Música

Grupo As fulô do cerrado lança o primeiro álbum com faixas autorais

As Fulô do Cerrado completam uma década de existência com o lançamento do primeiro disco e uma trajetória dedicada à celebração popular

As Fulô do Cerrado completam dez anos com o lançamento do álbum "De Rio a Rua" -  (crédito: Vanessa Acioly)
As Fulô do Cerrado completam dez anos com o lançamento do álbum "De Rio a Rua" - (crédito: Vanessa Acioly)

Antes de ocupar palcos no Distrito Federal, atravessar o Atlântico para uma turnê internacional e construir um álbum autoral com 10 faixas, As Fulô do Cerrado começaram com um encontro casual — ou, para as integrantes, quase inevitável — no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB). Em 2016, o som de zabumbas, pífanos e triângulos conduzido por Mestre Zé do Pife no chamado Ponto da Alegria chamou a atenção de um grupo de mulheres que, aos poucos, passou a trocar as aulas e compromissos pela vivência com a cultura popular. Agora, uma década depois, elas desembarcam nas plataformas digitais com o primeiro disco.

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O álbum De rio a rua é resultado de um processo que levou anos para ser concluído. Contemplado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), o projeto começou a ser estruturado antes que todas as músicas estivessem prontas. A construção do disco contou com a direção musical de Daniel Pitanga, que também participou da composição do primeiro single Forró Miudinho, disponível nas plataformas digitais. "Foi um processo muito longo, mas muito cuidadoso. A gente tratou esse álbum como algo muito precioso, que merecia detalhes e pesquisa", afirma Laura.

Para além do fato de todas as integrantes do grupo carregarem signos de água, o título do álbum surgiu a partir da percepção de que as músicas formavam uma narrativa comum. De um lado, aparecem as águas, o Cerrado e as emoções. De outro, a rua, a festa, a brincadeira e o encontro. De rio a rua representa esse movimento. É o caminho entre as águas internas, as emoções e o território do Cerrado até a celebração coletiva da cultura popular.

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O disco não se limita ao forró, gênero que consolidou o grupo na cena musical do Distrito Federal. A obra incorpora diferentes ritmos e manifestações populares brasileiras, incluindo referências ao coco e ao bumba meu boi. A faixa Encantaria conta com a participação de Larissa Umaytá, percussionista e integrante da tradição do boi de Seu Teodoro, mestre maranhense responsável por trazer a manifestação para Brasília. "É uma das nossas maiores referências. Ela é uma mulher muito forte, uma percussionista incrível e ocupa muitos palcos. Para nós, é muito especial tê-la no álbum", afirma Fernanda.

Também participam do projeto nomes como Martinha do Coco, considerada pelas integrantes uma espécie de madrinha das Fulô do Cerrado, Mestre Zé do Pife, Maísa Arantes, Isa do Cavaco e Paula de Paula. A escolha dos convidados seguiu um critério afetivo. As Fulô queriam homenagear pessoas que fizeram parte da trajetória da banda e contribuíram para que o grupo chegasse ao momento atual.

"São pessoas que estiveram muito presentes no processo do grupo. O Mestre Zé do Pife foi o causador de tudo. A Martinha abriu portas. A Maísa é uma grande referência de rabeca. A Larissa é uma grande referência na percussão. A Isa é uma parceira. São pessoas que caminharam com a gente", explica Laura.

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Entre as faixas, as integrantes também destacam Jacarandá, primeira composição de Jéssica, e Pé de Você, inspirada em memórias da infância de Mare. Essa última nasceu de um sonho e foi apresentada às integrantes, que se emocionaram ao ouvi-la pela primeira vez. "Era uma coisa muito íntima. Quando trouxe para o grupo, a gente construiu um arranjo que me arrepia. Eu adoro a emoção que essa música me traz", afirma.

Encontros e afinidades

É uma emoção que também marcou a união das meninas uma década atrás. "Cada uma chegou de uma forma diferente. (Zé do Pife) ficava num local de passagem, então a gente passava para ir aos nossos cursos, escutava e, em algum momento, parava", conta a rabeca e cavaquinista Jéssica Carvalho. A experiência deu origem à vontade de criar um grupo feminino que pudesse levar adiante aquilo que aprendiam.

