PESQUISA

Metade dos adolescentes passa mais tempo on-line do que gostaria, diz estudo

Pesquisa mostra que mais de 22% passam entre cinco e seis horas on-line; para estudantes, o desafio é controlar um hábito que já faz parte da rotina

Amanda S. Feitoza
postado em 17/08/2026 15:31 / atualizado em 17/08/2026 15:32
O caminho é ensinar o uso saudável do aparelho, sem deixar de lado outras opções de distração -  (crédito: Agencia Brasil)
O caminho é ensinar o uso saudável do aparelho, sem deixar de lado outras opções de distração - (crédito: Agencia Brasil)

Para Felipe Cunha, estudante do 2º ano do Ensino Médio do Galois, estudar e usar o celular ao mesmo tempo quase nunca funciona. Basta uma notificação aparecer para que a atenção saia dos livros e vá para a tela. O que deveria ser uma consulta rápida pode se transformar em longos minutos ou horas conectados. “Aparece uma mensagem, eu paro para responder e, quando percebo, já passou muito mais tempo do que eu imaginava”, conta.

A experiência de Felipe ajuda a traduzir em uma situação cotidiana um dos principais achados da pesquisa Adolescência Sem Filtro, realizada pelo Instituto Alana em parceria com a agência Koga. O levantamento ouviu 505 adolescentes de 13 a 17 anos, de todas as regiões do país, e mostra que 50% deles passam mais tempo na internet do que gostariam.

O problema não está apenas na percepção de excesso. O tempo conectado também ocupa uma parcela significativa do dia. Para quase 80% dos entrevistados, o uso diário da internet ultrapassa três horas. Mais de 22% passam entre cinco e seis horas online; quase 11%, entre sete e oito horas; e 15% ultrapassam oito horas por dia.

É nesse cenário que uma conta simples, feita pelo professor de Matemática do Galois Isaac Freire, ganha outro significado. Se um adolescente que passa quatro horas por dia na internet reduzisse esse tempo em apenas 20%, recuperaria 48 minutos diariamente. Em um mês, seriam 24 horas, um dia inteiro.

A conta chama atenção para algo que os números da pesquisa nem sempre conseguem mostrar: cada minuto conectado também é um minuto que deixa de ser usado em outra atividade.

O celular que interrompe o estudo

Felipe conhece esse efeito na prática. Segundo ele, o celular muitas vezes começa como uma ferramenta para estudar, mas rapidamente se transforma em uma fonte de distração.

“Às vezes, pego o celular para tirar uma dúvida ou buscar uma informação, algo que deveria levar poucos minutos, e acabo ficando muito mais tempo na tela do que planejava. Isso me incomoda, porque eu sei que estou perdendo tempo, mas ainda não consegui encontrar uma forma de resolver isso”, relata.

A dificuldade de controlar esse tempo aparece também nos resultados da pesquisa. Embora 57% dos adolescentes afirmem acreditar que atualmente têm mais controle sobre o período em que ficam conectados, quase quatro em cada dez dizem se sentir mais dependentes do celular e da internet do que há dois anos.

A percepção sobre os efeitos do excesso também aparece em outras áreas da rotina. Cerca de quatro em cada dez entrevistados relatam perda de qualidade do sono e do tempo de estudo. Quase metade, 49%, acredita que sua criatividade diminuiu por causa do uso da internet.

Para Patrícia Belezia, vice-diretora do Ensino Médio do Colégio Galois, os números mostram que o desafio não é apenas limitar o acesso à tecnologia, mas ajudar os adolescentes a desenvolver autonomia para decidir como utilizá-la. “Os jovens ainda têm dificuldade de se autorregular. Precisamos ajudá-los a entender que a tecnologia deve estar a serviço de um projeto de vida, e não que eles devem servir à tecnologia”, afirma.

Quando o problema não é a internet, mas o tempo que ela ocupa

João Vitor Menezes, também aluno do 2º ano do Galois, não vê a internet como algo necessariamente negativo. Para ele, o problema está na forma como algumas plataformas disputam continuamente a atenção dos usuários. “Eu não acho que a internet seja ruim, porque ela ajuda a gente a aprender, se divertir e até a se conectar com outras pessoas. O problema é que muitas plataformas são pensadas para manter a nossa atenção e fazer com que a gente continue ali sem perceber o tempo passar”, diz.

A percepção de João encontra eco nos dados. Apesar das dificuldades, os adolescentes também associam a internet a experiências positivas: 71% afirmam sentir diversão muitas vezes ou sempre durante o uso, enquanto 63% relatam sentir felicidade.

Ao mesmo tempo, a experiência digital também aparece ligada a sentimentos negativos. 27% relatam cansaço, 23% raiva e 22% ansiedade durante o uso.

A contradição aparece ainda na maneira como os próprios adolescentes enxergam o futuro da internet. 71% acreditam que ela precisa mudar e se tornar melhor, mas apenas 19% consideram que são capazes de contribuir para essa transformação. Outros 9% dizem que seria melhor se a internet deixasse de existir.

Os dados mostram, porém, que muitos jovens não estão apenas identificando o problema. Eles também estão criando estratégias para tentar mudar a própria relação com a tecnologia.

Entre as medidas adotadas estão bloquear contas ou conteúdos, prática citada por 44% dos entrevistados; denunciar perfis ou conteúdos inadequados, mencionada por 37%; fazer pausas, por 32%; desinstalar aplicativos, por 26%; e limitar o tempo de tela, por 24%. É uma tentativa de recuperar, aos poucos, o controle sobre uma rotina em que a internet já está presente em quase tudo.

No caso de João, a mudança desejada também passa por dar ao usuário mais autonomia. “Eu gostaria que a internet mudasse para que o usuário tivesse mais controle sobre o próprio tempo, em vez de ser constantemente atraído pela vontade de continuar rolando a tela”, afirma.

A pesquisa indica que essa percepção pode estar ganhando espaço. 66% dos adolescentes dizem que sua relação com a internet melhorou nos últimos dois anos, enquanto 53% afirmam valorizar mais os momentos presenciais e offline.

Nesse contexto, os 48 minutos calculados pelo professor deixam de ser apenas uma conta de matemática. São 48 minutos que podem significar uma atividade física, uma conversa, um encontro com amigos, algumas páginas de um livro ou simplesmente um período sem fazer nada.

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