
Com a chegada das temperaturas mais baixas em Brasília, muita gente sente o mesmo efeito: mais fome, menos disposição para treinar e uma vontade enorme de ficar em casa debaixo das cobertas. Em uma cidade marcada pela baixa umidade do ar, o inverno costuma mudar completamente a rotina — e isso também impacta diretamente a alimentação e o emagrecimento.
Mas afinal, o frio realmente dificulta perder peso? Segundo especialistas, a resposta é mais complexa do que parece. Embora o organismo gaste um pouco mais de energia para manter a temperatura corporal estável, o principal desafio do inverno não está no metabolismo, mas no comportamento.
A nutricionista Carla de Castro, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento e neuropsiquiatria da Clínica Sallva, explica que o frio favorece hábitos que acabam prejudicando o emagrecimento. “Não é o frio que emagrece; é o estilo de vida”, afirma.
Ela explica que dias frios costumam estimular uma rotina mais sedentária, menos exposição ao sol e maior consumo de alimentos associados ao conforto emocional. “O frio estimula a busca por alimentos mais quentes, densos e reconfortantes, como massas, chocolates, fondue, sopas cremosas e bebidas calóricas”, destaca.
Apesar disso, Carla reforça que não é necessário abrir mão desse tipo de comida para manter uma rotina saudável. “Sopas com legumes, proteínas de qualidade, caldos caseiros e preparações ricas em fibras podem proporcionar conforto e saciedade sem comprometer os objetivos de saúde.”
A nutricionista Bela Clerot também reforça que o inverno não impede o emagrecimento — mas exige mais atenção à rotina. “O frio não impede ninguém de emagrecer. Pelo contrário, ele exige mais energia do corpo para manter a temperatura interna estável”, explica.
Segundo ela, o problema aparece quando o frio vira desculpa para abandonar hábitos importantes. “A programação dos dias frios acaba girando mais em torno da mesa do que de costume.”
Mais fome no frio tem explicação científica
A sensação de fome aumentada durante o inverno não é impressão. De acordo com as especialistas, existe uma resposta fisiológica do corpo diante das temperaturas mais baixas. Bela explica que o organismo aumenta sinais relacionados ao apetite para ajudar na manutenção da temperatura corporal. “A grelina, que é o hormônio da fome, tende a aumentar. E o que o cérebro pede? Alimentos densos em energia, ricos em carboidrato e gordura”, afirma.
Ela destaca que o desejo por comidas quentes e calóricas também envolve fatores emocionais e afetivos. “Isso tem relação com conforto, prazer, memória afetiva e também com a tentativa do corpo de manter estabilidade térmica.”
Outro fator importante em Brasília é o clima seco. Segundo Carla de Castro, a baixa ingestão de água pode fazer o corpo enviar sinais confundidos com fome. “Muitas vezes, a desidratação leve pode ser confundida com fome”, alerta.
Sintomas como boca seca, fadiga, dor de cabeça e dificuldade de concentração podem indicar falta de hidratação — e não necessidade de comida. Bela Clerot reforça que a sensação de sede costuma diminuir no frio, o que torna o problema ainda mais comum. “Muitas vezes, beber água e esperar alguns minutos já ajuda a perceber se era sede, cansaço ou fome real.”
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O frio realmente faz o corpo gastar mais calorias?
Sim, mas esse efeito costuma ser pequeno. As nutricionistas explicam que o organismo realmente aumenta o gasto energético para manter a temperatura corporal, processo chamado de termorregulação. Porém, isso não significa que o inverno, sozinho, provoque emagrecimento.
“Esse gasto extra geralmente não é grande o suficiente para compensar sedentarismo, excesso de comida calórica e bebidas adoçadas”, explica Bela. Carla também desmistifica a ideia de que o frio “seca” naturalmente. “Existe um aumento do gasto energético relacionado à termorregulação, mas, na prática, esse efeito costuma ser insuficiente para gerar perda de peso significativa.”
Os erros mais comuns
Entre os comportamentos que mais atrapalham a perda de peso nessa época do ano, as especialistas destacam:
- abandonar a atividade física;
- exagerar em bebidas quentes adoçadas;
- trocar refeições por lanches;
- fazer dietas muito restritivas;
- compensar exageros com jejum;
- aumentar o consumo de alimentos ultracalóricos.
Segundo Carla, dietas radicais podem piorar a relação com a comida. “Essas estratégias costumam aumentar a fome, favorecer episódios de compulsão alimentar e dificultar a adesão ao plano alimentar.”
Bela faz um alerta para as promessas milagrosas que costumam ganhar força no inverno. “Chá seca barriga, cápsula que acelera metabolismo, dieta da sopa… muitas vezes isso só piora a relação com a comida e aumenta o efeito sanfona.”
Hábitos
Apesar dos desafios, as especialistas afirmam que o inverno também pode favorecer mudanças positivas na rotina. Com mais refeições feitas em casa e menos eventos ao ar livre, o período pode ajudar na construção de hábitos mais organizados e conscientes. “O foco não deve estar em soluções rápidas ou promessas milagrosas, mas na construção de comportamentos sustentáveis”, afirma Carla.
Bela resume a principal mensagem para quem quer emagrecer sem cair em fórmulas mágicas: “Quem quer perder peso de verdade precisa parar de procurar um truque e começar a organizar o básico: comida de verdade, hidratação, sono, movimento e constância.”

Ciência e Saúde
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