Termina na sexta-feira o prazo estabelecido pelo Banco de Brasília (BRB) para a divulgação dos balanços pendentes de 2025 e do primeiro trimestre de 2026, além da conclusão do plano de capitalização de R$ 8,8 bilhões apresentado em fevereiro ao Banco Central. Embora a data não tenha sido imposta pelo órgão regulador, foi definida pelo presidente da instituição, Nelson de Souza.
Em entrevista ao Correio, a governadora Celina Leão afirmou que o problema de liquidez da instituição já foi solucionado. "Nós estamos agora resolvendo o problema contábil, de capital", disse.
Na tentativa de sanar a capitalização, o banco e o Governo do Distrito Federal (GDF) enfrentam resistência do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para viabilizar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões. Até o momento, a operação não obteve o aval do Tesouro Nacional, necessário para a liberação dos recursos.
Paralelamente às negociações com o FGC, o BRB tenta avançar no processo de reforço de capital aprovado em assembleia-geral extraordinária. A operação prevê a ampliação do limite de ações emitidas, permitindo a captação de até R$ 8,8 bilhões com a emissão de 2,5 bilhões de novas ações, ao preço de R$ 5,36 cada. O modelo adotado prioriza os atuais acionistas, mas também abre espaço para a entrada de novos investidores, o que poderia diluir a participação do controlador e ampliar a base privada da instituição.
Na última quinta-feira, parlamentares da oposição se reuniram com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para discutir o futuro do BRB. À imprensa, os deputados classificaram as medidas apresentadas pelo GDF para socorrer o banco como "insuficientes" e "protelatórias".
Sobre as críticas, Celina Leão afirmou que a liberação depende do governo federal. "Depende do presidente Lula liberar o aval. Se eles (os parlamentares) estivessem preocupados de verdade com o DF, eles pediriam urgência para o presidente Lula, porque o aval seria obrigatório se o DF não estivesse nesse desequilíbrio financeiro. É uma operação simples, nós temos garantias para dar", afirmou. Apesar das dificuldades, a governadora demonstrou confiança na negociação. "Estamos trabalhando no empréstimo (junto ao FGC), a gente tem expectativa de consegui-lo, mas sempre trabalhamos com várias perspectivas, não é a única opção", destacou.
Rebaixamento
Caso os documentos não sejam apresentados dentro do prazo e haja novo atraso, o banco pode sofrer novos rebaixamentos pelas agências de classificação de risco, além de comprometer a confiança do mercado na instituição.
Por lei, o BRB deveria ter publicado os balanços atrasados em 31 de março. No entanto, o banco se pronunciou afirmando que a divulgação seria postergada alegando impactos dos desdobramentos da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga as fraudes no Banco Master. Desde o início da crise e com os atrasos, o BRB já passou por três rebaixamentos por agências de classificação de risco.
Em 19 de março, a S&P Global Ratings rebaixou o rating de crédito da instituição de "brBB" para "brB-", na escala nacional. Duas semanas depois, em 1º de abril, a Moody's rebaixou a classificação de crédito do banco para CCC .br e colocou a instituição em nível de risco. No final do mês de abril, a Fitch Ratings rebaixou as notas de crédito para o nível "CC", e retirou todas as classificações da instituição.
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A doutora em economia e presidente do Conselho Regional de Economia do DF (Corecon-DF), Luciana Acioly, explicou que as agências de classificação de risco são responsáveis por medir a capacidade de pagamento de instituições financeiras, empresas e países. "As notas seguem as escalas do mais seguro para o menos seguro nas classes: grau de investimento (risco mínimo) e grau especulativo (risco elevado, calote)", afirmou. Segundo ela, o BRB se encontra em uma faixa considerada de alto risco. "O banco está bem distante do grau de investimento e se encontra em uma zona onde as agências enxergam fragilidade relevante: B- risco alto; CCC risco muito alto; CC risco muito elevado (próximo de estresse grave). Quando um banco é rebaixado, isso significa que as agências de risco passam a ver maior risco de ele não pagar suas dívidas", completou.
Luciana acrescentou que, apesar do cenário poder afastar investidores e pressionar ainda mais o caixa da instituição, o banco ainda é praticável. "É viável em que pesem as avaliações das agências, pois é um banco público com capacidade de recomposição de suas finanças no médio prazo, não corre o risco de crise sistêmica, mas precisa contar com a ajuda de outros bancos e novos acionistas para além do DF (outros estados e bancos fora do Brasil)", afirmou.
A especialista alertou que a falta de transparência pode agravar a percepção de risco no mercado. "Sem os balanços que tragam informações atualizadas, fica difícil avaliar o risco de crédito. Quando há muito atraso, pode-se julgar que há uma questão de transparência. Além disso, a demora aumenta o custo financeiro e reputacional do banco, o que aumenta a incerteza. E, por último, pode se questionar a capacidade de governança do banco para resolver ou encaminhar problemas de controles internos (frágeis)", destacou.
