
A força econômica de Ceilândia abriu o CB.Debate — Ceilândia em movimento, promovido, nesta terça-feira (31/3), pelo Correio Braziliense. Com foco no comércio, na indústria e na inovação, o primeiro painel reuniu representantes do setor produtivo para discutir o potencial da maior região administrativa do Distrito Federal e os caminhos para transformar crescimento em desenvolvimento com inclusão e infraestrutura.
O debate, com mediação dos jornalistas Mila Ferreira e José Carlos Vieira, começou com o presidente da Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, que trouxe dados que reforçam o peso econômico da região no contexto do DF. "Ceilândia é a maior cidade do Distrito Federal e concentra cerca de 10% da população. De um total de aproximadamente de 2,9 milhões de habitantes no DF, são cerca de 287 mil moradores em Ceilândia", afirmou. Segundo ele, a cidade também possui uma expressiva população economicamente ativa. "Desses 287 mil, cerca de 151 mil fazem parte da população ativa, e aproximadamente 75 mil estão empregados na própria Ceilândia", explicou.
Ao abordar o tema central do painel — força econômica de Ceilândia —, o presidente enfatizou o potencial produtivo da cidade em diferentes setores. "A Ceilândia cresceu muito na gastronomia, nos bares, restaurantes e na área da beleza, que é muito forte. Hoje, cerca de 57% dos microempreendedores individuais estão nesses segmentos", explicou.
Freire destacou, ainda, as transformações na imagem da cidade ao longo dos anos, especialmente no que diz respeito à segurança e à ocupação dos espaços públicos. "Antigamente, falava-se que a Ceilândia era violenta, que não era um bom lugar para viver. Mas isso mudou", avaliou. Como exemplo, citou eventos culturais promovidos na região. "Tivemos um show com mais de 10 mil pessoas e, como foi dito lá, 'não caiu uma folha', no sentido de que não houve nenhum registro de violência. Isso mostra uma cidade que se desenvolveu", afirmou.
O presidente ressaltou o papel do Sistema Fecomércio na promoção do desenvolvimento social e econômico na região, com investimentos em infraestrutura, cultura e qualificação profissional. "A maior unidade do Sesc no DF está lá, com 57 mil metros quadrados", destacou. Segundo ele, há planos de ampliação do Senac na cidade. "Vamos triplicar o tamanho da unidade, passando de cerca de 1.500 para
5 mil metros quadrados, para oferecer uma estrutura à altura do que Ceilândia merece", disse.
Para Freire, investir na cidade é reconhecer sua importância estratégica. "A Ceilândia é jovem, tem muito a crescer e muito a oferecer ao Distrito Federal. Nosso papel é contribuir para que esse desenvolvimento aconteça de forma estruturada e inclusiva", ressaltou.
Trajetória
Mais do que projetar o futuro, o debate também teve um olhar para o passado. O deputado distrital Chico Vigilante resgatou sua trajetória pessoal para ilustrar as transformações vividas pela cidade ao longo das últimas décadas. "Eu moro na Ceilândia desde 1977. Quando cheguei do interior do Maranhão, encontrei uma 'floresta' de antenas de televisão, barracos de madeira, cada um tentando captar algum sinal. Era uma realidade completamente diferente da imagem que eu tinha", relembrou.
O parlamentar destacou como a cidade foi historicamente marcada por desigualdades e estigmas, sobretudo no início de sua formação. "Havia muito preconceito com a Ceilândia. Muitas pessoas escondiam que moravam lá quando vinham procurar emprego no Plano Piloto, porque sabiam que isso poderia dificultar a contratação", disse.
Para ele, essa visão foi construída de forma injusta ao longo dos anos. "Era um preconceito que não correspondia à realidade de um povo trabalhador, que veio de várias partes do Brasil para construir sua vida aqui", ressaltou.
Chico Vigilante destacou que sua atuação política sempre esteve ligada à valorização da cidade e ao enfrentamento desse estigma. "Quando fui candidato, tomei a decisão de que, se fosse eleito, continuaria morando na Ceilândia, e assim fiz", afirmou. De acordo com ele, a escolha foi simbólica. "Eu tinha direito a morar em apartamento, no Plano Piloto, mas rejeitei porque queria mostrar que era possível ser deputado e viver na Ceilândia, ajudando a quebrar esse preconceito", explicou. Para o parlamentar, esse posicionamento contribuiu para fortalecer o orgulho e a identidade local. "Eu nunca arredei o pé da Ceilândia, e isso é motivo de orgulho para mim", completou.
O parlamentar reforçou a importância de reconhecer o protagonismo econômico e social da cidade, além de valorizar sua identidade. "Muitas empresas importantes nasceram na Ceilândia e hoje têm alcance nacional. Isso mostra a força empreendedora da cidade", destacou. Ao elogiar iniciativas como o próprio evento, ele ressaltou a necessidade de ampliar o olhar sobre a região. "É fundamental olhar para a Ceilândia com respeito e carinho, entendendo sua importância para o Distrito Federal", afirmou.
Em tom pessoal, reforçou: "Em qualquer lugar do mundo que eu vou, eu não digo que sou de Brasília. Eu digo que sou da Ceilândia, Distrito Federal. É uma forma de demonstrar o respeito e o amor que eu tenho pela minha cidade".
Relevância
Na sequência, o presidente da Associação Comercial de Ceilândia (Acic), Eduardo Lima, reforçou a luta institucional para mudar a percepção da cidade, historicamente marcada pelo estigma da violência.
Em sua fala, ele relembrou seu início na cidade, quando nem tinha asfalto nas ruas. "Quando eu cheguei aqui com minha mãe, em um táxi, o motorista avisou que não ia seguir o caminho porque não tinha asfalto", contou.
Ele destacou que Ceilândia cresceu, gerando oportunidades de renda e emprego, mas enfrenta o desafio de reter as empresas que nascem na cidade. "A empresa que nasce em Ceilândia cria filiais e sai dali para crescer para outros lados", afirmou. Para o empresário, é crucial atrair grandes empresas que possam contribuir com o mercado local, fortalecendo a "incubação de empresas" na região.
Para o presidente da associação, o comércio sofre com a falta de mão de obra qualificada. "Em 2008, abri uma empresa para oferecer cursos de capacitação. Essa é uma demanda que ainda continua faltando", disse. Um dos focos da Associação, em parceria com a Administração Regional, é a revitalização do centro da cidade, considerado o "cartão-postal". Lima ressaltou que a boa zeladoria, segurança pública e o lixo no lugar certo são essenciais para o respeito que a cidade merece.
Segundo o gestor, Ceilândia precisa de movimentação dentro da própria cidade. "Temos que fazer um esforço para mobilizar as pessoas a consumirem dentro da própria cidade. Hoje, Ceilândia não depende de mais nada das outras cidades", disse. Além disso, Lima também comentou sobre a evolução em relação aos eventos que a cidade teve. "Você pode andar em qualquer dia da semana e vai encontrar eventos em toda cidade, de shows de rap a bandas de forró. Isso representa uma evolução muito grande", ressaltou.

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