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Erica Montanheiro vive mãe de Elize Matsunaga em filme na Netflix

Em sua estreia em grandes produções audiovisuais, atriz interpreta a mãe da protagonista em "Elize, sombras de uma mulher", fenômeno da Netflix. "Fazer parte de uma obra que provoca reflexões e que alcançou público tão grande é um marco", avalia

Erica Montanheiro, atriz -  (crédito: Caio Oviedo)
Erica Montanheiro, atriz - (crédito: Caio Oviedo)

Com mais de duas décadas de trajetória nos palcos, Erica Montanheiro — atriz, diretora, dramaturga e preparadora de elenco — atravessa agora um marco significativo em sua carreira ao estrear em uma superprodução do audiovisual. No filme Elize, sombras de uma mulher, da Netflix, sob a direção de Vellas, ela interpreta a mãe da protagonista Elize (Lorena Comparato), em uma trama que expõe ciclos de violência, abusos e relações familiares marcadas por silêncios e omissões.

O longa-metragem conquistou repercussão internacional e atingiu o topo do ranking global da plataforma entre os títulos de língua não inglesa, levando uma narrativa brasileira a espectadores de diversos países. Para Erica, o alcance do projeto superou qualquer expectativa.

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“Eu tinha certeza de que seria um bom filme”, afirma a atriz, que faz questão de destacar o trabalho da Boutique Filmes na pré-produção e nas gravações, além do roteiro assinado por Raphael Montes e Mariana Torres, da direção de Felipe Vellas, da produção de elenco de Marcela Altberg e da preparação de Maria Silvia Siqueira Campos.

O impacto internacional, porém, ganhou contornos surpreendentes quando Erica soube que o jogador Kylian Mbappé havia assistido à produção. “Uma amiga me mandou o story dele vendo o filme e disse: ‘o Mbappé te viu atuando!’. Foi aí que tomei real dimensão da audiência gigantesca. Foi muito emocionante”, conta, entre risos.

Nas entrelinhas

Apesar da participação pontual na trama, a mãe de Elize ocupa papel fundamental para a compreensão da protagonista. O passado familiar revela feridas que moldam a personagem e expõe um ambiente onde relações abusivas se repetem entre gerações.

Erica ressalta que um dos maiores desafios foi conferir humanidade à personagem sem transformar essa humanidade em justificativa para suas escolhas. “Não há justificativa. Mas o cinema pode ser um espaço para provocar reflexões”, explica. A atriz observa que o histórico familiar apresentado no roteiro levanta questões sobre como a sociedade lida com a perpetuação de ciclos de violência.

Já falecida no momento em que a história se desenrola, a mãe de Elize carrega seu próprio legado de relações abusivas. Para Erica, compreender esse contexto foi essencial para construir uma mulher aprisionada em um ciclo, sem, contudo, isentá-la de sua omissão diante dos abusos sofridos pela filha.

“O desafio foi encontrar humanidade sem justificar a omissão dela em relação ao padrasto abusivo e à forma como ele tratava Elize. Expor essas contradições em uma relação que deveria ser de acolhimento foi o foco da construção”, afirma.

Erica Montanheiro, atriz
Erica Montanheiro, atriz (foto: Caio Oviedo)

Com pouco tempo de tela, a atriz precisou conferir peso narrativo a cada gesto. “Tem que ser uma flecha! Não dá para fazer mistério e entregar depois. Cada segundo precisa expor a intenção e o sentido da ação”, resume. Nesse processo, o silêncio também se torna ferramenta de atuação — o que a personagem evita olhar, o que finge não perceber e o que não consegue dizer integram a construção tanto quanto as falas.

Erica também elogia a parceria com Lorena Comparato, intérprete de Elize. Mesmo com uma participação reduzida, a atriz encontrou na colega uma parceira generosa. “Ela sempre fez questão de me aproximar, de explorar camadas e valorizar meu trabalho. Que atriz magnífica, que artista sensível e comprometida, que pessoa bonita de se ter na vida”, destaca. A sintonia entre as duas, dentro e fora do set, contrastou com a relação tóxica vivida pelas personagens.

