
Oriunda do latim bellus, a palavra beleza remete ao que é bonito, agradável e gracioso. Em muitos contextos, atrás das grades dos presídios femininos esse sentido se perde junto com a liberdade. Entre paredes concretadas, muros rígidos e vigilância constante, as mulheres encarceradas também são privadas da feminilidade cotidiana — aquela que aparece em uma passada de batom, no creme de cabelo e até no gesto simples de se olhar no espelho.
Ao deixar a rotina de cuidados de lado, a identidade se esvai no dia a dia da detenção. Essas mulheres deixam de ser reconhecidas pelo nome e passam a ser vistas pelo crime que as levou até ali. Ainda assim, não existe pena capaz de apagar o poder de pertencimento que nasce da autoestima. Porque, quando uma mulher perde o acesso ao autocuidado, ela perde muito mais do que apenas esmalte ou hidratação.
Na ausência de produtos básicos de higiene previstos por lei como essenciais à manutenção da dignidade, os itens de beleza se tornam luxo e caem no esquecimento penitenciário. Mas há quem lembre essas mulheres de que a reconstrução da autoconfiança é possível e concreta. A Associação Ame Mulheres Esquecidas (A.M.E.) é um exemplo disso. Por meio dela, há um resgate do olhar feminino, da altivez e do belo que vive em cada mulher privada de liberdade.
Como um sonho, uma ideia, um desejo, a associação nasceu em 4 de agosto de 2018 com uma missão clara, levar amor e cuidado a mulheres encarceradas. Shaila Manzoni, fundadora, sonhou que estava em um presídio feminino cuidando dessas mulheres e decidiu que o amor seria o único objetivo. Desde então, a associação sem fins lucrativos atua em diferentes frentes, como capacitação, educação, acolhimento emocional, saúde, apoio jurídico e fortalecimento da dignidade. Além disso, a A.M.E. ampara os filhos, de até 12 anos, das mulheres encarceradas.
Foi por meio dessa iniciativa que Sara Araújo, hoje egressa do sistema prisional, teve sua história reconstruída. Durante o período de reclusão, participou de cursos de manicure e maquiagem. Apesar da animação para realizar os módulos oferecidos pela organização, Sara não tinha expectativas, pois a beleza havia sido negligenciada em sua trajetória. "Eu não gostava de manicure. Eu não gostava de unha. Eu não gostava de nada de beleza. Porque eu não tive isso na infância, eu não tive na juventude."
Voltada ao resgate da autoestima, da feminilidade e da dignidade, a associação promove dias especiais de cuidados e capacitações na área do autocuidado estético. O AME Beleza é um segmento dentro da vertente de capacitação e é liderado pela professora da Sara, Jacqueline Feitoza. A empreendedora e pedagoga leva aos presídios conhecimentos em nail design para que as mulheres desenvolvam independência financeira e autonomia, possibilitando que prosperem e realizem seus sonhos.
"Sempre tive vontade de ajudar os menos favorecidos, mas nunca imaginei que seria dentro de um presídio. Um dia, conversando com uma amiga da igreja, acabamos falando sobre o assunto. Trocamos experiências e eu disse que queria ministrar um curso de manicure para as mulheres detidas. Na verdade, não queria só dar aula; quando elas saírem, quero que possam trabalhar como manicures aqui fora. É o que eu posso oferecer. Seria tudo por minha conta, e eu topei muito feliz. A primeira vez que entrei lá foi uma experiência incrível", comenta Jacqueline.
Impulsionada pela diretoria do Presídio de Luziânia, Sara se abriu para a oportunidade. "Fui porque falaram que era uma remição, mas, chegando lá, entendi que era realmente uma profissão e eu aprenderia a fazer muita coisa na área da beleza." Com um talento até então escondido, a atual manicure e cabeleireira desenvolveu habilidades que, para ela, não seriam possíveis sem alguém apresentar esse universo.
Autocuidado e capacitação
Jacqueline, juntamente com as voluntárias Karol Alves, Joyce Sousa, Karina Lisboa e Tati Santos, do Salão Babado, Confusão e Gritaria, promove o Dia da Beleza em presídios do DF e do Entorno, uma ação que vai muito além de arrumar cabelos ou pintar unhas. Ali, o autocuidado se transforma em acolhimento, dignidade e esperança. Cada mulher é lembrada de que, apesar dos erros e das circunstâncias, continua sendo humana e capaz de recomeçar. A rotina dura e silenciosa do cárcere dá lugar a um ambiente de afeto quando a equipe entra com mesas, escovas, materiais de manicure e itens de cuidado pessoal.
