
Um passeio pela conjuntura do cinema afro-americano independente, estabelecido no período entre 1912-1950, está em pauta na palestra Glória desvanecida, no Auditório da FAC, a partir das 10h de amanhã (no Minhocão Norte da UnB). O convidado para explorar o tema é o acadêmico da Universidade de Columbia Richard Peña, pesquisador, professor e curador de mostras.
"De longe, a figura mais importante do movimento foi Oscar Micheaux, que de 1918 a 1948, produziu e dirigiu pelo menos 40 filmes, e foi, a meu ver, um talento único", comenta Peña, em entrevista ao Correio. Comédias, musicais e faroestes exibidos à margem, em genuínos bairros afro-americanos, movem a temática de Peña, historiador de cinema e responsável por ensaios e textos críticos propagados nas aulas de teoria do cinema.
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Em Brasília, a cineasta e professora Edileuza Penha de Souza e o professor Pablo Gonçalo participarão do debate, que é aberto ao público. Vale a lembrança de que Richard Peña foi programador da Film Society of Lincoln Center e dirigiu uma fase do importante New York Film Festival.
Entrevista // Richard Peña, pesquisador, professor e curador
O que provocou o ocultamento dessa história relevante do cinema afro-americano, que é tema da palestra?
Acho que a questão não era tanto o ocultamento, mas, sim, a inacessibilidade. Os produtores desses filmes geralmente faziam, no máximo, duas ou três cópias e as exibiam por todos os Estados Unidos, de modo que, ao final de sua exibição, elas geralmente estavam em frangalhos e impróprias para exibição, e muitos produtores, ao que parece, simplesmente as descartavam. Dos cerca de 500 filmes que se acredita terem sido feitos entre 1912 e 1952, apenas 87 ainda existem, integralmente ou em parte.
Entre os filmes a serem estudados e que se projetaram naquele período é possível falar em resgate de que âmbito?
Uma espécie de ponto de virada ocorreu em 1984, quando 24 filmes afro-americanos foram encontrados em um depósito em Tyler, Texas. Isso levou a um breve período de interesse no assunto, já que algumas das pessoas envolvidas nesses filmes ainda estavam vivas. Mais recentemente, o interesse geral em explorar os arquivos em busca de obras desconhecidas de mulheres, minorias étnicas e afins levou a algumas descobertas, mas, infelizmente, duvido que haverá muitas outras.
A sociedade americana valoriza a cultura negra em que escala? Ainda persiste uma dose de preconceito velado?
Há um quadro de complexidade, nisso. As contribuições dos afro-americanos para a música e a dança americanas são certamente conhecidas e reconhecidas. Suas contribuições para outras mídias artísticas — artes visuais, literatura, cinema — são certamente menos conhecidas e apreciadas. Sim, existe um certo nível de preconceito, mas, mais do que preconceito, existe principalmente ignorância.
Como se desvela o quadro?
Certamente, uma nova geração de programadores de arte, curadores e críticos, muitos deles afro-americanos, mas não todos, têm feito um ótimo trabalho na divulgação e disseminação desse trabalho. Em termos da indústria, certamente houve um grande progresso nos últimos 40 anos — digamos, começando com Spike Lee — de modo que a presença de afro-americanos diante das câmeras, bem como diretores, roteiristas, diretores de fotografia e de outras funções tornaram-se uma realidade em nosso cenário midiático.
Que ferramentas tornaram mais estridentes as vozes e lideranças no tocante ao cinema negro?
Acredito que Oscar Micheaux é de longe a figura mais importante produzida por esse movimento, mas também estou ansioso para ler os trabalhos que estão sendo escritos sobre Spencer Williams. A maioria das pessoas envolvidas no movimento não durou muito tempo; depois de um ou dois fracassos, seguiram para outros caminhos.
Como se dava o aporte destes títulos independentes estudados?
Os filmes eram frequentemente financiados pelos próprios cineastas, às vezes com fundos de afro-americanos. Empresários, igrejas e até mesmo alguns "anjos brancos" que investiram em certos filmes, como O sangue de Jesus. Não, absolutamente nenhum apoio do governo; as igrejas, como mencionei, frequentemente se envolviam na produção cinematográfica, especialmente naqueles com dimensão ou temática religiosa.
Quais os costumes diretamente tocantes à Africa agregados na temática do que se discutirá?
Para mim, se você observar um filme como O sangue de Jesus, a cosmologia é muito semelhante à de religiões sincréticas afro-americanas como o vodu , o candomblé ou a santeria: figuras espirituais estão muito presentes no cotidiano, as pessoas transitam entre os planos físico e espiritual.
Há como notar reflexo do que outrora foi produzido nas criações contemporâneas?
Francamente, não muito. Acho que os filmes são admirados apenas pela pura coragem e força de vontade necessárias para tê-los feito. Mas, as pessoas não viram muitos deles. Anos atrás, programei uma exibição de Corpo e alma, de Micheaux, com acompanhamento ao vivo da Orquestra de Jazz do Lincoln Center. Ao sair da sala onde o filme foi apresentado, vi uma das minhas alunas, uma mulher afro-americana muito inteligente; ela estava chorando. Perguntei qual era o problema, e ela me disse que não fazia ideia de que afro-americanos haviam feito filmes mudos. Portanto, ainda há muito trabalho a ser feito: precisamos inserir esses filmes em um diálogo mais amplo com o restante da história do cinema.
Diversão e Arte
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