A aproximação da soprano Marília Vargas com a China aconteceu por acaso. Quando morava na Europa, em 2004, a cantora passeava por um site na internet e se deparou com uma passagem barata para o Império do Meio. Comprou e embarcou sem grandes expectativas, mas voltou encantada e fascinada. Passou a ir à China todos os anos em uma peregrinação anual como turista. Com o passar do tempo, foi mergulhando na cultura do país e começou a se interessar pela música ao ponto de montar o espetáculo Do Yangtzé ao Amazonas, que traz ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em apresentação única, nesta terça-feira (29/9), às 20h.
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Com árias da música tradicional chinesa e de compositores eruditos brasileiros, Marília, que convidou o violonista Fábio Zanon para dividir o palco e a soprano chinesa Yu Xi, quer contar uma história que exalta os dois rios mais importantes para os dois países. O Yangtzé é considerado o maior rio da Ásia, com 6.300 km desde a nascente no Tibete até o mar da China Oriental. É um rio tão mítico quanto o Amazonas, que inspira a produção artística, por isso o repertório mescla músicas que exaltam as regiões.
O espetáculo começa com o ciclo de quatro canções Floresta do Amazonas, de Heitor Villa-Lobos. "São canções com muitas imagens dos pássaros, da floresta, e com textos de amor também", conta Marília. Na sequência, entram peças da mesma época de autores chineses, composições clássicas que falam do Rio Yangtzé e são a ponte para conectar com canções do paraense Waldemar Henrique, que trazem elementos míticos da Amazônia como o boi-bumbá e o uirapuru. "São composições que têm um lado mais ritmado do nosso cancioneiro. E finalizamos com a canção Eu te amo, China, uma homenagem da nossa parte para essa cultura", diz Marília, que compartilha algumas músicas com Yu Xi, soprano chinesa radicada no Rio de Janeiro.
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Fábio Zanon ficou responsável por fazer os arranjos que acompanham as duas cantoras. As canções chinesas foram as mais desafiadoras. Da mesma forma que o Brasil tem uma coleção de instrumentos característicos como sanfona, rabeca e cavaquinho, a China e sua cultura milenar produziram instrumentos tanto de corda quanto de sopro que são típicos e sem correspondências em outras culturas, como o erhu, um violino de duas cordas, e o guqin, uma cítara de sete cordas. Eles produzem as sonoridades da escala pentatônica que é tão típica da música chinesa e soa tão estridente aos ouvidos ocidentais. "E isso tudo, você consegue apenas evocar. E, aí, entra o problema: quando você faz um arranjo que procura imitar algo folclórico, é fácil virar loja de suvenir, você não mergulha na linguagem", explica Zanon, que se preocupou muito em evitar transformar os arranjos em caricaturas. "E a China, por conta da Revolução Cultural, meio que congelou a utilização de instrumentos ocidentais por algumas décadas, então instrumentos típicos deles se fortaleceram muito. Esse é o grande desafio: tentar entender a linguagem e não fazer uma imitação", explica o músico.
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Fazer os arranjos para as composições brasileiras foi mais tranquilo. "A música do Waldemar Henrique é muito brasileira, não é um desafio, mas é uma responsabilidade. É uma música que fala de boto, uirapuru, mãe d'água e, na letra, tem um componente forte de folclore local com certos ritmos característicos da Amazônia, como o carimbó, mas não são músicas indígenas, são canções de um compositor e poeta local", explica.
Para Marília, cantar em chinês também é o maior desafio do espetáculo. Formada em canto pela Schola Cantorum Basiliensis (Suíça) e especializada em Lied e Oratório pela Musikhochschule de Zurique, Marília ficou tão encantada pela música chinesa que passou a praticar com um coral amador em São Paulo, formado por membros da comunidade chinesa no Brasil. Foi um ponto de partida que a levou de volta à China, dessa vez como profissional. "Com esse grupo, cantei em diversos eventos da Embaixada da China e da comunidade em São Paulo, e fui cada vez mais me apropriando desse repertório", conta, lembrando que eles gravaram, inclusive, o álbum Paisagens da China, disponível nas plataformas de música.
A partir daí, a relação se estreitou. Em 2013, ela se apresentou na embaixada do Brasil em Pequim, durante o evento O ano do Brasil na China e, no ano seguinte, passou dois meses dando aulas em uma universidade chinesa. Em 2016, fez um concerto com André Mehmari em Pequim e, em 2024, cantou para Xi Jinping, presidente da China, em uma homenagem organizada pelo Ministério das Relações Exteriores durante viagem oficial do líder. O idioma é sempre um desafio enorme para a soprano. A escala pentatônica é típica da ópera chinesa, conhecida como Ópera de Pequim, cuja estética específica é cheia de ornamentos vocais. Não é essa a sonoridade das canções de Do Yangtzé ao Amazonas. "Não vou cantar árias de ópera chinesa. Vou cantar canções clássicas. E, muitas vezes, eles usam essa estética muito aguda, uma voz mais fina e estridente. Eu não canto com essa estética e, sim, com minha voz de cantora lírica tradicional", avisa Marília. "Mas acho que veste muito bem na minha voz esse repertório, porque tenho uma característica vocal bastante aguda e cheia de harmônicos."
Foram muitas horas de estudo para conseguir acertar as pronúncias. Marília não fala chinês, mas aprendeu as sonoridades das sílabas por meio do sistema de transcrição pinyin, que permite a escrita fonética em alfabeto latino, majoritariamente utilizado pelo Ocidente. "E, claro, tenho pessoas que auxiliam a melhorar essa pronúncia. Quando gravei o disco, tinha uma pessoa comigo no estúdio para corrigir cada sílaba", conta a soprano, que já levou o espetáculo para Xangai, Hangzhou, Pequim e Chongqing. "A gente está tão acostumado a fazer música europeia e americana que acha impossível cantar em chinês. E o projeto tem esse olhar de 'veja, é possível, acessível e bonito'. A gente se comunica."