"Eu enfrentei mesmo sem conhecer esse universo. Mas chegando lá, quando vi os kits em cima da mesa, fiquei sem reação, não sabia por onde começar. Sou muito feliz agora que sei que tenho o dom de cuidar de unhas e cabelo. Como eu nunca tive isso na vida, achava que não ia fazer parte da minha história, porque um curso desse eu nunca teria condição de pagar", comenta Sara.
Com o sucesso dos dias especiais de cuidado, as capacitações estéticas se consolidaram como ferramentas de ressocialização para as mulheres detidas. Liderada por Mariana Fonseca, a vertente de educação conta com sete frentes, incluindo uma voltada à valorização da feminilidade e à qualificação profissional na área. "Não tenho experiência na área da beleza, sou formada em direito. Mas sempre tive vontade de servir. Venho aprendendo de forma orgânica, e atraímos voluntários que amam essas mulheres de forma linda. Por meio dessa junção de capacitação e cuidado, a transformação delas é real, e vemos isso a cada visita aos presídios", afirma.
Ao concluir a pena, Sara se viu sem saída e não sabia como dar continuidade à própria trajetória. "Quando saí do presídio não tinha nem roupa, estava com medo, não conseguia sair de casa e tudo me assustava." Felizmente, Jacqueline Feitoza e Mariana Fonseca abriram caminhos para ela com uma nova capacitação, o curso Recomeçar, que, por meio da plataforma de educação da associação, prepara a pessoa egressa do sistema prisional para o retorno à vida em sociedade com cursos de comunicação, português, mentalidade, direito e deveres, educação financeira e mercado de trabalho, além de uma bolsa mensal de R$ 300 pelo período de um trimestre. Apesar de, inicialmente, a capacitação não ser voltada à beleza, contribuiu para o fortalecimento da autoestima e da autoconfiança.
Beleza e estética
Atualmente, a associação, em parceria com profissionais voluntárias, oferece cursos dentro das penitenciárias de designer de sobrancelhas, epilação facial, nail designer, manicure raiz, automaquiagem e cabelo afro. Fora das grades, dois treinamentos são oferecidos: manicure e cabeleireira, voltados à atualização de técnicas em alta no mercado da beleza. "Além disso, as egressas que completam o curso dentro do presídio recebem um kit para iniciar o trabalho como manicure", explica Mariana.
Sara conta que, em um dia comum, Mariana ligou para ela e a convidou para um encontro. Sem esperar uma surpresa, foi presenteada com esmaltes, utensílios de manicure e a cabine para esmaltação. "Já comecei a divulgar no mesmo dia e, depois que algumas pessoas me procuraram, comecei a fazer unhas cobrando bem baratinho." No início, tinha três clientes e, hoje, após o apoio daquelas que acreditaram no recomeço, Sara conta com mais de 400 pessoas buscando seu serviço.
Para 2026, estão previstos cursos de visagismo e especialização em cílios. "Nosso objetivo é oferecer o pacote completo da beleza com nove cursos dentro das penitenciárias, proporcionando empregabilidade e ampliando oportunidades para que essas mulheres possam abrir seus próprios negócios e alcançar independência financeira. O pacote inclui visagismo, corte e escova, lashes designer, manicure raiz, nail designer, automaquiagem, cabelo afro, epilação facial e designer de sobrancelha."
De pouquinho em pouquinho, por meio de doações e muito trabalho, Sara foi montando um salão completo, que atualmente também oferece serviços de cabelo. Paralelamente ao esforço com o espaço, ela passou a trabalhar como costureira para gerar renda extra. "Fui trabalhar mais para crescer, mas quando eu estava fora do salão, os clientes me ligavam solicitando atendimento. Então levava meu material de manicure e escovas para onde fosse. Só queria fazer meu negócio ir para frente", afirma. Com o dinheiro obtido em seu outro trabalho, ela investia no próprio salão.
O curso de designer de sobrancelhas e epilação facial, liderado por Priscila Honorato, em parceria com o Projeto Estrela, iniciativa social voltada para mulheres em situação de vulnerabilidade, ensina técnicas de harmonização do rosto por meio de um design personalizado e da remoção dos pelos faciais. "O Projeto Estrela nasceu da vontade de levar empreendedorismo para as administrações regionais de Brasília e Entorno, despertando oportunidades profissionais e fortalecendo uma visão empreendedora. Dentro dos presídios, abrimos portas para o recomeço dessas mulheres quando saírem de lá."
