriscado a rir conosco. Vem, que está sempre saindo do forno”, finaliza.
Serviço
Festival Os Melhores do Mundo 2026
Dias 9, 10, 16, 17, 23 e 24 de maio, no Teatro Nacional. Sessões às 21h aos sábados e às 20h aos domingos
Entradas podem ser adquiridas por meio da plataforma on-line Ingresso Digital, a partir de R$ 75 (meia-entrada)
Classificação indicativa: 16 anos.