Do palco para a câmera

Formada pela École Philippe Gaulier, na França, bacharel em letras pela USP e em cinema e audiovisual, Erica Montanheiro construiu uma carreira marcada pelo trânsito entre diferentes linguagens. No teatro, trabalhou com Jô Soares em quatro espetáculos e com Miguel Falabella em diversas funções. Essa bagagem influencia diretamente sua atuação diante das câmeras.

Para ela, teatro e audiovisual partem da mesma essência — a construção da personagem e das relações —, mas com execuções distintas. “No teatro, a energia é construída para se sustentar num arco contínuo diante do público ao vivo; no audiovisual, o organismo vivo é a câmera — é preciso saber jogar com ela”, explica.

As diferentes funções que exerce também se retroalimentam. Como dramaturga, escreve pensando na voz que dará vida ao texto; como diretora, coloca o corpo do ator no centro da cena; como preparadora de elenco, trabalha a compreensão do personagem e de suas relações. “Minha cabeça pensa todas as funções a partir da arte do ator”, afirma.

Para ilustrar a diferença de intensidade entre as linguagens, Erica usa uma imagem simples: o ator precisa ter um “dimmer”, capaz de ampliar ou reduzir a potência da expressão conforme a cena exige.

Sua formação também foi moldada pelo encontro com artistas que ampliaram seu olhar sobre a cena. Jô Soares, além de parceiro profissional, foi uma referência fundamental para sua relação com a comédia. “Jô Soares é parte da história do teatro, e ter sido dirigida por ele em quatro espetáculos foi um aprendizado enorme, especialmente sobre timing de comédia”, recorda.

Sobre Miguel Falabella, ela fala com carinho da generosidade e lealdade nas relações profissionais. Já a experiência na França, na escola de Philippe Gaulier, completou uma tríade na construção de seu olhar artístico. Segundo Erica, os três mestres a ensinaram a observar personagens e situações também pela lente da comédia — inclusive quando a história é trágica.

“Toda situação trágica pode conter algo de ridículo. A vulnerabilidade do ser humano pode ser muito patética. E, às vezes, esse patético desperta o riso; às vezes, desperta piedade e comoção”, reflete.

O ator no centro

A participação em Elize, sombras de uma mulher chega em um momento de intensa atividade profissional. Em outubro, Erica estreia como atriz no espetáculo Cansei de ser belo, com direção de Kleber Montanheiro, no Teatro YouTube. Paralelamente, atua como preparadora de elenco do musical Gil – Andar com fé, dirigido por Miguel Falabella, e prepara o antropólogo Michel Alcoforado para sua estreia nos palcos com a aula-espetáculo Coisa de rico: Outras histórias, inspirada no best-seller homônimo.

Apesar da multiplicidade de projetos, Erica mantém o foco em um mesmo centro: o ator. “Apesar da diversidade das funções e dos projetos, meu olhar sempre parte do centro da cena — e o centro é sempre o ator!”, enfatiza.

E é justamente ao retornar a esse centro, diante do público ou da câmera, que ela reencontra uma sensação que permanece viva após tantos anos de carreira. “Atuar sempre me dá frio na barriga. Aquela adrenalina gostosa de montanha-russa”, conta.

Para Erica, estar fora de cena pode trazer uma sensação de inadequação; em contrapartida, quando atua, experimenta um pertencimento. “Estar em cena me traz pertencimento, parece o lugar certo, na hora certa. É como se o tempo entrasse em suspensão.”

A estreia em uma produção audiovisual de grande alcance, portanto, representa mais do que uma nova frente profissional. É a expansão de uma trajetória construída a partir da atuação, que encontra na câmera mais uma possibilidade de investigar o ser humano, suas contradições e suas histórias.

 

 

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postado em 27/08/2026 07:00 / atualizado em 02/09/2026 17:46
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