
Poucos jogos alcançaram o status de fenômeno cultural como a franquia Grand Theft Auto (GTA), da Rockstar Games. Com 28 anos no mercado, a série já acumulou inúmeras polêmicas, gerou debates e, a cada lançamento, mudou a forma com que o mundo interage com a indústria de games.
Lançado em 2013, o quinto jogo da série já vendeu cerca de 220 milhões de unidades, número maior do que os habitantes do Brasil. Já o trailer do próximo jogo, GTA VI, foi visto mais de 93 milhões de vezes apenas nas primeiras 24 horas.
No mundo gamer, é possível identificar diferentes gerações de fãs que tiveram contatos com distintos momentos da franquia. Se você era fã de videogames nos anos 2000 no Brasil, é bem provável que tenha conhecido GTA: San Andreas (2004) em uma lan-house.
Revolução cultural nos jogos
Para Matheus Schlittler, doutorando em comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador na área de estudos de jogos, a série é responsável por uma verdadeira revolução na cultura pop.
“A Rockstar é uma das maiores (empresas) da indústria e uma das que mais se arrisca”, afirma lembrando outros sucessos da empresa, como Red Dead Redemption 2 (2018). “Eles têm um olhar cinematógrafo. Cada jogo é um teste para uma nova engine (expressão para designar um "motor gráfico") que a Rockstar está lançando e que vai ser base para o que vem pela frente”.
A série é responsável por outras mudanças na indústria, lembra Schlitter. Se GTA: San Andreas popularizou as modificações feitas pela comunidade gamer no jogo, o novo lançamento, previsto para 19 de novembro, promete encerrar a era da mídia física nos jogos.
Assim, quem adquirir a caixa do jogo não receberá o clássico CD, mas sim, um código para o download. Logo após o anúncio, a Sony informou que pretende encerrar a produção das mídias físicas em 2028.
Jogo no Brasil: um retrato do tempo
Apesar de ter sido lançado após outros quatro jogos da série, foi GTA: San Andreas que fez a série cair no gosto dos brasileiros. O jogo se passa em 1992, com referências de filmes de gangsters e conflitos raciais que tomaram Los Angeles naquele ano.
Lançado para o Playstation 2, San Andreas rapidamente passou a ganhar versões modificadas pelos próprios fãs. Frases dos personagens viraram bordões, a trilha sonora se tornou clássica e o jogo virou febre nas lan-houses.
O pesquisador afirma que é difícil encontrar um só motivo para San Andreas ter atraído tantos jogadores brasileiros. “Na época, era difícil ter acesso à jogos devido ao preço. Se não fosse a pirataria, não teríamos esse acesso ao videogame”, lembra. As polêmicas em relação à violência e discussões em fóruns de internet que furaram a bolha gamer também podem estar entre as razões da fama de San Andreas.
Atualmente, GTA V é a entrada para os fãs da nova geração, mesmo 13 anos após o lançamento. O modo on-line é que garante a sobrevida do game: as diversas atualizações, com itens novos e missões, fazem com que os servidores continuem lotados.
No Brasil, GTA V se tornou sinônimo de "roleplay", quando os jogadores criam personagens e simulam dinâmicas reais, como policiais em patrulha ou simples moradores de Los Santos vivendo vidas comuns. Se depender dos fiéis jogadores, a febre só deve passar com o próximo lançamento.
“Espírito do tempo” de GTA
A partir de GTA 3 (2001), os jogadores foram apresentados a cidades que fazem referência direta à locais reais dos Estados Unidos. Los Santos é Los Angeles, Liberty City é Nova York e a ensolarada Vice City, palco da nova história, é Miami. Nelas, é possível passear no estilo mundo aberto e conhecer de perto os cenários para os assaltos, tiroteios e corridas que marcam a franquia.
Nos Estados Unidos imaginados pela Rockstar, tudo é exagerado, porém sem deixar de tocar em questões reais com muitas doses de humor ácido. No quarto jogo, de 2008, o protagonista Niko Bellic vive situações relacionadas à realidade de imigrantes em uma cidade fictícia paranoica com recentes ataques terroristas, fazendo referência à Nova York-pós 11 de setembro. Em GTA V, redes sociais já são um tema incipiente para os personagens, assim como a ascensão de movimentos anti-imigração e de extrema direita.
Schlittler aponta que as histórias contadas pela franquia estão inseridas no "zeitgeist" do mundo em que surgiram. O termo alemão significa “espírito do tempo”. Ou seja, para o sexto episódio da série, os fãs podem esperar muitas referências aos Estados Unidos marcados pela administração Trump e mudanças tecnológicas.
“Estou empolgado para ver como os desenvolvedores vão abordar a questão das redes sociais. Querendo ou não, é a forma com que a gente vive hoje em dia”, afirma o pesquisador. “Acredito que será o início de uma nova forma de lidarmos com os jogos”.
A presença inédita de uma personagem feminina nos trailers também apontam novas possibilidades no jogo. “Você tem que conhecer o público com que está lidando. Felizmente, temos um público gamer cada vez mais diverso hoje em dia. Vemos várias produções abordarem questões importantes de formas sensíveis. Vamos ver o que a franquia vai fazer a partir disso”, afirma Schlittler.

Diversão e Arte
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