O nome veio quase por acaso. A ideia de "As Fulô do Cerrado" surgiu inicialmente como uma sugestão provisória de Samara Tokunaga. O termo "Fulô" fazia referência à sonoridade da palavra, à cultura nordestina e à oralidade, enquanto "Cerrado" traduzia a relação das integrantes com o território onde viviam. O que deveria ser temporário, no entanto, acabou permanecendo.

A história da banda, porém, não se resume a uma formação fixa. Ao longo dos anos, As Fulô do Cerrado passaram por diferentes configurações até chegar ao grupo atual, formado por Laura Xavier, Jéssica Carvalho, Samara Tokunaga, Fernanda Pagani e Mare Sobrinho. As duas últimas entraram há cerca de três anos. "Foi um match. A gente precisava de pessoas dispostas a entrar nessa loucura que é fazer parte das Fulô do Cerrado. Deu muito certo", afirma Laura, zabumbeira e cantora do grupo.

A nova formação também coincidiu com uma fase de expansão. Nos últimos anos, o grupo gravou um documentário, iniciou o processo de produção do primeiro álbum autoral e realizou pesquisas sobre manifestações populares em diferentes regiões do país. A banda esteve em Pernambuco, Recife e na região do Cariri, no Ceará, em uma imersão para conhecer mestres, grupos e tradições diretamente em seus territórios de origem.

Essa busca também levou o grupo ao exterior. No início de 2026, As Fulô do Cerrado fizeram a primeira turnê internacional, com apresentações em Barcelona, Toulouse e Marselha. Na Espanha, participaram do Festival Sereia, dedicado à cultura popular brasileira, onde também ministraram uma oficina de percussão de forró com instrumentos de maracatu. A viagem foi viabilizada pelo programa Conexão Cultura, do Governo do Distrito Federal.

Para a percussionista Fernanda, um dos momentos mais significativos foi perceber como a força coletiva das integrantes poderia transformar sonhos individuais em realizações concretas. "Eu fui entrando e conseguindo as coisas por meio das Fulô. A gente vê como a força coletiva feminina eleva a gente e leva para lugares que talvez outros grupos não conseguiriam", afirma.

A história das Fulô do Cerrado é marcada por uma característica que as próprias integrantes reconhecem: a disposição de se lançar antes de ter certeza de que tudo dará certo. Um dos exemplos mais emblemáticos aconteceu no início da trajetória, durante um show de Elba Ramalho. Ainda iniciantes e na companhia de Martinha do Coco, as integrantes conseguiram entrar na área VIP quando surgiu a ideia: por que não tentar tocar no palco? Elas conseguiram. Subiram. Pegaram os instrumentos da banda e tocaram.

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Já para Samara e Mare, um dos maiores marcos da história recente é a gravação do primeiro álbum autoral, De rio a rua, com lançamento previsto para 19 de agosto. "É uma honra gravar o nosso primeiro álbum e ter a presença de pessoas tão especiais. É algo que eu acho que vai ficar com a gente para a vida", diz Samara.

Com o lançamento da obra De rio a rua em agosto, As Fulô do Cerrado celebram um ciclo de 10 anos e, ao mesmo tempo, inauguram uma nova etapa. O álbum representa a passagem de um grupo conhecido principalmente por interpretar o repertório do forró para uma banda que apresenta sua própria obra, reunindo memórias, pesquisas, amizades, mestres, mestras, viagens e experiências que atravessaram a trajetória de um grupo de mulheres que parou para ouvir um mestre tocar no campus da UnB.

*Estagiária sob a supervisão de Nahima Maciel

 

 

  • As Fulo do Cerrado
    As Fulo do Cerrado Foto: Vanessa Acioly/Divulgação
  •  As Fulô do Cerrado completam dez anos com o lançamento do álbum De rio a rua
    As Fulô do Cerrado completam dez anos com o lançamento do álbum De rio a rua Foto: Vanessa Acioly/Divulgação
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EB
postado em 05/08/2026 10:32 / atualizado em 06/08/2026 13:45
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