
A formação de um ator não termina quando ele deixa a sala de aula. Para Cininha de Paula, o treinamento precisa acompanhar toda a trajetória profissional — inclusive nos períodos em que não há trabalho. É a partir dessa ideia que a diretora, atriz e professora lança Vamos treinar? 50 exercícios práticos de teatro e audiovisual, publicado pela Rubi Editorial. O livro chegou às livrarias nessa terça-feira (6/10) .
Segundo livro de Cininha, a publicação reúne 50 exercícios desenvolvidos e testados por ela ao longo de quase 25 anos de experiência como professora e educadora. O material é voltado a estudantes, professores e atores profissionais e pode ser utilizado tanto individualmente quanto em atividades coletivas.
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A ideia nasceu também da percepção das dificuldades enfrentadas por atores para manter uma rotina de preparação. Cininha conta que muitos profissionais a procuram em busca de bolsas de estudo por não terem condições financeiras de frequentar cursos. Para ela, diferentemente de outras profissões, o ator depende de oportunidades para colocar sua prática em ação.
“O ator depende que chamem ele para trabalhar. Ele não pode inventar o trabalho dele”, afirma. A partir dessa realidade, o livro procura oferecer uma alternativa de treinamento que possa ser realizada pelo próprio artista. “Esses exercícios, pelo menos, dá para o ator fazer sozinho. Claro que ele não vai ter o recall que vai ter em uma sala de aula com o professor, mas, pelo menos, ele vai estar se submetendo a alguma coisa.”
A proposta é que o ator possa repetir os exercícios, gravar seu desempenho, observar o resultado e tentar novamente. Para Cininha, esse processo mantém ativo um aspecto fundamental da profissão: a prática.
Exercícios testados em sala de aula
Vamos treinar? dá continuidade ao trabalho iniciado no primeiro livro da autora, Os caminhos do ator – Do palco à câmera. Desta vez, em vez de concentrar-se apenas na reflexão sobre a profissão, Cininha apresenta ferramentas práticas que foram sendo construídas ao longo de sua trajetória.
Os exercícios não foram escolhidos a partir de uma seleção pontual. Segundo a autora, eles resultam de experiências acumuladas durante anos de estudo e ensino. Cininha conta que teve contato com diferentes metodologias e autores, inclusive durante sua formação nos Estados Unidos, onde estudou na New York Film Academy e fez um curso de direção de atores na NYU.
“É tudo testado por mim. Não tem nada aqui que eu não tenha já aplicado em algum momento, em alguma fase da minha profissão de professora, de educadora da arte”, explica.
Entre as referências incorporadas ao seu trabalho estão estudos relacionados ao treinamento para câmera e métodos como o viewpoint, que envolve percepção espacial, movimento e consciência corporal. O livro procura apresentar essas propostas de maneira acessível para que possam ser colocadas em prática.
Para Cininha, o treinamento do ator precisa contemplar o conjunto de ferramentas que compõem o trabalho de interpretação. Voz, corpo e emoção, segundo ela, não devem ser tratados separadamente.
“Tudo precisa estar em treinamento. Tanto a sua emoção, quanto o seu corpo, quanto a sua voz”, afirma. A preocupação, explica, também passa pela preservação do próprio artista. O domínio técnico permitiria ao ator utilizar suas ferramentas sem depender exclusivamente de processos emocionais intensos.
“Você tem que ter um domínio do seu aparato, que a gente chama do aparato do ator, que é sua voz, seu corpo e sua emoção”, diz.
Teatro e audiovisual
Embora o livro contemple teatro e audiovisual, Cininha considera que as bases do treinamento são bastante próximas. As diferenças aparecem, principalmente, na maneira como o ator utiliza suas ferramentas em cada linguagem.
No teatro, a projeção vocal precisa alcançar uma plateia distante, enquanto diante da câmera a relação é mais próxima. O teatro também permite, segundo ela, maior espaço para o improviso, enquanto o audiovisual costuma trabalhar a partir de um direcionamento dramatúrgico mais definido.
São, na avaliação da professora, diferenças sutis diante de uma preparação que continua tendo o ator como centro.
O desafio das novas gerações
A experiência de quase 25 anos ensinando também fez com que Cininha acompanhasse diferentes gerações de artistas. E, para ela, a convivência com crianças, adolescentes e jovens não representa apenas uma via de transmissão de conhecimento. É também uma forma de se manter atualizada.
Formada em medicina, ela compara a carreira de professora à profissão médica, na qual a atualização constante é indispensável. “O que faz a criança, o adolescente, o jovem ator? Ele me obriga a eu me atualizar no que está acontecendo a nível de mídia, a nível de novas mídias, de novas tentativas, de novas perspectivas de trabalhos diferentes que o jovem te oferece”, afirma.
Cininha percebe nas novas gerações uma relação diferente com o conteúdo, marcada pela velocidade e pela capacidade de síntese. “O jovem, hoje em dia, ele nasce editado”, resume. Para ela, acompanhar esse comportamento é um desafio que também transforma o professor.
Um livro para diferentes momentos da carreira
A intenção de Vamos treinar? é alcançar o ator em diferentes etapas da formação. Para o estudante, os exercícios podem funcionar como uma ferramenta de autopercepção. Cininha chama atenção para a possibilidade de realizar uma atividade aparentemente simples, observar o resultado e perceber quando a interpretação não está convincente.
Para professores, o livro pode servir como material de apoio na preparação das aulas. Segundo Cininha, muitos profissionais já demonstraram interesse pela publicação justamente pela dificuldade de elaborar constantemente novos exercícios.
Já para o ator profissional, a proposta é funcionar como uma forma de reciclagem. A autora observa que alguns profissionais deixam de frequentar cursos por constrangimento ou por dificuldades financeiras, especialmente quando estão fora de trabalhos.
Nesse caso, os exercícios podem ser realizados individualmente ou em pequenos grupos. Cininha sugere, inclusive, que atores com mais experiência se reúnam para fazer leituras, propor exercícios e trocar avaliações.
Por trás do livro está, portanto, uma preocupação que acompanha a trajetória da professora: criar condições para que o ator continue praticando mesmo quando o mercado não oferece oportunidades.
“Eu sei das dificuldades do ator”, afirma Cininha. É também dessa compreensão que nasce o livro: uma tentativa de transformar experiência acumulada em uma ferramenta que possa permanecer disponível para quem está começando, para quem ensina e para quem já construiu uma trajetória nos palcos e diante das câmeras.
Serviço
Vamos treinar? 50 exercícios práticos de teatro e audiovisual
Cininha de Paula — Rubi Editorial
Diversão e Arte
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