proteção aos animais

Histórias de abandonos de cães e gatos são ressignificadas por protetores

Anônimos lutam para garantir dignidade a animais comunitários. Conseguir castrações e adoções são os maiores desafios

Amanda Martins é responsável pelo projeto Doguitos do Mato, em Sol Nascente -  (crédito:  Ed Alves CB/DA Press)
Amanda Martins é responsável pelo projeto Doguitos do Mato, em Sol Nascente - (crédito: Ed Alves CB/DA Press)

Há pouco mais de um ano, os funcionários do Hospital Regional de Planaltina (HRP) notaram a presença constante de um cão caramelo em frente à emergência. Persistente, ele aguardava a saída de seu tutor. Esperou por dias, semanas, mais de meses. Nada. O companheiro do vira-lata havia morrido.

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"Como ele (o cão) não viu seu tutor sair, decidiu esperar. A família do falecido até tentou levá-lo para casa. Não insistiram muito. Fiel, ele permaneceu no hospital. Começamos, então, a cuidar, levando-o para um lugar mais adequado e alimentando-o", conta Giselle Castro, 45 anos, servidora do HRP.

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Apelidado pela equipe de Caramelão, o animal vive, hoje, em um lar temporário e aguarda por adoção. Ainda é cuidado pelo grupo de Giselle — chamado O amor salva patas — que se reveza para garantir alimentação, remédios, afeto e até conseguiu castrá-lo. Além dele, pelo menos 50 outros animais, entre cães e gatos, tiveram um destino semelhante após serem abandonados nos arredores do hospital.

A servidora, junto a outros 21 funcionários do HRP, tem se engajado no acolhimento desses animais, conhecidos por serem comunitários, isto é, sem tutor único ou domicílio fixo. Trata-se de cães e gatos que estabelecem laços de dependência e afeto com a vizinhança, sendo cuidados coletivamente por moradores, trabalhadores ou frequentadores daquele espaço.

Os animais comunitários estão em todos os lugares, basta observá-los de forma mais atenta. No Distrito Federal, há duas leis em vigor que determinam sua proteção, além de preverem segurança jurídica aos cuidadores, autorizando a instalação de abrigos e comedouros em áreas públicas. Retirá-los ou impedir a prestação de cuidados é proibido, inclusive em condomínios, conforme norma promulgada há pouco mais de um mês, pela Câmara Legislativa do DF (CLDF).

Na prática, porém, tanto os animais quanto os cuidadores sofrem com a hostilidade daqueles que não aceitam sua presença. "No nosso caso, 90% das pessoas costumam ajudar, acabam se sensibilizando. Mas já precisamos lidar com várias ameaças. Certa vez, disseram que colocariam veneno para os animais, acredita?", relata Giselle, tutora de 20 animais, muitos resgatados nos arredores do hospital.

Os custos para cuidar dos animais comunitários saem do próprio bolso do grupo. Quando é possível, conseguem vagas de lar temporário na casa de Maria de Prazeres Silva, 62. "A gente tenta encontrar tutores que cuidem de verdade dos bichinhos. Não vamos entregar para qualquer um", diz a cabeleireira, que construiu ao menos seis baias em seu quintal para acolher os seus bichos e os outros.

Também funcionária do hospital, Carlete Antônia, 58, explica a motivação para continuar tocando o projeto, mesmo com tantos desafios: "Eu não tenho coragem de ver um ser que respira, nasce como nós, sente fome e frio vivendo em sofrimento e não tentar ajudar. Diferentemente de nós, são indefesos e inocentes. Ninguém é obrigado a gostar, mas é preciso ter respeito. Isso é o mínimo".

No momento, O amor salva patas tenta formalizar uma ONG para angariar mais recursos. Com o projeto Tampet's, o grupo arrecada tampinhas para vender e poder ajudar mais animais. Um dos pontos de coleta é o próprio HRP, no setor de Neonatologia. Para saber mais informações, basta acessar o Instagram @tampetsdobem. 

