
Em um momento em que as séries médicas voltaram a dominar o streaming, Emergência 53 chega ao Globoplay com uma urgência bem brasileira. Raquel Villar, atriz carioca que construiu uma trajetória singular entre o Brasil e a Alemanha, vive a enfermeira Vanessa, uma das personagens centrais da trama. O sucesso foi imediato: a produção acabou de estrear e já teve sua segunda temporada anunciada.
Na série, Vanessa é uma mulher movida por uma meta clara — tornar-se médica —, mas também atravessada por um conflito externo evidente: a relação mal resolvida com Pedro (Emílio Dantas) e as questões dele com a bipolaridade. "Fui percebendo ao longo das filmagens que ela era calma nos atendimentos, não em todos, mas na maioria, e que isso poderia ser uma característica dela, de ter mais controle, de quem sabe o que faz, mesmo no caos", revela.
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Antes de voltar ao Brasil e emplacar projetos no audiovisual nacional, Raquel passou quase uma década vivendo em Berlim, onde aprofundou sua relação com o teatro e trabalhou como atriz em alemão — uma língua que, segundo ela, exige outro corpo, outro ritmo, outra respiração. A experiência, diz, foi transformadora. "Viver em uma outra cultura é indiscutivelmente rico, rico pro espírito. Se tirar da zona de conforto, se enxergar em pessoas que vieram de lugares tão distintos e, ainda assim, se encontrar nelas", reflete. "Acho que a profissão de atriz é sobre isto também, sobre nossa cultura e outras, sobre as diferentes pessoas e ideias que existem nesse mundo", completa.
Entre os aprendizados que carrega da temporada europeia, Raquel destaca um curso de verão na Universidade das Artes, em Berlim, de dança e performance com Jo Ann Endicott, que foi braço direito da coreógrafa Pina Bausch. "Entre outras coisas, aprendemos uma das coreografias da Pina. Eu que sou fã de carteirinha, fiquei extasiada", lembra.
A vivência em Berlim, segundo ela, deixou memórias que a constroem até hoje — mas não é pré-requisito para uma visão de mundo aberta. "Acho que a gente pode saber viver muito aqui, sem sair da sua cidade, lidando de forma aberta e curiosa. E tem outras pessoas que viajam o mundo e também parecem que não enxergam nada. Então, muito também é sobre como você quer olhar a vida", pondera.
O retorno ao Brasil veio com um choque de realidade — e de método. Quando surgiu a série Dom, do Prime Video, Raquel já estava acostumada a trabalhar na área independente alemã, onde o ator é visto também como artista criador. "Ali, eu tive um choque de primeira. Eu já estava trabalhando havia um tempo como atriz em Berlim, porém na área independente, onde você, como atriz, é também muito vista como artista criadora, não só como um cabide. Então, tem muita voz e espaço pra entender, questionar as cenas e o roteiro, em função de desenvolver mesmo, colaborar pra gente aprofundar o trabalho", pondera.
A adaptação ao ritmo brasileiro exigiu tempo. "Quando entrei em Dom, estava com essa cabeça de criadora, estava buscando possibilidades para aquela personagem não ser mais do mesmo. Mas entendi que ali o tempo era outro e as coisas seguiam formas diferentes. Demorei pra entender isso, o que fez do meu processo pessoal algo mais complicado pra minha construção da personagem", avalia.
Fama e ofício
Hoje, Raquel transita com naturalidade entre diferentes linguagens e plataformas. Além de Emergência 53, ela integra a nova temporada de Impuros, da Disney+, e está no longa Uma baleia pode ser dilacerada como uma escola de samba. A diversidade de registros, diz, não é coincidência. "Acho que eu busco esses lugares que não conheço, de formas diferentes na minha vida também. Gosto de me colocar em lugares novos. Passei minha infância me mudando e estudando em lugares diferentes, nunca pertenci a um grupo só de amigos e não sou de grupos. Acho que isso reflete a forma como eu vejo meu trabalho. Posso ser tanta coisa e imaginar tantas outras pessoas e histórias, que ficar fazendo sempre as mesmas coisas me dá uma sensação desmotivante e limitada", reflete.
Com a visibilidade crescente, Raquel faz questão de separar o ofício da fama. "Eu acho que ser atriz não tem nada a ver com ser famosa. Pode acontecer, pode ser uma consequência dependendo do trabalho, que dá visibilidade e tal, mas ser famoso não significa que você é atriz. O trabalho é outro e, muitas vezes, ele não vai te dar muita renda", afirma. "Ainda mais no Brasil, é difícil viver das artes aqui. É um privilégio. Muitas pessoas que conseguem ralam muito pra produzir seus trabalhos ou pra ter bons papéis. É um trabalho árduo", completa.
Ela própria sabe bem disso. "Eu trabalhei e trabalho muito desde muito cedo e sei da instabilidade da nossa profissão. Eu fico porque não consigo viver sem fazer o que faço. Já tive outras experiências em outras áreas, que não eram artísticas, mas não por vontade. O meu desejo, o que me faz feliz de verdade, é o meu trabalho de atriz", conclui.
Sobre a confusão entre visibilidade e ofício, Raquel é direta: "Essa coisa de influencer ou dos costas-quentes sempre teve, sempre terá. Não é uma profissão justa, ela muitas vezes segue um molde de sociedade em que eu não acredito, mas a gente segue", finaliza.
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