Halloween

Especial Halloween: as lendas urbanas que acompanham a história de Brasília

De carona com os fantasmas de Brasília, o acervo do Correio revela as assombrações que atravessaram décadas e diferentes endereços da capital

Suposto lobisomen fotografado na Ceilândia em 2015 -  (crédito: Reprodução/Internet)
Suposto lobisomen fotografado na Ceilândia em 2015 - (crédito: Reprodução/Internet)

A rua estava deserta, o céu prometia tempestade e o funcionário público Narcísio T. Rosa já lamentava a demora na visita a um amigo. Passava da meia-noite quando, à espera de transporte na Avenida L2, ouviu algo se mover entre as folhagens. Primeiro, um ruído. Depois, “um uivo estridente, que me gelou até a medula”. Narcísio apressou o passo até a W3. De longe, tornou a ouvir o animal.

Dizia-se que a criatura era um cachorro preto e monstruoso que rondava o Setor JK, às margens do lago. Em 22 de janeiro de 1967, foi parar na seção Ronda Policial do Correio Braziliense. Alguns moradores acreditavam em algo anormal, outros culpavam a imaginação. Narcísio, funcionário da antiga Prefeitura do Distrito Federal (PDF) e morador de Taguatinga, não se considerava propenso a acreditar no sobrenatural. Ainda assim, correu.

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Ronda Policial registra relatos sobre 'fantasmas' em Brasília
Ronda Policial registra relatos sobre 'fantasmas' em Brasília (foto: Cedoc/Correio Braziliense)

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Brasília era jovem quando seus fantasmas e lendas começaram a frequentar o jornal. Não precisava de castelos antigos. Bastava uma avenida vazia, uma curva escura, uma janela no quinto andar. Nos acervos do Correio, as aparições mudaram de endereço e sobreviveram às décadas.

Um registro de 20 de janeiro de 1976, sobre a 715 Sul, anunciava: “A monotonia fica nas aparências. Há histórias de mistério e terror”. A principal assombração era uma loira que, à noite, pedia carona ou tomava um táxi na W3. Dizia morar no fim da avenida. Ao chegar, porém, transformava-se em bruxa e saía voando para o cemitério próximo à quadra.

O boato atrapalhou a vida das louras de carne e osso. Taxistas desconfiavam das passageiras de cabelos claros, sobretudo das que pediam para seguir até o fim da W3. Maria Cláudia, moradora da 715, contou à época ter sido rejeitada por motoristas. “Até de dia teve táxi que recusou parar”. Para encerrar o tormento, pintou os cabelos de castanho.

Vinte e cinco anos depois, a caroneira continuava solta, mas a versão era outra. Em 10 de março de 2001, a reportagem “Lendas urbanas”, de Dalila Góes, situava uma loira entre os pontos de ônibus da 706 e 708 Sul. Bem-vestida, de aparência angelical, dizia ao motorista que perdera a condução e precisava chegar em casa antes da meia-noite. Contava trabalhar em uma clínica ou hospital e, perto do Setor Hoteleiro Sul, desaparecia do carro. Havia um detalhe a mais: a moça levaria consigo a alma de quem lhe desse carona.

Correio registro histórias de mistério e terror em 1976
Correio registro histórias de mistério e terror em 1976 (foto: Cedoc/Correio Braziliense)

Onde as histórias começam

Quando chegou em Brasília, aos oito anos, Tupá Guerra descobriu que dois objetos banais podiam ser uma combinação perigosa: um espelho e uma bacia d’água. Os dois estavam no quarto da kitnet em que vivia com a mãe e a tia. A bacia ajudava a enfrentar o tempo seco. O espelho, no entanto, fazia parte de uma história que a menina ouvira. À meia-noite, dizia-se, uma luz vermelha no espelho anunciava a presença de um fantasma. “Morria de medo disso”, relembra.

Hoje historiadora e pós-doutora pela Universidade de Brasília (UnB), Tupá recorda o medo com outra disposição. Quando criança, também tinha pavor; adulta, passou a gostar de visitá-los. “A própria forma que Brasília é criada com os candangos vindo do país inteiro significa que na verdade Brasília recebeu informação e influência de outros Estados. Todas essas pessoas que vieram trouxeram as suas próprias lendas e crenças”, explica a pesquisadora.

O jornalista e pesquisador em folclore Andriolli Costa aponta para outra peça dessa engrenagem, o desenho da própria capital. “Imagine uma cidade que durante a sua construção ela é geograficamente muito ampla e esvaziada. De repente, você tem espaços vazios muito grandes que podem ser preenchidos com a própria imaginação, sobretudo à noite”, diz Costa.

É assim que a cidade deixa de ser apenas um conjunto de vias e edifícios, onde cada lugar pode ganhar uma segunda existência, feita de histórias que circulam entre moradores. Na visão dos pesquisadores, as lendas acompanham os receios próprios da vida em cidades, a proximidade com desconhecidos, a violência e os desaparecimentos.

  • Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001
    Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001 Cedoc/Correio Braziliense. Dalila Góes (texto) e Ricardo Lima (ilustrações)
  • Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001
    Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001 Cedoc/Correio Braziliense. Dalila Góes (texto) e Ricardo Lima (ilustrações)
  • Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001
    Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001 Cedoc/Correio Braziliense. Dalila Góes (texto) e Ricardo Lima (ilustrações)
  • Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001
    Lendas urbanas de Brasília. Brasilia, 10 de marco de 2001 Cedoc/Correio Braziliense. Dalila Góes (texto) e Ricardo Lima (ilustrações)

A edição de 10 de março de 2001 do Correio traçou um mapa sobrenatural brasiliense. No Gama, um homem alto, loiro e perfumado teria frequentado bailes entre 1990 e 1992. Dançava bem, atraía mulheres e jamais tirava o chapéu vermelho. Quando uma delas conseguiu arrancá-lo, descobriu dois chifres. O rapaz fugiu, deixando para trás, segundo a lenda, sapatos com cascos de pele queimada.

