É terça-feira, início de semana e muitas tarefas estão empilhadas, prontas para serem terminadas. A cabeça, às vezes cheia, pede um pouco de respiro. E para muitos, a resposta está na rua, especialmente quando compartilhada com outras pessoas. Esse fenômeno psicológico do pertencimento está ressignificando a prática esportiva na capital federal, transformando atividades solitárias em movimentações de ocupação urbana, amizade e superação mental.
O "efeito de grupo" está por toda parte. Não somente no coração de Brasília, como é o caso do Eixão, mas também domina as redes sociais e pode ser encontrado em cada canto do país. Corridas, ciclismo e muitos exercícios, agora, são feitos com centenas de pessoas reunidas. Para o psicólogo esportivo e neurocientista Miguel Avelar, o esporte individual ganha uma dimensão potente quando compartilhado. O especialista explica que a presença de outros indivíduos funciona como um combustível biológico para o cérebro.
"O esporte individual realizado em grupo tem um potencial tremendo em relação à sensação de pertencimento, incentivando o praticante a se expor mais de uma maneira que, sozinho, possivelmente não o faria. A motivação e o sistema dopaminérgico assumem função primordial em se manter engajado apesar do cansaço e das dores", explica o profissional. Segundo ele, a coletividade atua como um escudo contra a desistência.
Quando a desmotivação chega, muitos encontram no ânimo de quem está ao lado a energia necessária para continuar tentando. "Quando pensamos em uma dinâmica de grupo, existe esse constante incentivo entre os membros para que permaneça no ritmo, buscando impedir que essa motivação e engajamento com a atividade caia. A literatura científica demonstra que a presença de um rival ou competidor aumenta a performance de um atleta de endurance já mentalmente fadigado", detalha Miguel.
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Arquivo pessoal - A The Corre é um dos principais grupos de corrida de Brasília
Do medo à inspiração
A jornada da corredora Ana Ferraz, 18 anos, é a ilustração clara dessa transição. O que começou como um desafio imposto em casa, sozinha, tornou-se uma paixão alimentada pela rede de apoio. "No início, não foi fácil, mas fui pegando gosto. Meus pais foram os maiores responsáveis, eles são minha maior inspiração. No grupo, a corrida deixa de ser só sobre performance e passa a ser sobre amizade e momentos de superação que, de maneira solitária, talvez não tivessem o mesmo significado", relata.
E é na rua, na companhia de tantas pessoas, que ela encontrou a força necessária para continuar trilhando esse caminho esportivo. Integrante da The Corre desde março, comunidade de corredores em Brasília, Ana vive a felicidade de praticar atividade física perto de amigos e desconhecidos. Mais do que isso, hoje carrega uma outra perspectiva sobre a rotina de atividade física.
"Pra que correr sozinho se você pode correr com a galera que você gosta? Essa é uma das frases que gosto de usar", brinca a jovem. Fundador do projeto The Corre (@thecorre.running), Adriano Lira, 37, com o sócio Samuel Kaminski, percebeu que Brasília carecia dessa "pegada social" já comum na Europa e no eixo Rio-São Paulo. "Começamos pequenos, com apenas seis pessoas. Ajustamos o horário, colocamos música e trabalhamos na internet. Já tivemos eventos noturnos com quase 300 pessoas em dia de semana", ressalta Lira.
O sucesso do modelo — que une gratuidade, música e socialização — já projeta novos horizontes. Adriano revela que o projeto, que expandiu para São Paulo com encontros quinzenais, deve evoluir para o suporte técnico. "Nossos planos são aumentar a comunidade e, logo, logo, levar nossa vibe também para o lado da performance, criando uma assessoria que conecte a leveza do grupo com treinos estruturados para quem quer evoluir", projeta o idealizador.
Comunidade que abraça
Na avaliação de Luiza Cruz, psicóloga e diretora da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), muitas pessoas começam uma atividade física por orientação médica, estética ou desejo de melhorar a saúde, mas permanecem quando encontram vínculo, acolhimento e sentido. "Ou seja, o suporte emocional para a continuidade da prática é um dos fatores mais relevantes, pois transforma o objetivo individual em uma experiência compartilhada com incentivo mútuo", detalha.
O coletivo oferece, segundo a profissional, um ambiente favorável, em que pequenas conquistas são reconhecidas. Esse reconhecimento ajuda a sustentar a motivação e manter os amantes do esporte por perto. "Estudos sobre apoio social e atividade física apontam que suporte, vínculo e pertencimento estão associados à manutenção da adesão e do comportamento ativo", acrescenta a especialista.
Fundador do Clube Squadra (@clubesquadra), Fabricio Lino, 48, é uma testemunha ocular da história da bicicleta em Brasília. Com mais de 30 anos de pedal, ele recorda uma época em que sapatilhas e capacetes eram raridades na cidade. No entanto, foi a bagagem de duas décadas de viagens de ciclismo pela Europa — especialmente pela França e Itália — que plantou a semente para a criação do grupo.
"Comecei a enxergar coisas lá fora que queria muito trazer para o Brasil", detalha Lino. "Fundar o Squadra foi mostrar para as pessoas que pedalar de maneira coletiva é algo que vale muito a pena", completa. Para o líder do projeto, a escolha entre pedalar sozinho ou em grupo não deve ser excludente, mas, sim, equilibrada. Se o pedal solitário favorece o autoconhecimento e a técnica individual, o pedal em grupo oferece um elemento crucial para o ciclista urbano: a segurança.
"Um pedal coletivo é muito mais visto nas ruas, nós nos protegemos. É muito mais fácil um motorista enxergar 20 ciclistas do que um sozinho", afirma Fabricio Lino. Além da visibilidade, o grupo funciona como uma rede de apoio logístico (para troca de pneus e hidratação) e técnica, em que os mais experientes orientam os novatos na manutenção do ritmo e da disciplina. E, assim, centenas de ciclistas fazem parte da comunidade.
Leonardo Carvalho, 52, atleta e um dos pilares do projeto, reforça que a iniciativa vai muito além do cronômetro. Para ele, o clube nasceu da vontade de conectar pessoas e valorizar as paisagens do Cerrado. "Percebemos que pedalar em grupo é amizade, parceria e aquele momento de desligar da correria", destaca Carvalho. O ambiente acolhedor tem sido o "empurrão" que faltava para muitos brasilienses saírem da inércia. "Muita gente começou a pedalar por causa do projeto e isso é muito gratificante", finaliza.
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