Música

Em novo disco, Carlinhos Brown cria conceito com referências brasileiras

"Afrossinfonicidade", projeto ao vivo com a Orquestra de Ouro Preto, aproxima popular e erudito com arranjos de clássicos da carreira musical do compositor baiano

O resultado do encontro entre Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto vai além de um álbum. Apresenta-se um neologismo. Afrossinfonicidade, diz Brown, é o desejo de que as "etnias brasileiras se reforcem". Em entrevista ao Correio, o compositor baiano, ao lado do maestro Rodrigo Toffolo, aprofundou aspectos do projeto gravado ao vivo na Concha Acústica, em Salvador, com 34 instrumentistas no palco. Os dois volumes do disco estão disponíveis nas plataformas digitais. 

A matriz da nova junção, como Brown define, é a inquietude. Para exemplificar, ele volta na gravação do primeiro disco solo, Alfagamabetizado, 30 anos atrás. Durante o processo, quando estava em um estúdio na França, Brown se viu sem o caderno no qual havia escrito a letra de Frases ventias. A solução para o esquecimento de um dos versos foi cantarolar. "Eu disse: não vou botar nenhuma letra, porque um dia eu vou cantar como está no caderno." Ao produzir o arranjo com a orquestra mineira, Brown enfim acrescentou "Lavoura em dissabor/desplante-me desta dor", a parte que faltava.

A inquietação, segundo Brown, também se deve à mudança dos ciclos. "Ainda há coisas para se dizer e não apenas através de letras que faltaram, mas de caminhos, percalços, levezas, espinhos que a vida pode oferecer. Há um momento de suavidade em que essas coisas entoam com respeito, com serenidade." A força do coletivo, acrescenta, contribuiu para atingir ponto de equilíbrio. 

Responsável por conduzir 34 músicos, entre eles percussionistas, o maestro Rodrigo Toffolo acredita que o projeto serve para revitalizar a noção de orquestra. Se, em determinado momento do século 20, a música erudita parou de olhar adiante e se concentrou na preservação do passado, o momento é de subverter a lógica, argumenta Toffolo. "A orquestra é algo orgânico, novo, moderno, que pode estar ao lado de uma figura tão emblemática e tão criativa como o Brown, para que possamos exatamente mostrar esse cancioneiro brasileiro." Os arranjos foram pensados por Paulo Malheiros.

Para Brown, a mistura entre percussão e instrumentos da orquestra é como uma pizza na qual se acrescenta dendê. "O gourmet sabe o tom do tempero." Sem amarras, sem preconceitos, acrescenta Toffolo, é possível se aproximar da mesa e saborear. "Isso não daria certo se fossem percussionistas eruditos", diz o maestro. 

Além de Frases ventias e Argila, que marcam a comemoração pelos 30 anos de Alfagamabetizado, o primeiro volume de Afrossinfonicidade reúne outras sete faixas. Segue o seco e Ocaso, esta escolhida por Rodrigo Toffolo, são destaques. Segundo o maestro, o disco chama atenção pela diversidade. "Você vai ouvir faixa por faixa, cada uma tem jeito, cada uma passeia por uma pegada da música brasileira. É o que faz a fruição musical ser mais gostosa." Segundo Brown, as canções amadurecem para os autores e para o público, e novas roupagens permitem refinamento de ideias.

"Quando a gente fala de sofisticação, não estamos falando em elitismo. Estamos falando que a sofisticação livra a gente do preconceito, porque esse estágio passa por um aprendizado enorme. Você tem de estar limpando, passando o esmeril, passando a polia para chegar naquilo. E é aí que você aprende como esculpir. O Afrossinfonicidade é um escultórico da música popular brasileira."

A fase da carreira marcada pela parceria com Marisa Monte e Arnaldo Antunes, nos Tribalistas, está contida no segundo volume do disco, com as canções Vilarejo, Velha Infância, Amor I Love You e Já Sei Namorar. Seo Zé e E.C.T., gravadas por Marisa Monte em Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e CarvãoVc, o Amor e Eu e Quixabeira completam a última parte.

O projeto, afirma Brown, aponta para a África, mas consolida a identidade brasileira."O Brasil miscigenou, a miscigenação não corrige a escravidão, mas suas riquezas unidas nos libertam e continuam nos libertando, porque se a gente vai com o olhar de aprender tudo o que as etnias acumulam no Brasil de sapiência, nós estaremos, aí sim, propondo novos pensamentos, novos conceitos."

O primeiro encontro de Brown com a Orquestra Ouro Preto ocorreu em um concerto aberto na Avenida Paulista, em São Paulo. Desde então, estiveram juntos em Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Ouro Preto. O grupo de instrumentistas, sob regência do maestro Toffolo, também realizou parcerias com outros artistas da música popular brasileira, como João Bosco e Alceu Valença. 

*Estagiário sob supervisão
de Nahima Maciel

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