Uma denúncia inusitada colocou o salto de esqui no centro de um debate que mistura tecnologia, regulamento e limites éticos no esporte de alto rendimento. A Agência Mundial Antidoping (WADA) declarou que está disposta a apurar acusações de que atletas estariam alterando propositalmente o volume peniano para obter vantagem competitiva nos Jogos Olímpicos de Inverno.
A suspeita ganhou repercussão após uma reportagem publicada no mês passado pelo jornal alemão Bild. Segundo o veículo, alguns saltadores estariam recorrendo à aplicação de ácido hialurônico no pênis com o objetivo de aumentar o tamanho da região e, assim, se enquadrar em trajes de esqui maiores. Uniformes com maior área de superfície podem favorecer a aerodinâmica e ampliar a distância dos voos durante as provas.
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O ácido hialurônico não é classificado como substância proibida no esporte e pode provocar um aumento de um a dois centímetros na circunferência do pênis. Ainda assim, esse ganho teria impacto direto no tamanho autorizado do traje. Para a Federação Internacional de Esqui e Snowboard (FIS), variações mínimas fazem diferença. “Cada centímetro extra em um traje conta. Se o seu traje tiver uma área de superfície 5% maior, você voa mais longe”, explicou Sandro Pertile, diretor de provas masculinas de salto de esqui da entidade.
Apesar da repercussão, o diretor-geral da WADA, Olivier Niggli, afirmou não ter conhecimento prévio sobre o caso ao ser questionado em coletiva de imprensa nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina. “Não estou ciente dos detalhes do salto de esqui e de como isso poderia melhorar o desempenho. Se alguma coisa vier à tona, iremos investigar e ver se está relacionada a doping. Não abordamos outros meios (não proibidos) de melhorar a performance.”
O ponto sensível da discussão está no rigoroso controle das medidas dos trajes. As dimensões são definidas individualmente e seguem critérios técnicos precisos, baseados, entre outros fatores, no comprimento da passada do atleta. A posição mais baixa da virilha é determinada por meio de modelagem em 3D, e, antes de cada temporada, os competidores passam por medições com scanners corporais tridimensionais, usando apenas “roupa íntima elástica e justa ao corpo”.
As regras permitem uma margem de tolerância bastante restrita, entre 2 e 4 centímetros. Durante o processo de medição, a altura da virilha também é registrada, e o traje deve reproduzir essa medida, com um acréscimo máximo de 3 centímetros no caso dos homens. Como o efeito do ácido hialurônico pode durar até 18 meses, o procedimento levantaria dúvidas sobre a legitimidade das medidas ao longo de toda a temporada.
Não é a primeira vez que o salto de esqui enfrenta controvérsias envolvendo manipulação de uniformes. Em agosto, os noruegueses Marius Lindvik e Johann Andre Forfang, ambos medalhistas olímpicos, foram suspensos por três meses por participação em um esquema de adulteração de trajes durante a prova de salto em pista longa no Campeonato Mundial de Esqui, realizado em março, em Trondheim, na Noruega. Posteriormente, apurou-se que os atletas não tinham conhecimento direto da irregularidade, mas a FIS concluiu que a equipe “tentou burlar o sistema” ao inserir fios reforçados nos trajes de competição.
Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 têm início oficial nesta sexta-feira (6/2) e seguem até o dia 22 de fevereiro. Esta será a 25ª edição do evento, agora marcada também por uma discussão que expõe até onde vai a criatividade na busca por vantagem esportiva.
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