Protocolo CED

No Hospital de Planaltina, a maior demanda de cuidados, nos últimos meses, tem sido com felinos. "Temos percebido um aumento considerável de abandono de gatos. A dificuldade em conseguir castrações também preocupa, porque eles se reproduzem mais e rapidamente", pontua Giselle. A cuidadora Drica Londe, 35, concorda. Sua história com os felinos comunitários, aliás, começou quase por acaso, motivada pelo barulho na vizinhança causado por uma colônia descontrolada em seu prédio.

"Eu nunca tinha olhado para gatos. Não gostava", confessa Drica. Ao ver animais presos em motores de carros e vizinhos sem técnica para o manejo, ela decidiu aprender a capturar e castrar por conta própria. O que começou com a castração de 11 gatos e doação de 25 filhotes se expandiu para uma colônia de 60 animais em um prédio público na Asa Norte, onde a situação era "pavorosa e insalubre".

Lá, conheceu Cotoco, um gato com o rabo dilacerado que levou meses para ser resgatado. "Foram tentativas frustradas até conseguirmos capturá-lo com uma armadilha construída por nós mesmas, por meio do método CED (capturar, esterilizar e devolver)", descreve.

Dez anos depois, a colônia é monitorada por Drica e mais quatro mulheres, que se revezam para cuidar dos animais diariamente. Dos 80 animais originais, restam 26 gatos idosos, saudáveis e castrados, incluindo Cotoco. Nesse período, mais de 100 filhotes foram encaminhados para adoção. "Nós conhecemos cada um, demos nomes e sabemos quais são seus hábitos", conta a cuidadora.

A experiência transformou a vida pessoal e profissional de Drica, que abandonou a carreira de modelista para se tornar catsitter. "Eu tinha zero contato com gatos e eles mudaram a minha vida; fiz amizade com pessoas incríveis e mudei de profissão", afirma. Mesmo morando longe, ela mantém o compromisso na escala de alimentação noturna para garantir o bem-estar dos felinos com dificuldade em aceitar contato humano.

Represálias

Em uma invasão em Ceilândia Norte, quem cuida de animais com vulnerabilidade é Amanda Martins, 36. Ela monitora cerca de 60 cães e nove gatos que chegaram ao espaço desnutridos e maltratados. A operadora de caixa, que luta para garantir alimentação a todos, ainda lida com a hostilidade local.

"Dizem que sou responsável pela perturbação, mas eu não tenho culpa, pois esses que reclamam são os mesmos que abandonam. Eu apenas alimento, castro e protejo", desabafa. Apesar das ameaças, a união com outros protetores e o apoio da Polícia Civil, que doou casinhas para os animais, sustentam o projeto.

O resgate da cadela Pretinha, que voltou a andar após ser apedrejada, é sua maior vitória. "Foi um choque vê-la aleijada, mas hoje ela consegue até correr", celebra. Amanda ressalta que cada animal tem uma personalidade única e merece respeito. "Eles são iguais aos seres humanos, só que melhores. Enquanto o abandono aumenta, a gente continua lá, protegendo e alimentando".

A operadora de caixa conta com as redes sociais para angariar recursos e divulgar as adoções. Por meio do Instagram @doguitosdomato, é possível ter mais informações de como ajudar. A chave do Pix para quem desejar fazer doações é 61986033199. 

Assim como Amanda, Marivone Araújo, 54, cuida de 20 gatos há uma década, em Taguatinga Norte. Lá, ela enfrenta vizinhos que chegam a jogar óleo nas vasilhas de comida dos animais. "As pessoas reclamam e dizem que chama mais bicho, mas não tenho como não colocar comida, eles estão morrendo de fome", relata.

Sua rotina começa às 5h da manhã para limpar dejetos e recolher comedouros antes da movimentação nas ruas. "Sempre falo para quem não gosta que eles não têm culpa, são inocentes. Faltam amor e humanidade", lamenta a cuidadora, que nunca conseguiu vagas de castração pelo governo devido à rapidez com que os agendamentos on-line se esgotam.

