PLANETA TERRA

'Como algo surgiu do nada?': Estudo aponta meteoritos como origem da vida

Pesquisadora Shea Cinquemani lidera revisão científica que amplia as teorias sobre os ambientes hidrotermais e os berços da vida no nosso planeta

Uma nova pesquisa liderada pela cientista Shea Cinquemani, da Rutgers University, de Nova Jersey, nos Estados Unidos, sugere que impactos de meteoritos podem ter desempenhado um papel central na origem da vida na Terra. O estudo propõe que esses eventos, normalmente associados à destruição, também criaram ambientes químicos favoráveis ao surgimento das primeiras células.

Publicado no periódico científico Journal of Marine Science and Engineering, o trabalho amplia as teorias tradicionais sobre a origem da vida, que costumam focar em fontes hidrotermais no fundo dos oceanos. A nova abordagem inclui também sistemas hidrotermais gerados por impactos cósmicos.

Fontes hidrotermais são locais onde água aquecida e rica em minerais circula por rochas e emerge no ambiente ao redor. No fundo do mar, esses sistemas sustentam ecossistemas inteiros sem a presença de luz solar. Nesses ambientes, microrganismos utilizam energia química, e não a luz, para sobreviver. Esse processo é chamado de quimiossíntese, no qual compostos como sulfeto de hidrogênio servem como fonte de energia.

 

Tradicionalmente, esses ambientes submarinos são considerados um dos principais candidatos ao local onde a vida surgiu. No entanto, o novo estudo aponta que crateras formadas por impactos de meteoritos também podem ter gerado sistemas semelhantes. Segundo a pesquisa, quando um meteorito atinge a Terra, o impacto gera calor intenso, capaz de derreter rochas. Com o resfriamento e a presença de água, formam-se sistemas hidrotermais ricos em minerais.

Esses ambientes podem durar milhares ou até milhões de anos. Em alguns casos, como na cratera de Chicxulub, no México, estima-se que a atividade hidrotermal tenha persistido por até 2 milhões de anos.

Esse tempo prolongado seria suficiente para que moléculas simples evoluíssem para estruturas mais complexas, passo essencial para o surgimento da vida.

Além disso, os impactos eram frequentes na Terra primitiva, o que indica que esses ambientes podem ter sido comuns. Isso aumenta a probabilidade de terem contribuído para o início da biologia. A pesquisa também destaca vantagens desses sistemas em relação ao fundo do mar. Em ambientes menos profundos, ciclos de umidade e secagem podem facilitar a formação de moléculas complexas, algo mais difícil em águas profundas.

Como os cientistas fizeram as observações

Cinquemani realizou uma revisão científica integrando estudos sobre fontes hidrotermais marinhas e sistemas formados por impactos. O trabalho analisou dados de três crateras bem estudadas em diferentes períodos da história da Terra.

Entre elas estão Chicxulub, formada há cerca de 65 milhões de anos, Haughton, no Canadá, com cerca de 31 milhões de anos, e o lago Lonar, na Índia, criado há aproximadamente 50 mil anos.

O estudo também comparou esses ambientes com fontes hidrotermais profundas descobertas na década de 1970, que revolucionaram a compreensão sobre a vida em condições extremas.

O artigo foi coassinado pelo oceanógrafo Richard Lutz, que destacou o rigor do processo de revisão científica. Segundo ele, o trabalho passou por cinco rodadas de avaliação e acumulou 15 páginas de comentários.

A principal implicação da pesquisa é ampliar o leque de ambientes considerados possíveis berços da vida. Em vez de um único cenário, como o fundo do mar, a origem da vida pode ter ocorrido em diferentes tipos de ambientes hidrotermais. “Como algo pode surgir do nada?”, questiona Cinquemani ao abordar o desafio de entender a origem da vida.

O estudo também tem impacto direto na astrobiologia, área que investiga a possibilidade de vida fora da Terra. Ambientes semelhantes podem existir em locais como Europa, lua de Júpiter, e Encélado, lua de Saturno. Além disso, crateras antigas em Marte apresentam sinais de atividade hidrotermal, o que reforça a relevância desses ambientes na busca por vida extraterrestre.

Ao reunir evidências de diferentes áreas, a pesquisa sugere que eventos considerados catastróficos podem ter sido fundamentais para o surgimento da vida.

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