
Pedro Fasanaro, artista - (crédito: VINÍCIUS MOCHIZUKI)
Pedro Fasanaro vive uma fase de intensa circulação entre diferentes universos do audiovisual. No ar como Severino, em A nobreza do amor, novela das 18h da TV Globo, o ator também está presente no streaming em produções como Dona Beja e Alucinação, além de integrar o elenco do longa Esta noite não seremos estranhos, com estreia prevista para 2027. A multiplicidade de trabalhos acompanha uma trajetória construída entre televisão, cinema e plataformas digitais, mas encontra um ponto de convergência nos personagens que, segundo ele, são atravessados pela sensibilidade.
Na trama das seis, Severino chega com a família depois de ser expulso da terra onde vivia e encontra acolhimento no terreno de Tonho, personagem de Ronald Sotto. Para construir o jovem retirante, Fasanaro buscou uma conexão que passa pela própria experiência de viver em trânsito. Em 2027, ele completa uma década desde que deixou Natal para uma temporada que deveria durar apenas três meses no Rio de Janeiro e acabou se estendendo por mais de dois anos. Desde então, sua vida profissional o levou a temporadas em diferentes cidades, entre elas Natal, Rio de Janeiro e São Paulo. "Conheço de perto essa sensação de migrar e de precisar me reinventar a cada chegada. Cada retorno também é, de alguma forma, um recomeço", conta.
A experiência pessoal não se confunde com a trajetória do personagem, mas ajudou o artista de 28 anos a encontrar uma porta de entrada para Severino. Enquanto o rapaz migra em razão da fome e da necessidade de reconstruir a própria vida, Fasanaro associa seus próprios deslocamentos à sobrevivência profissional. "Existe também um ponto de encontro entre mim e Severino que passa pela sobrevivência, embora em circunstâncias muito diferentes. Evidentemente, são experiências que não se equivalem, mas reconhecer essa sensação de deslocamento me ajudou a encontrar um caminho de aproximação com ele", pondera.
Visibilidade ampliada
O momento profissional também permite ao ator experimentar diferentes formas de produção. Depois de passar um período longe da televisão aberta, desde Malhação Toda forma de amar, em 2019, Fasanaro encontrou no cinema e no streaming outras possibilidades de construção narrativa. Agora, com o retorno à TV Globo, ele volta a lidar com a visibilidade ampliada da novela sem abandonar os projetos desenvolvidos para outras plataformas. "Existe também a possibilidade de dialogar com públicos muito diferentes", afirma.
Essa disposição também aparece em Dona Beja, produção em que o artista não-binário interpreta um personagem LGBT inserido em uma narrativa sobre desejo feminino, poder e moralidade no século 19. A série propõe uma releitura contemporânea de uma história já conhecida, trazendo para o centro questões relacionadas à sexualidade, ao consentimento e às estruturas sociais. Para Fasanaro, a responsabilidade de participar de uma obra assim passa principalmente pela escuta.
"Assumir essa responsabilidade é fundamental para contar essa história sem que ela adquira um caráter unicamente educativo. Acho que é possível falar sobre assuntos delicados e tão necessários com paixão, envolvimento e delicadeza, chegando ao público primeiro pelo coração. É pela empatia que conseguimos tocar as pessoas", afirma ele, que na trama viveu Severina, dama de companhia da personagem-título defendida por Grazi Massafera.
O ator defende que personagens inseridos em contextos históricos precisam ser tratados para além da função de representar uma determinada discussão. "Existe uma preocupação em humanizar essas personagens, que, embora inseridas em um contexto histórico distante, carregam questões que permanecem profundamente atuais. É justamente essa aproximação que permite transformar a narrativa em um espaço de discussão profícuo, sem perder sua dimensão afetiva e artística", observa.
Sentimento universal
A experiência de Fasanaro também passa pelo cinema. Em Deserto particular, filme de Aly Muritiba que ganhou o prêmio do público no Festival de Veneza, o ator participou de uma história intimista sobre afeto e identidade que ganhou circulação internacional. A repercussão reforçou para ele uma característica fundamental da arte: a capacidade de transformar uma experiência particular em algo reconhecível para pessoas de realidades completamente diferentes. "O sentimento é universal", afirma o artista, que no longa também deu vida a uma personagem LGBT.
Para o ator potiguar, a circulação internacional do cinema brasileiro — evidenciada pelo êxito global recente de Ainda estou aqui e O agente secreto — não depende de abandonar aquilo que existe de particular em nossas histórias para tentar se adequar ao olhar estrangeiro. O movimento, segundo ele, acontece justamente quando o país amplia as perspectivas a partir das quais se conta.
"Acho que a gente está ampliando o olhar sobre o Brasil, contando histórias a partir de perspectivas que nem sempre encontraram espaço nas telas. O Brasil é um país profundamente rico, e sair dos eixos mais convencionais para olhar também para as margens nos permite descobrir outras realidades e outras maneiras de enxergar a nós mesmos", diz.
Fasanaro acredita que essa diversidade é justamente uma das forças do cinema nacional no diálogo com outros países. "Não acho que precisamos adaptar nossas narrativas para alcançar o olhar estrangeiro. Pelo contrário, é justamente na nossa diversidade que encontramos uma riqueza imensa. Afinal, o que a gente quer com a arte é se aproximar da vida", pondera.
A variedade de personagens que compõem sua filmografia também revela um interesse por homens que encontram diferentes formas de lidar com a própria sensibilidade. Severino, Severina, Ednardo (de Alucinação), e Alê (de Esta noite não seremos estranhos), pertencem a universos completamente distintos, mas têm, para o ator, uma característica em comum.
"O fio comum entre eles é a sensibilidade. Severino se torna sensível à força. Ednardo é sensível pela arte. Alê é sensível por natureza. São universos distintos, de fato, mas cada um deles carrega uma riqueza profunda no coração, que nasce justamente da crueza da vida atravessando suas histórias", explica.
Sedento pela imprevisibilidade
O próximo desafio, porém, pode levá-lo para o lado oposto desses personagens. Depois de interpretar homens marcados pela afetividade e pela delicadeza, Fasanaro gostaria de experimentar um vilão que não se limite à caricatura da maldade. O interesse está justamente nas contradições que tornam um personagem menos previsível.
"Sou muito grato por cada personagem que já interpretei. Cada um deles foi um presente. Olhando para o futuro, quero viver personagens fortes, com histórias intensas de superação. E tenho muita vontade de interpretar um vilão bem diferente de mim, que tenha uma história, motivações e contradições próprias", revela.
Mais do que simplesmente interpretar alguém mau, o ator procura um personagem capaz de provocar perguntas sobre as razões que o levaram a agir daquela maneira. "Um personagem que não seja mau simplesmente por ser mau, mas que tenha razões para agir como age, mesmo que essas razões não justifiquem suas atitudes. Acho que seria um desafio muito interessante como ator", conclui.
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Por Patrick Selvatti
postado em 05/10/2026 17:56
Diversão e Arte
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