
Acredite se quiser: a final dos 800m dos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984 ainda persegue Sebastian Coe. O britânico, campeão dos 1.500m e prata nos 800m em Moscou-1980, além de recordista mundial da prova à época (1min41s73), tinha todas as credenciais para subir ao topo do pódio no Memorial Coliseum, mas foi barrado por um atleta do Distrito Federal. Quem? Joaquim Carvalho Cruz.
Atual presidente da World Athletics, Coe costuma resumir uma das memórias mais vivas daquela decisão a uma imagem: as costas do brasileiro à sua frente na reta final. Também recorre ao bom humor ao revisitar o episódio. Diz, por exemplo, que o Hino Nacional do Brasil durou mais do que a própria prova e que são raras as entrevistas nas quais não é perguntado sobre Joaquim Cruz.
Quarenta e dois anos depois, ele desembarca pela primeira vez na terra de um dos maiores carrascos da carreira. Veio para acompanhar o Mundial de Marcha Atlética por equipes, hoje, na Esplanada dos Ministérios, a partir de 6h45. Entre memória e descoberta, Coe encontrou em Brasília uma cidade que dialoga com o esporte em escala. Ele enxerga características que podem alçá-la a grandes candidaturas, como a tentativa de sediar os Jogos Olímpicos de 2000. Ainda assim, pondera, em entrevista ao Correio, que o caminho olímpico não depende apenas da vocação local.
"São poucos os lugares no mundo que ainda não visitei. Acompanhei a candidatura de Brasília para 2000, porque Londres também discutia isso naquela época. Havia outras candidaturas no Reino Unido. Mas tenho plena consciência de que Brasília também é uma cidade esportiva", analisa.
"Uma candidatura não voltaria de forma imediata, porque o movimento olímpico tem a preocupação de se manter global e distribuir os Jogos pelo mundo. Mas o Brasil é uma grande nação olímpica, com ampla presença em diferentes modalidades. Há patrocínio, infraestrutura e, principalmente, paixão", completa.
Se o passado conecta Coe a Brasília por uma derrota marcante, o presente o traz à capital por uma modalidade em transformação. Para o dirigente, a marcha atlética, por muito tempo à margem da visibilidade e cercada por preconceitos, vive hoje um processo de evolução técnica e expansão global.
"Não há dúvida de que a modalidade evoluiu tecnicamente. A tecnologia, especialmente os calçados, fez uma enorme diferença. E a velocidade das provas aumentou", destaca. "Antes, era um esporte concentrado em poucos países, principalmente europeus. Hoje, vemos China, Japão e outras potências do atletismo participando ativamente", celebra.
Potência
O Brasil também se insere nesse movimento de expansão e maior competitividade. Principal nome da marcha atlética no país, Caio Bonfim tornou-se o primeiro brasileiro medalhista olímpico da modalidade com a prata em Paris-2024, e campeão mundial em 2025, em Tóquio. A dimensão do feito ajuda a explicar o peso do nome do atleta de Sobradinho no cenário internacional.
"Qualquer atleta que conquista um título olímpico e mundial, além de apresentar marcas de altíssimo nível, está entre os melhores do mundo. É importante colocar isso em perspectiva: o atletismo, em todas as vertentes, é, estatisticamente, o esporte mais difícil de se conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos" Sebastian Coe, presidente da World AThletics
O dirigente reforça o argumento com números. "Cerca de 20% dos atletas olímpicos competem no atletismo. Portanto, é extremamente competitivo. É uma modalidade muito exigente."
O desempenho no atletismo, na visão de Coe, passa por uma combinação de fatores que vão além da preparação física. "Costuma-se dizer que você escolhe o esporte, mas discordo. Acredito que o esporte escolhe você. Existe um perfil para cada modalidade", defende. A leitura ajuda a explicar a formação de potências ao redor do mundo. "Se você cresce na África Oriental, as provas de fundo são muito fortes. Se está na Jamaica, é a grande potência das provas de velocidade."
Ao mesmo tempo, o alcance da modalidade se amplia. "O que me agrada é ver cada vez mais países chegando às finais. No último Mundial, em Tóquio, 83 países tiveram atletas entre os oito melhores ou em finais. Nenhum outro esporte chega perto disso."
A partir de 2028, o Comitê Olímpico Internacional (COI) — entidade cuja presidência foi disputada por Sebastian Coe, derrotado por Kirsty Coventry — passará a adotar critérios mais rígidos de elegibilidade na categoria feminina. Isso restringirá a participação a atletas biologicamente do sexo feminino, com base em parâmetros genéticos. O movimento reacende o debate sobre inclusão e justiça esportiva — pauta sobre a qual mantém posição firme.
"Fomos os primeiros a tratar desse tema, tanto em relação ao DSD (Diferença no Desenvolvimento Sexual) quanto a atletas trans. É fundamental proteger o esporte feminino. Se isso não for feito, o esporte feminino deixa de existir, e isso é inaceitável", argumenta.
Nem só de atletismo vive Coe. Torcedor declarado do Chelsea, o dirigente integrou, em 2022, um consórcio interessado na compra do clube londrino.
"Sou torcedor do Chelsea há mais de 50 anos. Acompanhei grandes times do clube, muitos deles campeões da Champions League e da Premier League (2012 e 2021), que contaram com jogadores brasileiros."
Hoje, ele vê a conexão se renovar. "Temos brasileiros muito talentosos no elenco, Estevão e João Pedro. Brasil e Chelsea têm uma relação muito forte", diz Lord Coe, o dono da caneta no atletismo.

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