DIREITOS LGBTQIA+

Tifanny obtém liminar na Justiça e conquista a Supercopa pelo Osasco

Vetada por nova regra da CBV, oposta obteve liminar a 1h30 do jogo e foi campeã com o Osasco

A atleta já atuava em competições nacionais sob a chancela da CBV desde 2017, argumento utilizado pela Justiça para conceder a liberação -  (crédito: Reprodução/Instagram/Tiffany Abreu)
A atleta já atuava em competições nacionais sob a chancela da CBV desde 2017, argumento utilizado pela Justiça para conceder a liberação - (crédito: Reprodução/Instagram/Tiffany Abreu)

A jogadora de vôlei Tifanny Abreu, primeira mulher trans a disputar a Superliga Feminina, conquistou o título da Supercopa com o Osasco na noite de sexta-feira (16/10), após conseguir uma autorização judicial para entrar em quadra.

A decisão, concedida cerca de uma hora e meia antes da partida contra o Praia Clube, em São Luís, no Maranhão, suspendeu provisoriamente o impedimento imposto pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) à participação da atleta.

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A controvérsia envolve as regras de elegibilidade de mulheres trans em competições femininas. Tifanny disputa torneios da modalidade no Brasil desde 2017, com autorização da própria confederação, mas teve sua inscrição impedida após uma mudança nas regras da entidade.

A Justiça entendeu que a alteração, sem um período de adaptação para atletas que já competiam profissionalmente, poderia prejudicar a jogadora.

Além de garantir sua participação na Supercopa, a liminar autorizou Tifanny a disputar a Superliga Feminina 2026/2027. A medida tem caráter provisório e poderá ser revista após a conclusão do processo que tramita na Justiça Desportiva. Caso descumpra a determinação, a CBV estará sujeita à aplicação de multa.

Entenda o impasse

A situação começou na quinta-feira (15/10), quando a CBV confirmou as inscrições das atletas do Osasco para a temporada, mas deixou pendente a regularização de Tifanny. Sem o registro, a oposta não poderia participar dos compromissos da equipe.

Os representantes jurídicos da jogadora e do clube recorreram ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), por meio de um mandado de garantia acompanhado de um pedido de liminar. O objetivo era assegurar que ela continuasse competindo enquanto a controvérsia sobre sua elegibilidade fosse analisada.

Na manhã de sexta-feira, entretanto, a Justiça Desportiva rejeitou o pedido. A defesa apresentou um recurso ao Tribunal Pleno do STJD e, paralelamente, buscou a Justiça comum para tentar obter uma autorização emergencial antes da partida.

O pedido foi parcialmente atendido pela 44ª Vara Cível do Rio de Janeiro, que considerou o histórico da jogadora nas competições nacionais. Para o magistrado, a CBV modificou as condições de participação sem oferecer uma transição adequada às atletas que já estavam em atividade. A decisão também levou em conta a falta de uma oportunidade efetiva para que Tifanny contestasse a restrição antes do jogo.

Conforme apuração do Globo Esporte, a defesa apresentou estudos técnicos e científicos utilizados para fundamentar a participação da atleta nas competições pelo Osasco nos últimos cinco anos.

Título e emoção após decisão judicial

Autorizada a jogar pouco antes do início do confronto, Tifanny participou da vitória do Osasco sobre o Praia Clube e esteve entre os destaques da equipe paulista na conquista da Supercopa.

O título teve um significado especial para a oposta, que passou o dia sem saber se poderia participar da decisão. Após a partida, ela se emocionou ao recordar a expectativa pela resposta da Justiça e relatou o desgaste provocado pela necessidade de defender sua permanência nas competições femininas.

"Fiquei esperando essa resposta [da liminar] o dia inteiro. Quando recebi a notícia pouco tempo antes do jogo, eu caí aos prantos. Fui para a quadra com calça, mas levei todas as minhas coisas de jogo na mala. É muito difícil, porque a gente, atleta, tem que brigar todo dia para se provar dentro de quadra. Tem que brigar todo dia treinando, malhando, cuidando do físico. Eu perdi um pouco do foco, um pouco por causa da ansiedade. Mas eu não perdi a minha fé. Ao mesmo tempo, tenho que me provar também como atleta fora de quadra. É muito difícil", disse a atleta em entrevista após o jogo.

O que significa a liminar?

Uma liminar é uma decisão judicial provisória, concedida quando existe a necessidade de resolver uma situação urgente antes do encerramento de um processo. Seu objetivo é evitar que a demora na análise definitiva provoque prejuízos às partes envolvidas. A medida produz efeitos imediatos, mas pode ser modificada ou revogada posteriormente.

No caso de Tifanny, a autorização permitiu que a atleta continuasse participando das competições femininas apesar do impedimento estabelecido pela CBV. Isso não significa, contudo, que a Justiça tenha encerrado a discussão sobre as regras de elegibilidade de mulheres trans no voleibol brasileiro. A decisão assegura, por enquanto, a permanência da jogadora nos torneios abrangidos pela ordem judicial.

O processo continua em análise no STJD, e a Justiça comum poderá reavaliar a liminar após a conclusão do julgamento desportivo. A CBV também tem a possibilidade de recorrer para tentar suspender ou modificar a autorização. Enquanto a medida estiver em vigor, a entidade deverá permitir a participação de Tifanny nos termos determinados pela Justiça.

O que diz a CBV

Após ser comunicada da decisão, a Confederação Brasileira de Voleibol informou que cumpriria a determinação judicial, mas anunciou a intenção de contestá-la. A entidade ressaltou que a autorização é excepcional e provisória, além de reiterar seu compromisso com o respeito às atletas.

Confira o comunicado na íntegra:

"A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) foi comunicada de decisão do Juízo da 44ª Vara Cível do Rio de Janeiro, proferida às 19h12 de hoje, que deferiu em parte pedido de tutela formulado pela atleta Tifanny Pereira de Abreu.

Em cumprimento à ordem judicial, e por força dela, a atleta terá, em caráter excepcional e provisório, condição de jogo na partida da Supercopa Feminina 2026 de hoje, e na Superliga Feminina 2026/2027.

A medida é provisória e o próprio Juízo consignou que a questão permanece submetida à Justiça Desportiva, onde tramita o Mandado de Garantia nº 002/2026, e que reapreciará a tutela tão logo seja noticiado o julgamento definitivo daquele processo.

A CBV apresentará os recursos cabíveis e adotará as medidas necessárias para a reversão da decisão.

A CBV reitera seu compromisso com o respeito e a dignidade de todas as atletas e repudia qualquer manifestação discriminatória."

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postado em 17/10/2026 16:43
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