
Clarissa Alppet, já afirmada como diretora do longa A casa de Cecília, uniu forças com Daniel Dias, autor do roteiro do filme Nosso sonho, para a realização da primeira colaboração entre ambos que resultou no filme de suspense Herança de Narcisa, estreia da semana no circuito. Um passado com muitas questões pendentes desde a infância carioca move a personagem de Paolla Oliveira, gradualmente envolta numa teia terror.
Fantasmas, luto, traumas e relações abusivas estão na linha de frente de Ana (Paolla) que, na outrora casa da mãe dela, uma ex-vedete, se reúne com o irmão Diego (Pedro Henrique Müller), a fim de exorcizar sequelas emocionais de longa data. Premiado como melhor filme pelo júri popular do Festival do Rio, o longa tem participação de Rosamaria Murtinho, e conta com trilha sonora de Marcelo Conti e montagem do próprio codiretor Daniel Dias.
Entrevista // Clarissa Appelt e Daniel Dias, cineastas
O filme trata do horror de um vínculo indissociável, e eventualmente malquisto?
Clarissa — Esse vínculo, elo, ou laço, para trazer mais a imagem da fita vermelha, é de fato indissociável. É o laço que carregamos da carga emocional dos nossos antepassados, que formam quem somos e muito dos nossos traumas e experiências. São as faltas, as mágoas, as vidas não vividas, mas também toda a força, alegria, amor, o brilho…é tudo junto. No inicio do filme, o laço é visto pela personagem como uma maldição, para ser entendido ao final como algo que pode ser ressignificado e compreendido de forma mais leve, pois ele sempre será passado para futuras gerações e somente nós podemos controlar como ele seguirá daqui em diante.
Qual a importância de ter somatório (e equiparação) de um talento feminino na produção?
Daniel — Eu e Clarissa temos uma parceria já de longa data. Nossa formação acadêmica é bem parecida, frequentamos a mesma faculdade e a mesma bolsa de mestrado nos Estados Unidos, ambos como bolsistas Fulbright, e dividimos a criação e a coordenação de um curso de roteiro no Brasil. Muito por isso, ao longo dos anos, acabamos desenvolvendo uma troca bem particular que facilitou muito o processo de codireção, que foi muito orgânico e frutífero. Para além dessa nossa conexão bem-sucedida, Herança de Narcisa é, antes de tudo, um filme profundamente atravessado por uma experiência feminina. É uma obra que passa por temas como ancestralidade, relação mãe e filha, memória familiar e maternidade. Por isso, a visão e experiência da Clarissa foram, na verdade, mais do que somatórias, mas sim pontos de partida essenciais para o filme existir, e ser tão potente.
Há a expectativa da quebra de uma maldição, na trama e como lidaram com o vínculo junto à religiosidade?
Clarissa — No filme não tratamos diretamente de nenhum vinculo religioso, mas existem inspirações no sincretismo brasileiro como um todo. Trabalhamos numa sensação que é ao mesmo tempo emocional, psicológica e espiritual. Na crença de que coisas mal-resolvidas e não ditas podem ficar como fantasmas e podem até nos possuir. Apontamos para a necessidade de um exorcismo, simbólico e metafórico, mútuo entre mãe e filha, para abrir caminhos afetivos para toda uma linhagem feminina na família.
No que resultou o trabalho conjunto?
Daniel — Acredito que no caso de Herança de Narcisa, a minha visão veio numa tentativa de somar, com um olhar autoral próprio, ajudando a decifrar esses sentimentos e temas tão complexos a fim de melhor explorá-los no filme dramaticamente, principalmente através da trama que criamos, dos personagens que a habitam, e o ritmo angustiante que se impõe. O diferencial do filme nasce justamente nessa colaboração, dessas duas visões em um diálogo honesto e profundo em busca de uma mesma resposta para perguntas que nos fazemos todos.

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