Eleições 2026

Com conscientização e engajamento, a Geração Z vai às urnas

O Correio entrevistou 10 adolescentes de 16 e 17 anos do Centro de Ensino Médio 03 de Taguatinga Sul e da Escola Maple Bear, na Asa Norte. Apesar das diferenças, eles têm o mesmo desejo: votar por um país melhor

O título de eleitor pode caber no bolso ou na tela do celular, mas carrega mundos diferentes dentro dele. No Distrito Federal, 31.307 adolescentes de 16 e 17 anos estavam aptos a votar nas últimas eleições — maior adesão jovem em mais de uma década.

Em uma roda de conversa promovida pelo Correio com 10 estudantes do Distrito Federal — do Centro de Ensino Médio 03 de Taguatinga Sul e da Escola Maple Bear, na Asa Norte —, eles defenderam a criação de políticas públicas voltadas, principalmente, à educação e à saúde, além de propostas que priorizem qualidade de vida e atenção às pessoas que vivem à margem da sociedade. Mesmo inseridos em realidades distintas, os adolescentes demonstram convergência quando o assunto é o futuro nas próximas eleições.

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Juarez Maracajá, de 16 anos, estudante da Maple Bear, destacou a segurança pública e a saúde como pontos de atenção nas políticas públicas, mas ampliou o foco para a educação, "A falta de acesso à educação não cria apenas uma desigualdade intelectual, cria a desigualdade que a gente vê no país. Quando um país investe na educação, ele não está apenas investindo em um ministério, ele está investindo na futura geração", destacou

O aluno do CEM 03 Pedro Ricarte Marques Guimarães, 17, afirmou que espera políticas tradicionais e conservadoras voltadas para a educação e a segurança. Para ele, esses são pontos fundamentais para uma sociedade próspera. "Educação e segurança movem o país. Acredito que esses sejam fatores importantes para um governante atender bem à sociedade que ele vai servir", disse. O jovem acredita que investir nesses pontos é promover dignidade para a população. "É importante que o governante entenda que ele está a serviço da população e que a dignidade é fundamental para o povo", acrescentou.

Redes e polarização

A polarização política também é um ponto de atenção entre os mais jovens, que já discutem os efeitos e as consequências desse cenário. Os estudantes relataram discussões envolvendo familiares por conta de discordâncias de pensamentos, e que isso, muitas vezes, os fez recuar sobre o que poderiam compartilhar ou pensar sobre a política.

Nanda Cortese, 16, da Maple Bear, reforçou que esses conflitos interferem diretamente na participação. "Nunca sei quando um colega pode deixar de ser meu amigo pela minha opinião política; se, ao me posicionar, vou ser colocada em alguma situação de perigo", refletiu. Para ela, esse clima faz com que muitos prefiram o silêncio. Ainda assim, Nanda defende o engajamento. "Falar sobre política é importante, e não falar sobre política é ignorância. É quando a gente joga nosso futuro nas mãos de outras pessoas, porque outras pessoas irão votar por nós."

Luiz Fellipe Alves/CB/DA Press - Walter Neto, João Guilherme, Pedro Guimarães, Lara Diniz e Alice Paiva (da esquerda para direita) cursam o ensino médio público em Taguatinga

Na opinião de Walter Melo Nascimento Neto, 17, estudante do CEM 03, a polarização política no Brasil é agravada pelo mau uso de ferramentas da internet, como as redes sociais e a inteligência artificial. "Os serviços de IA e as redes sociais se moldam de acordo com a opinião do usuário e fazem com que esse pensamento nunca seja contestado. Para uma democracia, isso é muito ruim. Democracia é debate de ideias", explicou.

O estudante acredita que é importante procurar sempre opiniões diferentes e debater para enriquecer a própria opinião. "Às vezes, é difícil fugir do algoritmo, mas é muito importante que você olhe e tente entender outras visões, mesmo que não concorde. Você ficará mais preparado até para debater e entender o que pode haver de errado na visão da outra pessoa", acrescentou.

Para os jovens, as redes sociais são parte central da formação política da geração. Eles reconhecem que o volume de informações cresceu rapidamente e que é preciso redobrar o cuidado. "Nem tudo o que a gente vê e ouve é verdade. As redes sociais têm esse poder de mudar o eleitorado. É por isso que o algoritmo faz com que a gente receba mais coisas do nosso interesse, fazendo com que a gente viva em uma bolha tecnológica", destacou Juarez  Maracajá.

A aluna do Centro de Ensino Médio 03 (CEM) Alice Pinheiro Paiva, 17, destacou que a inteligência artificial, assim como a internet de um modo geral, é uma ferramenta que pode ser utilizada de forma positiva para o debate político. "Acredito que a IA é uma ferramenta muito importante e prática para descobrir assuntos novos. Agiliza muito o aprendizado", disse.

