A participação feminina na política brasileira continua marcada por obstáculos que surgem antes mesmo das eleições e permanecem durante o exercício dos mandatos. Relatos de lideranças políticas e levantamentos sobre desempenho eleitoral indicam dificuldades de acesso a financiamento de campanha, menor apoio dentro das estruturas partidárias e critérios de viabilidade que tendem a favorecer candidaturas masculinas. O cenário também inclui episódios de violência política de gênero, questionamentos sobre a legitimidade das candidaturas e desafios para conciliar responsabilidades familiares com a atuação pública.
Essas barreiras ajudam a explicar a baixa presença de mulheres nos espaços de decisão. Apesar de representarem a maioria da população brasileira, elas ocupam pouco mais de 18% das cadeiras no Congresso Nacional. O comando de governos estaduais e prefeituras também permanece concentrado entre homens, enquanto campanhas lideradas por mulheres frequentemente enfrentam limitações de estrutura e recursos.
Para a diretora de Educação do RenovaBR, Marjorie Lynn, a desigualdade na política ultrapassa a questão da presença numérica. “Não se trata apenas de representação simbólica, mas do pleno exercício da democracia. Quando metade da população tem menos voz nas decisões, as prioridades públicas se desequilibram e as políticas perdem legitimidade”, afirma.
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A organização atua na formação de lideranças políticas e tem buscado ampliar a presença feminina em seus programas de capacitação. Na turma de Formação de Líderes de 2025, as mulheres representaram 54,55% dos participantes. Considerando as turmas ao longo de oito anos, elas correspondem a 40% das lideranças formadas. Levantamento da instituição com base nas últimas eleições municipais aponta diferença significativa nas taxas de sucesso eleitoral: enquanto 17,1% das candidaturas masculinas foram eleitas, apenas 6,9% das femininas obtiveram vitória. Entre participantes formados pela escola política, porém, o índice chegou a 16,1%.
A deputada federal Gisela Simona (União-MT) afirma que episódios de deslegitimação fazem parte da rotina política. Segundo ela, interrupções em reuniões, falta de espaço para fala e reações de surpresa quando se apresenta como parlamentar são situações recorrentes. “Todos os dias convivemos com sinais de que a política não foi pensada para mulheres”, diz. Durante a campanha à prefeitura de Cuiabá, ela relata ter ouvido que seria “uma boa candidata apesar de ser mulher”. A parlamentar também recorda dificuldades na primeira disputa eleitoral, quando precisou denunciar a ausência de repasse do Fundo Especial de Financiamento de Campanha prometido pelo partido.
Experiência semelhante é relatada pela deputada estadual de Minas Gerais Lohanna França (Partido Verde), que afirma ter iniciado a trajetória política sem apoio financeiro partidário. “Não tive um real de fundo eleitoral e fiz uma vaquinha”, conta. Segundo a parlamentar, cerca de 127 doadores contribuíram para arrecadar aproximadamente R$ 8 mil, valor que permitiu viabilizar a campanha. Eleita aos 24 anos, Lohanna diz que questionamentos sobre idade são frequentes. “Mulheres são criticadas tanto por serem jovens quanto por serem mais velhas, como se a idade correta fosse a do homem”, afirma.
A trajetória da liderança indígena Vanda Witoto, diretora-executiva do Instituto Witoto, também evidencia dificuldades enfrentadas por candidaturas femininas. Em 2022, ela concorreu pela primeira vez à deputada federal no Amazonas e relata ter ouvido de um político que não teria chances de vitória com a estrutura disponível. “Infelizmente, você não vai ser eleita com a estrutura que você tem”, diz ter escutado durante a campanha.
Mesmo com financiamento aproximado de R$ 400 mil, inferior ao de campanhas consideradas competitivas no estado, percorreu 14 municípios e recebeu 25.524 votos, tornando-se a segunda mulher mais votada do Amazonas naquele pleito.
De acordo com Marjorie Lynn, do RenovaBR, a decisão de ingressar na política já envolve barreiras relacionadas à falta de representatividade. “Muitas mulheres não se enxergam nesses espaços institucionais e questionam se podem ocupar esse lugar”, aponta. Ela também destaca que decisões estratégicas dentro dos partidos continuam concentradas majoritariamente entre homens, o que influencia a distribuição de recursos e o apoio às candidaturas.
Dados da Confederação Nacional de Municípios indicam que mais de 60% das prefeitas e vice-prefeitas brasileiras já sofreram algum tipo de violência política de gênero. Os relatos incluem assédio verbal, pressão psicológica e agressões físicas. Entre as entrevistadas, 36,5% afirmaram que esses episódios impactaram diretamente a capacidade de governar.
O estudo “Mapa da Desigualdade Eleitoral Municipal”, elaborado pelo RenovaBR a partir das eleições de 2016, 2020 e 2024, também aponta limitações na representatividade feminina. O levantamento identificou que 737 municípios brasileiros não elegeram nenhuma mulher para o cargo de vereadora em 2024. Apenas 21 cidades apresentaram equilíbrio de gênero e raça na composição das câmaras municipais.
Especialistas apontam que a ampliação da participação feminina depende de mudanças estruturais nos partidos, maior acesso a financiamento eleitoral e fortalecimento de redes de apoio entre lideranças. A formação política e o conhecimento sobre as regras do sistema eleitoral também aparecem como fatores capazes de ampliar a viabilidade de candidaturas.
Polêmica
O debate sobre representatividade ganhou novo capítulo após a eleição da deputada federal Erika Hilton (PSol-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. A escolha provocou reações divergentes entre parlamentares, entidades civis e especialistas do campo jurídico. Enquanto críticos afirmam que uma mulher trans não deveria ocupar o cargo, apoiadores defendem que a presença da parlamentar amplia a diversidade de perspectivas na formulação de políticas públicas voltadas às mulheres.
A controvérsia ganhou repercussão após declarações do apresentador Carlos Massa, o Ratinho, durante programa exibido pelo SBT. Na transmissão, o comunicador questionou a escolha da deputada para comandar o colegiado e afirmou que a função deveria ser ocupada por uma mulher cisgênero. As falas geraram reações de parlamentares e parte do público, que apontaram conteúdo discriminatório.
No dia seguinte às declarações, Erika Hilton protocolou representação no Ministério Público do Estado de São Paulo solicitando a abertura de inquérito civil e o ajuizamento de ação civil pública com pedido de indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos à população trans e travesti. A parlamentar argumenta que as falas negaram sua identidade de gênero.
O episódio também mobilizou manifestações de apoio, como a da deputada Duda Salabert (PDT-MG), que classificou as declarações como ataques à comunidade trans. Já o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) criticou a eleição de Hilton e incentivou parlamentares a contestarem a escolha. Em nota, o SBT informou que realiza análise interna sobre o conteúdo exibido e reiterou que repudia discriminação.
*Estagiária sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza
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