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ENSINO SUPERIOR

Do lixão à universidade: catador transforma trajetória com diploma

Depois de começar a trabalhar com sucata ainda criança, em Goiás, Sinomar Alves dos Santos volta a estudar décadas depois e se forma em gestão de cooperativas

A história de Sinomar, 54 anos, começa muito antes da sala de aula. Natural de Uruaçu (GO), ele lembra que começou a trabalhar com reciclagem por volta dos 7 anos, recolhendo sucata nas ruas para ajudar no sustento da família. 
Criado pela avó, que cuidava de sete netos apenas com a aposentadoria, Sinomar cresceu aprendendo que trabalho e sobrevivência caminhavam juntos. “Eu juntava parafuso, sucata, essas coisas. Era em balde pequeno de tinta mesmo”, recorda. 
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Aos 11 anos, ele se mudou para Brasília, onde os estudos passaram por interrupções sucessivas. O sonho de infância era outro: queria ser piloto e mecânico de aeronaves. Mas as dificuldades financeiras e as mudanças familiares fizeram com que a escola ficasse em segundo plano por muitos anos. 
A volta aos estudos só aconteceu décadas depois, já adulto, quando passou a atuar na gestão financeira de uma cooperativa de reciclagem formada após o fechamento do lixão da Estrutural. Foi ali que percebeu que precisava se qualificar para lidar com os desafios administrativos do setor. “Eu vi que faltava alguma coisa mais: o ensino”, conta. 
Ele voltou a estudar, concluiu o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) e decidiu aproveitar a oportunidade de ingressar na graduação em gestão de cooperativas oferecida gratuitamente aos trabalhadores da reciclagem. 
Para Sinomar, o diploma representa mais do que uma conquista pessoal. Também é um exemplo para os filhos. “Eu fiz esse curso pensando neles. Se eu estiver preparado e a oportunidade chegar, eu consigo pegar ela. Se eu estiver despreparado, ela passa e eu fico no mesmo lugar”, afirma. 
Hoje, ele pretende continuar estudando, com foco na área ambiental e em temas ligados à sustentabilidade. Mas, acima de tudo, diz carregar orgulho da própria trajetória. “Eu fui criado sem pai e sem mãe e não precisei fazer nada errado para vencer. Isso já é uma vitória muito grande”, conclui.