Alice admite, no entanto, estar preocupada com as pessoas que se informam apenas por meio dessa ferramenta. "Apesar de ser útil, precisamos ter cuidado e não nos contentarmos com as informações passadas por meio de algoritmos. É importante procurar outras fontes de informações para averiguar a veracidade das afirmações que você conseguiu", comentou.

Protagonismo

Ulysses Guimarães, estudante de 16 anos da Maple Bear, ponderou que votar pela primeira vez representa assumir, de fato, o próprio protagonismo político. "É diferente pensar. Não é mais o seu pai ou a sua mãe decidindo, é você. A responsabilidade agora é sua", ressaltou. O estudante enxerga o voto como um instrumento real de transformação: "Você tem o poder de escolher quem vai mudar os rumos da nação pelos próximos quatro anos".

Lara Diniz Costa, 17, contou que foi influenciada pelo pai a tirar o título de eleitor. Além do dever com o país, ela relata que está feliz por poder ajudar a família. "Comecei a entender sobre política para poder ajudá-los; para eles entenderem que é preciso votar", afirmou. Para Lara, é muito importante que as pessoas tenham consciência política. E ela tenta levar isso para dentro de casa. "Sempre comento que é importante buscar candidatos que se interessem pelos nossos direitos, que garantam dignidade para nós", completou.

Volatilidade

O voto da Geração Z no Distrito Federal reflete características estruturais do sistema político brasileiro, muitas vezes mais guiado pelo candidato do que pelo conjunto de ideias e pelas propostas do partido, como explica o mestre em ciência política e sociólogo Ariel Calmon. Segundo ele, entre os jovens, essa lógica permanece. "Os jovens costumam apresentar menor fidelidade partidária e maior oscilação entre eleições porque estão em processo de formação política, experimentando referências. A volatilidade é coerente com o estágio de socialização política e com o desenho institucional brasileiro, mais do que com uma suposta imaturidade individual", detalha.

No DF, esse comportamento ganha contornos próprios. "Não há exclusividade para o DF, onde o voto é marcado por forte desigualdade socioespacial e tende a ser influenciado por temas locais de gestão urbana, como transporte, segurança e regularização fundiária", acrescenta. Calmon destacou que "em regiões administrativas com maior vulnerabilidade social, pautas como transporte público e primeiro emprego podem ter mais peso", enquanto "jovens de áreas de maior renda e urbanização consolidada tendem a reagir mais fortemente à qualidade de serviços e à estabilidade econômica".

A diversidade de experiências sociais ajuda a explicar por que não há um único perfil de jovem eleitor no país. Para o antropólogo Luiz Roberto Cardoso de Oliveira, classe social e território moldam profundamente a relação dos adolescentes com a política. "Um jovem de classe média de Brasília tem motivações muito diferentes das de um jovem da periferia ou do interior do país. As formas de participação variam conforme as condições de vida", afirma.

Valdo Virgo - PRI-0203-JOVENS_ELEICAO

Segundo o pesquisador, essa fragmentação contrasta com períodos históricos em que havia discursos mais unificados, como durante o regime militar, quando a defesa da democracia organizava a mobilização social. Hoje, observa, pautas ligadas a identidade, reconhecimento e experiências cotidianas ganharam espaço ao lado das disputas partidárias tradicionais.

Sobre o comparecimento às urnas, Calmon observa que, como o voto é facultativo, quem tira o título tende a ter algum nível prévio de interesse político. "Influência familiar, polarização política e mobilização digital são fatores que motivam a presença, e o baixo senso de eficácia política, a descrença institucional e os custos logísticos (transporte, mudança de domicílio) podem explicar a ausência", enumera.

Apesar das oscilações, o pesquisador ressalta que a experiência precoce nas urnas pode ter efeitos duradouros. "Votar cedo aumenta a probabilidade de participação futura. O voto aos 16 anos é simultaneamente simbólico e potencialmente substantivo", assinala. Ele explica, ainda, que o aumento expressivo na emissão de títulos entre adolescentes nas eleições recentes foi impulsionado por campanhas digitais e debates nacionais polarizados. "Isso mostra uma participação motivada por contexto político real, não apenas como gesto simbólico", ressalta.

Ainda assim, ele pondera que, atualmente, "jovens de 16 e 17 anos apresentam conhecimento político menor do que adultos, mas comparável ao de jovens de 18 a 24" e que "a exposição digital aumenta o acesso à informação, mas também à desinformação". Sobre as redes, Calmon destaca que pesquisas mostram crescimento da centralidade dessas plataformas, mas que a família continua sendo o principal vetor de formação inicial de valores políticos.

"Isso não significa que campanhas tradicionais perderam relevância, mas que precisam dialogar na linguagem e nos formatos digitais", afirma. Por fim, o especialista conclui que quem participa na primeira oportunidade tem maior probabilidade de continuar participando. "Mas esse efeito não é automático. Ele depende da qualidade da experiência democrática."

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