As aulas são carregadas de emoção, e Priscila lembra as alunas, a todo instante, da importância de agarrar a oportunidade. "Vocês estão tendo acesso a profissionais que deixaram seus compromissos lá fora para investir em vocês. Eu acredito em vocês, acredito que vocês vão mudar. Vai dar certo." Para ela, trabalhar a identidade também é essencial. "Elas precisam ver o que Deus fez na minha vida, e eu conto a minha história."
Do cuidado à autonomia
A superação de Sara não impacta apenas quem conhece sua história; hoje, também alcança os clientes que frequentam seu salão. "Eu não acreditava que era possível sair da vida que eu levava. Quando todos me abandonaram, vi pessoas que acreditaram em mim e que me fizeram acreditar no mundo da beleza. Hoje, os clientes perguntam da minha tornozeleira, eu não tenho vergonha, falo com orgulho de onde eu consegui sair e tudo o que eu conquistei." Sara ainda comenta que, se todos os reclusos tivessem essas oportunidades, o crime não seria tão recorrente.
As aulas de manicure raiz, ministradas por Jacqueline Feitoza, focam nos cuidados essenciais das unhas naturais, incluindo limpeza, remoção de cutículas, lixamento e esmaltação tradicional. Durante os quatro dias de curso, Jacqueline sai com uma bagagem maior do que quando entrou. "Uma vez eu escutei: 'Professora, eu pensei que o curso era ontem e tentei suicídio. Mas graças a Deus que é hoje, porque eu sonhei com meu nome no letreiro do salão'. Então eu vi que a unha alimentava a esperança dela de, quando sair, ser alguma coisa." Ela também conta que encontrou cinco mulheres que já eram manicures fora do presídio, mas que nunca haviam tido a oportunidade que estavam recebendo ali. "Elas começaram a agradecer por estarem presas e diziam que, quando fossem livres novamente, fariam diferente. E aí fomos estudando a possibilidade de oferecer outras coisas", lembra.
Com a fala emocionada, Sara recorda a descrença em si mesma quando as portas começaram a se abrir. "Quando eu estava presa, não acreditava em nada do que me falavam, que eu ia conseguir um emprego e crescer na vida. Por que quem ia me dar essa oportunidade, os materiais, o investimento? Tudo era apenas ilusão na minha cabeça." Hoje, Sara garante que só consegue agradecer.
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O curso de nail designer, ministrado por Joyce Souza, Karine Lisboa e Karol Alves, especializa as mulheres detidas em técnicas avançadas, como fibra de vidro, gel, acrílico, Molde F1, blindagem e decoração sofisticada. Karol ressalta a dimensão humana desse processo. "Tenho muita certeza de que a transformação pode acontecer. Estar dentro do presídio me fez entender o valor da nossa liberdade. Eu não tinha essa percepção de que posso ir para casa a hora que eu quiser, comer o que eu quiser. E é lindo falar sobre acreditar, porque é isso: nós acreditamos na transformação delas. Se nós podemos mudar, por que elas não poderiam? E temos visto isso em cada curso, em cada atendimento na área da beleza."
Ver e ser vista
A antropóloga Debora Diniz explica que as iniciativas de beleza dentro das unidades femininas atuam como instrumentos de dignidade e reconhecimento. Para ela, qualquer ação que devolva autoestima e incentive o cuidado consigo mesma funciona como uma forma de ressituar o olhar sobre a mulher privada de liberdade. "É um retorno a ser vista e reconhecida", destaca. Debora ressalta que as práticas de beleza têm impacto imediato porque funcionam como ponte entre o "dentro" e o "fora" do presídio, além de oferecerem resultados visíveis, especialmente em dias de visita. "Elas se transformam em mecanismos de ver, ser vista, de celebração e de alegria", afirma.
O curso de automaquiagem, oferecido por Laísa Amorim, ensina técnicas para uso pessoal, desde a preparação da pele até o batom. "Em primeiro lugar, quero mostrar para elas que a imagem tem poder. Lá dentro, muitas vivem sem perspectiva e nem têm um espelho para se olhar. A automaquiagem chega como um presente, uma forma de se reconhecerem como seres humanos que têm valor."
Ao discutir qualificação profissional, Debora aponta que essa formação pode ampliar direitos e reduzir vulnerabilidades, sobretudo porque o perfil das mulheres no sistema prisional é marcado por baixa escolaridade, trabalho precarizado e juventude. Para ela, os cursos de beleza se inserem entre os poucos "túneis" possíveis de reinserção. "Os cursos de beleza podem ser mecanismos de reinserção no mundo do trabalho", afirma.