O amor pelos animais é uma herança de sua mãe, que também cuidava de bichos abandonados no interior da Bahia. Entre os protegidos, está Pipoca, que ela alimenta há oito anos. "Ele mia em minha janela quando dá o horário da sua janta. Conheço o seu jeitinho. Minha maior alegria é saber que estão bem. Eles me dão tanto amor que, enquanto eu estiver viva, vou alimentar", garante. Quem tiver interesse em ajudar Marivone, pode contribuir pela chave pix: marivonesaraujo@gmail.com. 

A reportagem optou por não especificar os locais onde as protetoras atuam, a fim de evitar novos abandonos nestes espaços. Denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo telefone 197, opção 0, pelo WhatsApp (61) 98626-1197 ou pelo e-mail denuncia197@pcdf.df.gov.br.

  • Amanda Martins é responsável pelo projeto Doguitos do Mato, em Sol Nascente
    Amanda Martins é responsável pelo projeto Doguitos do Mato, em Sol Nascente Ed Alves CB/DA Press
  • Casinhas doadas pela PCDF ao projeto Doguitos do Mato
    Casinhas doadas pela PCDF ao projeto Doguitos do Mato Ed Alves CB/DA Press
  • Gatos alimentados pelo projeto da cuidadora Drica Londe
    Gatos alimentados pelo projeto da cuidadora Drica Londe Arquivo pessoal
  • Caramelão, Lupi e Costelinha com tutores do HRP
    Caramelão, Lupi e Costelinha com tutores do HRP Letícia Mouhamad/CB/DA Press
  • Amanda Martins monitora cerca de 60 cães e nove gatos em uma invasão em Ceilândia Norte
    Amanda Martins monitora cerca de 60 cães e nove gatos em uma invasão em Ceilândia Norte Ed Alves CB/DA Press

Saiba mais sobre os cuidados

1. Apoio governamental e castração: a Secretaria de Proteção Animal (Sepan) oferece castração gratuita para grupos acima de 10 animais. Protetores cadastrados podem receber um benefício financeiro de R$ 600 mensais destinado exclusivamente à castração de animais, incluindo os comunitários. A vacina antirrábica pode ser solicitada junto à Diretoria de Vigilância Ambiental (Dival).

Contatos para solicitação de castração:

atendimento@sepan.df.gov.br e (61) 98199-2410 (WhatsApp)

2. O que diz a legislação: é autorizada a instalação de abrigos, comedouros e bebedouros em praças, escolas e órgãos públicos. Em locais de uso especial ou privados, a instalação depende de autorização prévia do responsável pelo espaço. O cuidador deve zelar pelas condições de higiene e convívio dos animais sob sua guarda.

3. Boas práticas de manejo: priorize o uso de ração seca e ofereça a quantidade exata para o consumo imediato; recolha as sobras para evitar que o alimento se deteriore ou atraia ratos, baratas e pombos; mantenha os potes limpos e troque a água diariamente para evitar contaminações e focos do mosquito da dengue; e escolha áreas limpas, seguras e afastadas de comércios ou
fluxos intensos de pessoas para evitar conflitos
e garantir a segurança do animal.

Para conhecer mais

  • Projeto Buchinho Cheio: com quase 30 anos de atuação, uma única protetora garante a alimentação de mais de 40 gatos em situação de rua no DF. Além de nutrição, o projeto tenta promover castrações e tratamentos médicos. Para ajudar, basta acessar o Instagram @projeto_buchinho_cheio. 
  • Recicla Pet: projeto constrói casinha para animais de rua a partir de materiais recicláveis. Aceitam doações dos materiais e recebem as pessoas para ajudar na construção das casinhas. Para saber mais, acesse o Instagram @recicla.pet. 

 

 

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postado em 28/02/2026 05:00
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