
A mobilidade social parece estar cada vez mais engessada no país, de acordo com a nova edição do Atlas da Mobilidade Social, uma plataforma pública e interativa desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), em parceria com o Prospera Lab. Conforme o levantamento, divulgado nesta sexta-feira, filhos de pais que estavam entre os 25% mais pobres da população têm 48% de chances de permanecerem nesse mesmo grupo quando atingem a idade adulta e as chances de os ricos continuarem cada vez mais ricos seguem elevadas, ampliando o tamanho da desigualdade.
Entre as mulheres, as chances de alguma mobilidade social é menor ainda: de apenas 4,3%. Enquanto isso, entre os homens, o percentual é maior, de 11,3%. "Nesta edição, o estudo confirma claramente que o jovem que nasceu em família pobre tem possibilidade de ascensão muito baixa e o recorde dos mais ricos mostra que a probabilidade de permanecerem ricos é alta. Isso mostra que a desigualdade tem grandes chances de se perpetuar", lamentou Fernando Veloso, diretor de Pesquisa do Imds, em entrevista ao Correio. Segundo ele, o estudo comprova que está mais difícil reduzir a desigualdade social no país, porque ela está cada vez mais persistente.
A metodologia do Atlas deste ano mudou. No ano passado, a probabilidade de um adulto ter rendimento 10% superior ao de seus pais era de 49,1%, e apenas 1,81% da metade mais pobre da população tinha chances de chegar aos 1% mais ricos. De acordo com o pesquisador, na edição deste ano, há um recorte diferente dos extratos sociais de gerações de filhos de 1983 a 1990 até 2019, que passou de dois para quatro.
O levantamento ainda possui 38 indicadores socioeconômicos dos municípios para a comparação, e, segundo Veloso, há uma percepção de que existe correlação com alguns fatores que ajudam a aumentar as chances de mobilidade social, como a educação e melhores condições socioeconômicas das cidades, ou seja, uma cidade com boa gestão pública fornece melhor ambiente para que os jovens consigam ter melhor ascensão social. E, nesse sentido, especialmente neste ano eleitoral, as campanhas poderiam ter essa preocupação, não apenas com a qualidade da educação básica, porque ela faz muita diferença e tem um peso importante nessa composição da mobilidade social, de acordo com o especialista, mas não faz milagre sozinha. "Não adianta um município ou o estado ter uma nota boa no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) apenas, é preciso uma boa gestão pública preocupada em melhorar todos os indicadores", explicou Veloso. "Uma família rica consegue compensar os indicadores ruins de educação, mas o estudo mostra bem como é importante o papel de uma boa gestão pública para permitir melhoria na diminuição da desigualdade social", destacou.
De acordo com Veloso, a questão da menor chance de mobilidade social das mulheres mais pobres está relacionada com a licença maternidade e com o fato de que as trabalhadoras são punidas pelos empregadores, apesar de elas terem escolaridade maior do que a dos homens. "O salário das mulheres acaba sendo menor que o dos homens mesmo nas mesmas ocupações, em parte, por causa desses os empregadores que levam o fato de que as mulheres têm de se ausentar por causa da gravide, e elas são penalizadas por isso. Não é a única razão, mas, de modo geral, a participação da mulher no mercado de trabalho também é menor por causa da dificuldade do crédito, porque é necessário ter uma creche para criança e porque as mulheres, muitas vezes, cuidam de idosos também", explicou.
Conforme dados do Atlas, os jovens do recorte mais rico da sociedade têm mais probabilidade de permanecerem entre os mais ricos, porque o acesso à educação de qualidade e ao saneamento básico são alguns dos fatores predominantes que contribuem para a mobilidade social, pois a correlação nesse caso é positiva. Por outro lado, a correlação com indicadores como mortalidade infantil e informalidade no mercado de trabalho tem peso negativo e reduz as chances de aumento de renda desses jovens das camadas mais pobres.
Comparação regional
O Atlas também analisa as chances de ascensão social de jovens oriundos de famílias de baixa renda nas diferentes regiões do país. Segundo o estudo, as maiores probabilidades de mobilidade concentram-se nas regiões Sul e Sudeste, e em partes do Centro-Oeste. Já grande parte do Norte e do Nordeste apresenta as menores taxas de mobilidade, revelando territórios onde a pobreza tende a ser mais persistente entre gerações.
Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul são os estados com as menores taxas em que os filhos de pais mais pobres conseguirem sair da mesma faixa de renda e conseguirem atingir o patamar dos 25% mais ricos. Enquanto isso, os jovens de Acre, do Pará e do Amazonas são os com as maiores probabilidades de não conseguirem sair da mesma faixa de pobreza, reproduzindo as desvantagens sociais das regiões Norte e Nordeste.
O Distrito Federal ficou levemente abaixo da média, com 37,62% de chances dessa mobilidade dos mais pobres conseguirem atingir as faixas mais ricas.
Ainda de acordo com dados do Atlas, as possibilidades de romper o ciclo de pobreza estão cada vez mais reduzidas, tanto que entre os filhos dos 25% mais pobres, as chances de eles chegarem aos 25% mais ricos também variam conforme raça ou cor. Entre os brancos, esse percentual é de 11,5% e, entre os não brancos, de 7,3%. “A desigualdade tende a se perpetuar e essas novas faixas permitem olharmos com maior profundidade para os extremos da distribuição de renda e mostra que a desigualdade continua muito alta e permanece de pai para filho”, explicou Veloso.

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