
A primeira-dama Janja Lula da Silva levou ao Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (3/11), um estudo sobre os impactos das apostas online na vida das mulheres e das famílias brasileiras. Ao lado da produtora cultural Paula Lavigne e de Mariana Ribeiro, cofundadora do Estúdio Clarice, Janja entregou o relatório Mulheres & Bets ao ministro Luiz Fux, antes da audiência pública que discute a proibição das plataformas no país.
O levantamento mostra que os efeitos das bets ultrapassam a vida de quem aposta. As consequências financeiras, emocionais e familiares também atingem mulheres que nunca jogaram, mas convivem com pessoas que desenvolveram problemas com as apostas. Nas redes sociais, Janja defendeu a manutenção da proibição. “As famílias brasileiras precisam seguir livres das Bets!”, escreveu.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Leia Mais
A audiência ocorre em meio à contestação, no Supremo, da medida que proibiu as plataformas. O debate envolve os impactos sociais dos jogos e a pressão de empresas de apostas e clubes de futebol pela retomada do setor.
Divulgada em agosto de 2026, a pesquisa Mulheres e Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias foi desenvolvida pelo Estúdio Clarice, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA. O estudo aponta que 42% das brasileiras já apostaram em plataformas digitais. Entre as mulheres que continuam jogando, 72% são mães.
Ver esse post no Instagram
Mulheres com filhos apostam mais
Segundo o levantamento, mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que aquelas que não são mães. O dado chama atenção diante da pressão financeira relatada pelas entrevistadas: 64% afirmam que o custo de vida aumentou no último ano, enquanto 56% dizem estar endividadas.
Entre as mulheres que já apostaram, 20% continuam jogando, com diferentes frequências, e 22% abandonaram as plataformas. A pesquisa considera apostas esportivas, cassinos virtuais e jogos de sorte instantânea, como os chamados crash games.
O estudo ressalta que os termos “vício” e “dependência” são utilizados para representar a percepção das entrevistadas e da opinião pública, e não diagnósticos médicos.
A pesquisa também evidencia o peso das mulheres na administração da renda doméstica. Mais da metade das entrevistadas, 52%, afirma ser a principal responsável pelo dinheiro da casa. Entre as despesas prioritárias estão a compra de alimentos, citada por 68%, e o pagamento de contas de água, luz, gás e internet, mencionado por 65%.
Mesmo assim, parte das apostadoras relata ter comprometido recursos destinados a outras necessidades para continuar jogando. O levantamento aponta que 12,9% recorreram ao cartão de crédito ou ao cheque especial, enquanto 8,6% utilizaram dinheiro de reservas bancárias.
Outras 8,1% deixaram de pagar alguma conta e 5,7% pediram dinheiro emprestado. Em situações mais graves, 4,8% ficaram inadimplentes e 4,3% deixaram de comprar comida. Para 2,9%, o corte atingiu despesas destinadas aos próprios filhos.
O impacto também chega a quem nunca apostou. Segundo a pesquisa, 12% das brasileiras dizem ser diretamente afetadas pelas apostas de parentes ou amigos próximos. Somadas às mulheres que apostam ou já apostaram, 54% relatam ter sentido algum efeito direto do fenômeno.
Entre as mulheres afetadas pelo comportamento de terceiros, 14,4% afirmam que a família precisou pedir dinheiro emprestado. A mesma proporção relata ter deixado de pagar alguma conta. Para 9,8%, a renda ou o orçamento doméstico foi prejudicado. Há ainda relatos de uso de cartão de crédito ou cheque especial (9,1%) e de empréstimos com agiotas (7,6%).
Busca por renda extra leva mulheres às bets
A possibilidade de ganhar dinheiro aparece entre as principais motivações para apostar. De acordo com o estudo, 21,5% das apostadoras dizem jogar em busca de renda extra, enquanto 18,7% afirmam querer ganhar dinheiro rapidamente.
Outras 15,8% apostam para complementar a renda e ajudar nas despesas básicas da casa. Já 11,5% afirmam que recorrem às plataformas para quitar dívidas.
A percepção de habilidade também aparece entre as jogadoras. Um quarto das mulheres, 25%, concorda que é preciso ser habilidosa para vencer nas apostas. Entre as apostadoras frequentes, o percentual sobe para 40,5%.
Ao mesmo tempo, 58% das mulheres que apostam frequentemente consideram que o jogo está “totalmente sob controle” em suas vidas. Apenas 20% reconhecem que as apostas representam um problema muito grave naquele momento.
