O Brasil alcançou, em 2025, o maior percentual de estudantes em tempo integral dos últimos quatro anos e cumpriu uma das metas mais simbólicas do Plano Nacional de Educação (PNE). O levantamento contabiliza 46 milhões de matrículas, segundo dados do Censo Escolar divulgados nesta quinta-feira (26/2) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
De acordo com o documento, 25,8% dos alunos da rede pública da educação básica estão matriculados em jornada ampliada superando a Meta 6 do PNE 2014–2024, que previa atendimento mínimo de 25%.
O levantamento contabiliza 46 milhões de matrículas em 178,8 mil escolas de educação básica no país. Entre 2021 e 2025, o percentual de matrículas presenciais em tempo integral na rede pública cresceu 10,7 pontos percentuais, passando de 15,1% para 25,8%.
No ensino médio, a expansão também foi expressiva: o índice subiu de 16,7%, em 2022, para 26,8% neste ano. Em números absolutos, são 923 mil novas matrículas em tempo integral apenas entre 2024 e 2025, totalizando mais de 8,8 milhões de estudantes na rede pública com jornada igual ou superior a sete horas diárias (ou 35 horas semanais). O avanço ocorre em meio ao investimento de R$ 4 bilhões do governo federal, por meio do Ministério da Educação, no Programa Escola em Tempo Integral, criado em 2023 para apoiar estados e municípios na ampliação da oferta.
Janela decisiva para aprendizagem
Para Daniela Caldeirinha, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, ampliar o ensino em tempo integral é uma estratégia central para melhorar resultados educacionais e reduzir desigualdades. “Ampliar o ensino em tempo integral é alinhar o Brasil aos padrões internacionais e garantir melhores condições para aprendizagem, desenvolvimento integral e permanência dos estudantes na escola, o que pode impulsionar o país em avaliações como o PISA e o PIRLS”, afirma.
Ela destaca, especialmente, os anos Finais do Ensino Fundamental como uma etapa decisiva. “Mais tempo na escola, com currículo e práticas voltadas às adolescências, é a principal alavanca para melhorar a aprendizagem nos Anos Finais. Trata-se da última grande janela de desenvolvimento cognitivo, em que aprender algo novo fortalece a capacidade de aprender continuamente. O que acontece nesse período molda trajetórias ao longo da vida”.
Daniela também chama atenção para o desafio da equidade racial. “Segundo o Saeb de 2023, temos 10% dos estudantes pretos com aprendizagem adequada em Matemática ao fim do 9º ano, frente a 23% dos estudantes brancos”. Para ela, a expansão precisa priorizar quem mais precisa, com planejamento das transições entre etapas e soluções inovadoras que ampliem a aprendizagem com equidade.
Mais tempo não basta
A avaliação de especialistas, porém, é que a ampliação quantitativa precisa vir acompanhada de qualidade pedagógica. Patrícia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, considera os dados “muito significativos”, mas ressalta que o desafio agora é garantir intencionalidade no projeto educativo.
“São 923 mil novas matrículas em um único ano, ultrapassando 8,8 milhões de estudantes na rede pública. Esse crescimento consistente desde 2022 indica que o país está consolidando o tempo integral como uma estratégia estruturante para enfrentar os desafios da aprendizagem e das desigualdades educacionais. Mas é importante destacar: ampliar o tempo de permanência na escola é uma condição necessária — não suficiente”, argumenta.
Segundo ela, educação integral de qualidade exige currículo diversificado, com atividades artísticas, esportivas e culturais, diálogo com o território e fortalecimento tanto das aprendizagens cognitivas quanto do desenvolvimento socioemocional.
“Não se trata apenas de mais horas na escola, mas de um projeto educativo que amplie oportunidades reais de aprendizagem”, conclui Patrícia.
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