O curso cabelo afro, ministrado por Jaqueline Oliveira, leva aos presídios uma abordagem que vai além da estética. "O que falta em relação ao cuidado do cabelo crespo e cacheado não é alisamento, é conhecimento. Muitas acham que o próprio cabelo é complicado, mas ele só precisa de água, óleo e cuidado. O conhecimento liberta", afirma. Ela ensina finalização, hidratação e cronograma capilar. "O cabelo cacheado conta história, podendo ser indígena, africana, portuguesa. É identidade. Muitas mulheres lá dentro ainda sentem vergonha ou medo de voltar aos cachos, porque nunca se conheceram de verdade", diz.
A psicóloga Bruna Dandara destaca que, sob a ótica da psicologia, o cuidado com a aparência é uma forma essencial de autocuidado. "Decidir sobre sua aparência, mesmo em pequenos gestos, devolve uma parte da liberdade perdida", afirma. Para ela, esses rituais resgatam a identidade individual e protegem contra depressão e despersonalização. "Cuidar de si em um ambiente tão restritivo é afirmar 'eu continuo sendo alguém'", pontua. Ela reforça que cursos de beleza estimulam autoconfiança, responsabilidade e vínculos significativos. "Promove um grupo em que se aprende, se desenvolve e se fortalece a identidade coletiva", completa.
Perspectiva de futuro
A diretora da Unidade de Polícia Penal Regional Feminina de Luziânia, Luana Rayka, observa que muitas internas chegam ao sistema prisional após longos períodos de vulnerabilidade e rupturas sociais profundas. "Elas voltam a se ver como mulheres", relata. Para Luana, os cursos se tornam ferramentas de pacificação, fortalecendo o senso de comunidade e reduzindo conflitos. Com a chegada da ONG A.M.E., ela notou mudanças importantes, responsabilidade, disciplina e perspectiva de futuro cresceram entre as internas. Um episódio a marcou profundamente: uma aluna chorou ao lembrar da mãe manicure e afirmou que, ao aprender a profissão, sentia que finalmente a estava honrando.
A A.M.E. atua no presídio feminino de Luziânia, Formosa, Barro Alto e na Penitenciária Feminina do Distrito Federal (PFDF), levando cursos de qualificação, ações de acolhimento e suporte emocional. Para a realização das atividades, a equipe monta toda a estrutura: mesas, totens, cadeiras, extensões, lixeiras e materiais individuais para cada aluna. Para isso, organizam-se com antecedência, separando kits, planejando a logística e deixando tudo pronto para cada visita.
As egressas que concluem cursos dentro do presídio recebem um kit completo para começarem a trabalhar imediatamente ao deixarem a unidade. Além disso, a A.M.E. e as voluntárias mantêm contato após a soltura, oferecendo escuta, encaminhamentos e incentivo à continuidade da profissão. A cerimônia de entrega dos certificados, sempre carregada de emoção, marca simbolicamente um resgate da autoestima. "Elas se sentem lindas, empoderadas. Elas se produzem, se cuidam e se olham no espelho como há muito tempo não faziam. E, ali, redescobrem a própria autoestima", completa Jacqueline Feitoza.
As professoras, cada uma em sua área, compartilham dessa mesma transformação. Joyce, Karine e Karol relatam que o curso de nail designer é marcado pelo brilho nos olhos das internas ao descobrirem novas habilidades. Laísa, responsável pela automaquiagem, afirma que o ato de se olhar no espelho, tantas vezes negado no ambiente prisional, devolve humanidade. Jaqueline destaca que, ao ensinar cabelo afro, vê mulheres reencontrando sua história e identidade. E Priscila Honorato reforça, a cada aula, que ali se abre uma porta real: "Vocês podem. Vocês vão conseguir".
Luana Rayka reforça que a chegada da ONG trouxe mudanças no comportamento das internas: "Elas ficam mais tranquilas, mais responsáveis, mais esperançosas. A prisão fica mais pacífica". O impacto, segundo ela, ultrapassa a estética. "Quando elas se reconhecem como mulheres novamente, tudo muda."
A história de Sara tornou-se um símbolo desse processo. "Eu me sinto a mulher mais bonita do mundo. E eu sei que, por conta disso, consigo fazer outras mulheres se sentirem assim." Em cada curso ministrado, em cada unha feita, em cada fio de cabelo cuidado, as voluntárias deixam sementes de reconstrução. Um gesto simples, como ensinar a lixar uma unha ou a finalizar um cacho, abre caminhos para novos começos. Dentro das grades, as mulheres redescobrem seu valor. Do lado de fora, encontram a chance de reescrever a própria história.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
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