Os cassinos online, que incluem roleta, caça-níqueis e jogos como o chamado “Tigrinho”, são a modalidade mais citada pelas mulheres que apostam. Ao todo, 49% afirmam jogar nesse tipo de plataforma.
Na sequência aparecem os jogos de sorte instantânea, como o Aviator e outros crash games, mencionados por 29%, e as apostas em futebol, citadas por 26%.
O horário também chama atenção. Três em cada dez mulheres (30%) dizem apostar mais à noite ou de madrugada, proporção superior à registrada entre os homens, de 20%.
As redes sociais também aparecem como porta de entrada para as apostas. Entre as mulheres, 24% conheceram as plataformas por meio desses canais, enquanto 23% chegaram aos jogos por grupos de amigos e 18% por influenciadores digitais.
Depois do primeiro acesso, 79% afirmam ter passado a receber mais conteúdos relacionados a apostas nas redes sociais. Para 72%, a publicidade das bets contribui para que as pessoas apostem mais do que deveriam.
O marketing de indicação também aparece no levantamento: 37% das apostadoras dizem já ter recebido algum benefício financeiro ou bônus para recomendar uma plataforma a outras pessoas.
Ansiedade, conflitos e violência
Os impactos relatados pelas entrevistadas também envolvem a saúde mental. Entre as mulheres que começaram a apostar, 20% dizem ter experimentado ansiedade, 11% depressão e 9% crises de pânico, insônia ou sensação de coração acelerado.
O reconhecimento de dependência aparece em 12% dos relatos, enquanto 11% mencionam perda de controle.
Nas relações familiares, os efeitos também são expressivos. Entre as mulheres que não apostam, mas são afetadas pelo comportamento de pessoas próximas, 24,2% relatam conflitos familiares, 23,5% mencionam perda de confiança e 20,5%, desgaste emocional.
A pesquisa também aponta uma relação entre apostas e violência doméstica. Ao todo, 23% dos brasileiros dizem conhecer ou ter presenciado alguma situação em que os jogos contribuíram para casos de violência dentro da família. Entre aqueles que apostam frequentemente, o índice chega a 46%.
Vergonha dificulta busca por ajuda
Apesar dos prejuízos relatados, poucas mulheres procuram ajuda para interromper as apostas. Apenas 13% das brasileiras que apostam ou já apostaram afirmam ter pedido auxílio. Outras 9% disseram que quiseram buscar ajuda, mas não o fizeram.
A vergonha é a principal barreira para quem desistiu de procurar apoio: 65% das mulheres apontam esse sentimento como motivo, contra 50% dos homens. Além disso, 23% afirmam não ter a quem recorrer.
Entre as mulheres impactadas pelas apostas de outras pessoas, 73% dizem já ter alertado o apostador sobre os riscos dos jogos.
Para aquelas que conseguiram parar, os principais motivos foram perceber que não estavam obtendo os ganhos esperados (28%) e considerar o risco financeiro alto demais (24%). Após abandonar as apostas, os sentimentos mais relatados foram tranquilidade (28%) e alívio (24%).
Maioria das mulheres defende proibição
A pesquisa também revela diferenças na percepção sobre a regulamentação das apostas. Entre as mulheres, 62% defendem a proibição das casas de apostas, contra 50% dos homens. No conjunto da população, 56% apoiam a proibição total das bets no país.
Outro dado é o desconhecimento de mecanismos de proteção. Entre as mulheres, 74% nunca ouviram falar do Sistema de Autoexclusão do governo, ferramenta que permite ao usuário se excluir das plataformas de apostas. No total da população, o índice chega a 71%.
Ainda entre as mulheres, 41% defendem que as casas de apostas continuem funcionando, mas com a proibição total da publicidade.
Para as autoras do estudo, as plataformas conseguiram associar os jogos à possibilidade de conquistar dinheiro rápido e alcançar uma vida mais digna. A pesquisa aponta que a mudança desse cenário passa por tratar as apostas não apenas como uma escolha individual, mas como um fenômeno que pode provocar consequências financeiras, emocionais e familiares.
Entre as medidas defendidas estão ampliar a proteção de crianças e adolescentes, dar visibilidade aos impactos sobre as mulheres, discutir os conflitos provocados dentro das famílias e questionar estratégias de divulgação que apresentam os jogos como uma forma de obter renda.
O levantamento foi realizado entre junho e julho de 2026, em duas etapas. A fase qualitativa reuniu entrevistas simultâneas em tríades. Já a etapa quantitativa, de abrangência nacional, teve o questionário aplicado nos dias 8 e 9 de julho.
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil
Brasil