
A jornalista Ana Paula Araújo foi a vencedora da categoria Livro-reportagem do 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos com Agressão – A escalada da violência doméstica no Brasil, publicado pela Globo Livros. A obra reúne histórias de mulheres de diferentes regiões do país e investiga como a violência de gênero se manifesta para além das agressões físicas.
O livro nasceu como uma continuação de Abuso – A cultura do estupro no Brasil, publicado pela autora anteriormente. Depois de receber relatos de mulheres que se identificaram com as histórias de violência sexual abordadas na primeira obra, a jornalista percebeu que ainda havia outras dimensões da violência contra as mulheres que precisavam ser discutidas.
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“Eu vi que tinha muito mais para ser falado. Por isso, resolvi ampliar esse leque para a violência doméstica”, conta em entrevista ao Correio. Segundo ela, agressões morais, psicológicas, físicas e patrimoniais podem estar presentes no cotidiano de maneira quase imperceptível. Um exemplo é o comportamento controlador de um parceiro, muitas vezes interpretado como ciúme ou como uma característica da personalidade.
Entre as diferentes formas de violência investigadas no livro, Ana Paula aponta a psicológica como a mais invisibilizada. Ela está presente também em outras formas de agressão e pode ser justamente o mecanismo que mantém mulheres presas a relacionamentos abusivos. “É uma violência que está presente em todos os outros tipos. É o que acaba sustentando todas essas outras violências”, afirma.
Durante a apuração, a jornalista encontrou mulheres de diferentes classes sociais, níveis de escolaridade e condições financeiras que vivenciaram mecanismos semelhantes de violência. A experiência contrariou uma percepção que ela própria tinha antes de iniciar a investigação: a de que mulheres com maior independência financeira e uma rede de apoio teriam mais facilidade para deixar relacionamentos abusivos. “Eu fui vendo que não. O que é muito difícil para uma mulher sair de uma situação de violência é exatamente por causa da violência psicológica”, explica.
Entre os relatos que mais a marcaram está o de uma juíza assassinada pelo marido diante das filhas, em um caso ocorrido no Rio de Janeiro e amplamente noticiado. A proximidade social e geográfica da vítima fez com que a jornalista se reconhecesse naquela história.
“Poderíamos ter sido amigas”, relata. Para ela, casos como esse mostram que a violência contra a mulher não é um problema restrito a determinado perfil social. “A gente fica às vezes achando que é só com as outras pessoas. Quando você olha uma situação dessas, você vê: eu também poderia. Estamos todas vulneráveis.”
Ana Paula explica que ideias construídas socialmente, como a de que a mulher deve manter a família unida ou de que precisa de um homem para ter valor, podem contribuir para que vítimas permaneçam nessas relações. A culpa também aparece como um mecanismo de aprisionamento.
A jornalista se deparou, durante a apuração, com mulheres que conseguiram deixar os relacionamentos, mas continuaram submetidas à violência psicológica. Em alguns casos, filhos são utilizados pelos agressores como instrumento para manter o controle sobre as ex-companheiras.
O desafio de contar sem revitimizar
Ana Paula percorreu diferentes regiões brasileiras e entrevistou vítimas, familiares, agressores, médicos, psicólogos, juristas, policiais e pesquisadores. Em alguns casos, a jornalista optou pelo anonimato para proteger a vítima e seus filhos. O objetivo foi reunir diferentes situações capazes de mostrar os impactos da violência doméstica. “Foi mais para montar esse quebra-cabeça, para contemplar tudo que pode acontecer a partir de um caso como esse”, explica.
Um dos principais desafios da produção do livro, entretanto, foi encontrar o equilíbrio entre apresentar a gravidade das histórias e não expor as vítimas além do necessário. Ana Paula afirma que não queria suavizar os relatos a ponto de diminuir a dimensão da violência, mas também não pretendia transformar o sofrimento em espetáculo.
“Minha intenção não é chocar ninguém, mas também não quero dar material para pessoas que têm prazer de ler a descrição detalhada de casos de violência”, afirma. Para a jornalista, o cuidado precisa estar presente em cada caso, desde a apuração até a publicação.
Depois da investigação, Ana Paula espera que o livro ajude a mudar a maneira como a sociedade encara a violência contra a mulher, pois ainda é comum que a vítima seja responsabilizada pela própria violência. “A gente ainda tem como sociedade uma mentalidade de que a mulher é que tem que se proteger, que ela é que tem que se cuidar. Ela quase que tem que dar explicação do porquê está sendo agredida”, afirma. A violência doméstica deveria ser encarada como outros crimes, em que a responsabilidade é atribuída ao autor da agressão e não à vítima.
Uma causa além do livro
O trabalho de Ana Paula com o tema não terminou com a publicação de Agressão. A jornalista tem participado de palestras e eventos literários pelo país para discutir violência contra a mulher, conciliando a atividade com o trabalho na televisão.
Criada em 1979, a premiação reconhece trabalhos jornalísticos comprometidos com os direitos humanos e preserva a memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em 1975. Nesta 48ª edição, foram 346 inscrições, com 21 trabalhos selecionados como finalistas em sete categorias. A cerimônia de entrega será realizada em 20 de outubro, no Tucarena, em São Paulo.
Para Ana Paula, receber o prêmio tem um significado que ultrapassa a carreira profissional. “É uma honra enorme. Esse prêmio é um sonho para qualquer jornalista”, afirma. “É um prêmio para essa causa, é um prêmio para todas as mulheres.”
O reconhecimento pelo Prêmio Vladimir Herzog amplia a importância dessa discussão, reforçando a compreensão da violência contra a mulher como uma grave violação dos direitos humanos e dando visibilidade à necessidade de continuar falando sobre o assunto.
*Estagiária sob a supervisão de Nahima Maciel
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