Sem perceber, o cineasta pernambucano Juca Capelo registrou, na adolescência, o nascimento do manguebeat no Recife dos anos 1990. Na época, convivia com nomes que vieram a ser fundamentais para o movimento: Lúcio Maia, guitarrista da Nação Zumbi, estudava com o irmão de Capelo; Siba, vocalista do Mestre Ambrósio, morava na mesma rua que o diretor e, em outra próxima, Dengue, baixista da Nação Zumbi; nas idas à praia, era comum encontrar Chico Science.
Cerca de 25 anos depois, começou a digitalizar o material. “Ao rever aquelas imagens, entendi que existia ali um filme — com registros inéditos de um momento histórico”, diz. Desse processo surgiu o documentário Manguebit, que será exibido no Cine Brasília nesta sexta-feira (10/4), às 19h. A sessão é seguida de debate com a presença de Capelo, Hilton Lacerda e Fábio Trummer. A entrada é gratuita e não é necessário retirar o ingresso previamente.
Capelo, que já estava inserido no ambiente do manguebeat e era fã da música, andava com uma câmera VHS/C, filmando o que via. “Registrei momentos como o batismo de Siba no maracatu de Mestre Salustiano, shows da Eddie em Olinda, e encontros no bar Pouco Louco, onde parecia que todo mundo tinha uma banda para curtir o som da radiola de ficha em Olinda e depois na Soparia no bairro do Pina em Recife”, conta.
Manguebit parte do sentimento de insatisfação com a cena cultural de Recife na década de 1990. “O que predominava eram barzinhos de voz e violão, e havia um sentimento geral de que era preciso criar algo novo, sair daquele marasmo. Lembro muito de uma frase de Chico Science que sintetiza bem esse espírito: ‘ou você muda a cidade ou muda de cidade’”, diz Capelo. O encontro entre artistas, jovens universitários e pessoas do meio cultural de Olinda gerou o que o diretor chama de “explosão criativa”.
As dificuldades que enfrentavam se misturavam à vontade de tornar Recife como um centro cultural potente quanto às grandes cidades dentro e fora do Brasil. “O documentário traz essa construção não só pelos fatos históricos, mas principalmente pelas memórias e sentimentos de quem viveu aquilo — mostrando que o manguebeat nasceu desse encontro entre crise e criatividade, entre o local e o global”, resume.
Capelo destaca que o manguebeat não era apenas um movimento musical: cineastas, artistas plásticos, jornalistas, produtores e DJs foram essenciais para a construção da cena e divulgação dela para o resto do país. Para a produção do documentário, após a pesquisa no acervo pessoal do diretor, partiram para a coleta de outros arquivos e entrevistas. No total, 56 pessoas foram ouvidas, desde personagens conhecidos do manguebeat a nomes que não tiveram grande projeção nacional, profissionais de gravadoras e da televisão.
Serviço
Exibição de Manguebit
Nesta sexta-feira (10/4), às 19h, no Cine Brasília (106/107 Sul), seguida de debate com Juca Capelo, Hilton Lacerda e Fábio Trummer. Entrada gratuita, sem necessidade de retirada antecipada de ingressos.
*Estagiária sob supervisão de Nahima Maciel