Na Asa Sul, a noiva da 303 Sul preferia ficar em casa. Porteiros ouvidos na reportagem contavam que Maria Casamenteira, moradora do quinto andar, quis se casar contra a vontade da família, que preferia vê-la freira. Costurou o próprio vestido, rasgado pelo pai quando descobriu o plano. A família se mudou em 1980. Segundo a lenda, a moça continuou na janela, de branco, enquanto do apartamento vinha o som de uma máquina de costura.

O Brasília Palace Hotel também ganhou sua assombração. A matéria recordava o incêndio de 6 de agosto de 1978 e uma menina de oito anos que teria ficado presa no banheiro do apartamento 301, no terceiro andar. Embora a Defesa Civil garantisse que todos haviam sobrevivido, a lenda dizia que ainda se ouviam, aos sábados, choro de criança e gritos vindos dali. Entre o que se registrou sobre o incêndio e o que a história insinua, mora o fantasma.

Já no Teatro Nacional Claudio Santoro, os mortos ensaiavam depois do expediente. Em 2001, circulava a história de instrumentos que soavam por volta das 3h, como se uma orquestra se preparasse para uma apresentação invisível. Dez anos depois, em reportagem de 11 de junho de 2011, a camareira Domingas Cardoso dos Santos apresentou outra visitante: a bailarina de branco.

Uma antiga camareira teria ouvido um piano num camarim, aberto a porta e encontrado o cômodo vazio. Ao procurar o músico, entrou num elevador. Uma bailarina vestida de branco apareceu e, segundos depois, sumiu diante dela. Domingas, que completara 30 anos de trabalho no teatro, só conhecia a história por colegas; até ver com seus próprios olhos.

Fantasmas que dão corpo às memórias que não desaparecem

Nem todo fantasma, porém, nasce apenas do receio de encontrar um estranho no caminho. Algumas histórias se agarram a lembranças de sofrimento coletivo. Segundo Tupá Guerra, situações de violência e perdas traumáticas podem produzir narrativas sobrenaturais sem que alguém precise se sentar para inventá-las.

Ao comentar os fantasmas atribuídos aos trabalhadores da construção de Brasília, a historiadora distingue a lenda do acontecimento histórico. Ainda hoje, não há nenhuma comprovação oficial ou técnica de que operários tenham sido enterrados ou concretados nas estruturas do Congresso Nacional. O processo difícil e violento vivido por trabalhadores, por outro lado, é o que a narrativa pode continuar evocando. “Independentemente de fantasma ou não, eles têm uma memória, eles trazem essa memória da violência. Muitas vezes é essa a forma da sociedade lidar com os seus traumas e não esquecer”, explica a professora, que também é criadora do ‘Uma Tupá no Tempo’, videocast de divulgação científica e histórica.

Nem toda morte trágica produz esse fenômeno, ressalva. Segundo a historiadora, em certos cemitérios, pessoas mortas de forma violenta passam a ser tratadas como intercessoras, às quais visitantes dirigem pedidos.

Suposto lobisomen fotografado na Ceilândia em 2015
Suposto lobisomen fotografado na Ceilândia em 2015 (foto: Reprodução/Internet)

A dúvida que resta

Em 2001, os rumores apontavam para um lobisomem nas redondezas da quadra 21 do Park Way. Um caseiro, que não quis se identificar por medo da criatura, dizia que nem a grama resistia à passagem do bicho. A reportagem registrava histórias de encontros com o ser peludo e até de troca de tiros, sem comprovação.

Em 1º de agosto de 2015, o monstro reapareceu no noticiário, agora em Ceilândia, com fotografia. No Facebook, a imagem mostrava um ser metade homem, metade lobo. A equipe do Aqui-DF não localizou a suposta autora da foto, tampouco obteve resposta de Andre Lopes, identificado como autor da postagem. Mas a imagem já circulava pela internet e em outros estados.

A internet ampliou o alcance das lendas, mas não mudou a maneira como elas se espalham. Para Tupá, as histórias continuam circulando entre pessoas que compartilham crenças e referências, e a possibilidade de checar uma fotografia não apaga automaticamente aquilo que uma narrativa faz alguém sentir. Já Costa chama atenção para as redes sociais, onde esses relatos muitas vezes perdem a informação de onde e quando teriam acontecido.

“Uma foto tirada no ano passado pode circular de novo hoje, por conta de uma viralização, e as pessoas não sabem. Não tem um marcador de quando que ela foi tirada, e ela volta a circular como se tivesse acontecido hoje novamente”, explica Costa, que também é professor adjunto do Departamento de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Uma imagem associada a um suposto lobisomem, por exemplo, pode mudar de cidade sem mudar de aparência. O professor vê nesse deslocamento um encontro entre a antiga circulação de histórias populares e os mecanismos atuais de desinformação.

A reportagem perguntou aos especialistas o por que mesmo diante de tantas ferramentas e possibilidades de checagem, essas histórias continuam atraindo curiosidade. As respostas passaram pelos medos que atravessam gerações e pelas maneiras que encontramos de lidar com o passado. Mas talvez exista algo que nenhuma explicação consiga afastar por completo: a dúvida.

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postado em 31/10/2026 06:00
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