
A situação financeira de famílias e empresas no Brasil segue pressionada junto à taxa básica de juros (Selic) de 14%, segundo avaliação do Banco Central (BC) divulgada pela ata de reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) nesta quarta-feira(2/9). O cenário de crédito mais caro ocorre em meio ao aumento do endividamento das famílias, à elevação da inadimplência e a sinais de maior pressão das despesas financeiras sobre as empresas.
Para as famílias, o nível de endividamento e o comprometimento da renda atingiram patamares historicamente elevados. O avanço do uso de modalidades de crédito mais caras contribui para aumentar o custo das dívidas e dificulta a capacidade de pagamento dos consumidores.
Segundo Matheus Portela, economista e diretor da VLGI Asset, o cenário pode resultar em uma desaceleração da atividade econômica nos próximos meses. Ele destaca que o endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda, enquanto 28,9% da renda mensal está comprometida com o pagamento de dívidas.
Portela também chama atenção para a situação das empresas. Segundo ele, o crescimento dos pedidos de recuperação judicial é um sinal dos efeitos provocados pelo custo elevado do crédito sobre companhias que se endividaram durante o período de juros mais baixos. “O efeito combinado é menos consumo, menos investimento e menos emprego nos próximos meses”, diz.
O Banco Central também identifica uma deterioração em parte dos indicadores financeiros das empresas. Embora a maioria das companhias ainda demonstre resiliência, diminuiu o número de empresas que registraram aumento do lucro líquido, enquanto cresceu a quantidade de companhias com maiores despesas financeiras.
A autoridade monetária avalia que o risco relacionado ao crédito empresarial deve permanecer elevado. A combinação entre juros altos e aumento dos custos financeiros pode pressionar os resultados das companhias e, em alguns casos, comprometer a capacidade de honrar dívidas.
Para Portela, o aumento do comprometimento da renda das famílias é resultado de uma combinação de fatores. Entre eles, estão os juros elevados, a inflação, as pressões externas sobre os preços e o aumento do uso de plataformas de apostas.
“Juro alto: modalidades como cartão rotativo e cheque especial continuam entre as mais caras do mercado, e quem entra nesse tipo de dívida raramente sai sem ajuda. Inflação ainda pressionada: o IPCA acumula 4,44% nos últimos 12 meses, com alimentos e serviços corroendo o poder de compra de quem já está no limite”, explica.
Portela acrescentou ainda as apostas esportivas entre os fatores que podem afetar a renda disponível dos consumidores. “O Banco Central já identificou um volume relevante de recursos destinados a apostas online, inclusive entre beneficiários de programas sociais. É uma sangria silenciosa que pode contribuir para o comprometimento da renda sem que o tomador perceba essa relação”, diz.
Para Roberto Piscitelli, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), o ambiente de juros elevados tem efeitos que ultrapassam o aumento da inadimplência. Segundo ele, o custo do crédito reduz o consumo e desestimula investimentos, além de favorecer aplicações financeiras em detrimento da atividade produtiva.
“Com os juros elevados, os atrasos e a inadimplência são elevados, e isso compromete a própria programação econômica, reduz o consumo e inibe o investimento, estimulando a especulação, o que desvia parcela importante dos recursos da economia do circuito da economia real para os fluxos financeiros, concentrando ainda mais a renda e agravando as desigualdades”, avalia.
Piscitelli também considera que o custo do crédito para consumidores e empresas é um dos principais obstáculos à expansão da atividade econômica. “O custo do crédito ao consumidor é muito superior à Selic (o Brasil tem hoje a maior taxa de juros real do planeta). O custo do crédito para as empresas é proibitivo; só se viabilizaria a uma taxa de lucros abusiva”, afirma.
A autoridade monetária também mantém atenção sobre o cenário internacional. O aumento das tensões geopolíticas, incluindo os conflitos no Oriente Médio, pode provocar impactos sobre os mercados e os ativos brasileiros. O BC afirma estar preparado para atuar caso seja necessário reduzir os efeitos de eventuais choques financeiros.
Além dos juros, o BC aponta a importância da condução das contas públicas para a estabilidade econômica. Segundo a autoridade monetária, políticas macroeconômicas que aumentem a previsibilidade fiscal podem contribuir para reduzir a volatilidade e, ao longo do tempo, favorecer a queda dos juros.

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