
O difícil de viabilizar o projeto Viva Donato foi a necessidade de limitar o número de faixas e de convidados. Se fosse depender de Ivone Belém, que está à frente do Instituto João Donato, o disco em homenagem ao compositor teria muito mais que as 15 faixas com as quais foi lançado, mas era preciso fazer um corte para viabilizar as gravações. O resultado é um disco no melhor formato songbook, com participação da nata da música brasileira contemporânea e um repertório que mistura clássicos de João Donato com faixas menos conhecidas e duas inéditas.
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O disco faz parte de um empenho em dar vida à produção do músico, que morreu em 2023, aos 88 anos, e deixou um arquivo que surpreende Ivone, companheira de Donato por mais de duas décadas, com muita frequência. Ela conta que começou a abrir os arquivos do músico em 2012, depois de sucessivas mudanças de residência. "Eu já tinha noção que tinha muita coisa importante guardada", conta. "Donato nunca foi um músico de escola de música, aprendeu a tocar sozinho, antes dos 7 anos, e essa experiência de escrever começou nos Estados Unidos, quando tocava em orquestra de jazz latino. Ele aprendeu a escrever e ler partituras e estudava muito. Tem muitos cadernos manuscritos de estudo e muita música inédita que ele escreveu. E tem muita coisa que ele nem mexeu."
Viva Donato tem duas músicas inéditas retiradas desses baús que Ivone vem garimpando: Vamos combinar, que ganhou letra de Marcos Valle, e Até quem sabe, com Joyce Moreno. A diversidade, Ivone explica, é a marca do álbum, que também contou com participação de Donatinho, filho do músico. Talvez essa seja a marca mais rica do projeto, que aproxima artistas de gerações e universos musicais bastante diferentes como Gilberto Gil, Djavan, Ivan Lins, João Bosco, Joyce Moreno e Marcos Valle, Bebel Gilberto, Dora Morelenbaum, Roberta Sá e Silva, uma das habilidades musicais que Donato gostava muito de praticar. "A melhor maneira de se manter viva a obra de um músico é ela circulando por aí. E tenho feito, junto com a família do Donato, que é muito importante porque não embarra a música dele. Já saíram cinco discos com a obra dele desde que morreu", conta Ivone.
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Ela lembra que, de 2023 para cá, foram lançados álbuns como Aprendi com Donato, de Gilson Peranzzetta, Elas cantam Donato e Sintetiza2, de Donatinho. "E o Viva Donato, que traz esse caldeirão de pessoas", diz. Ivone destaca duas faixas que são emblemáticas da produção. Uma delas é Lua dourada, em que Donatinho escreveu os arranjos e reuniu músicos com os quais costuma tocar, mas que também tocaram com o pai. "Donatinho era muito cheio de batidas eletrônicas, mas mergulhou na alma do Donato instrumental e, a partir disso, começou a fazer um show todo acústico, Donato 90, com piano acústico", conta Ivone. A outra faixa é Simples carinho, com Antônio Adolfo e o trio que tocou com João durante mais de três décadas. "Eu tinha o sonho que eles assumissem uma faixa", confessa Ivone.
Uma geração mais nova também assumiu uma parte do disco. Bebel Gilberto ficou com Nua ideia (Leila XII) e Silva, com Aquela delícia singela. Margareth Menezes está em Ermoriô, Fernanda Abreu em Nasci para bailar e Roberta Sá e Roberto Barreiro, guitarrista do BaianaSystem, no clássico Flor de maracujá, a homenagem de Donato para Gal Costa. E Ivone conseguiu, ainda, uma dupla especial na qual Donato estava de olho muito antes de morrer: Dora e Paula Morelenbaum, com Cadê Jodel?. "E essa vem com arranjo da Ana Frango Elétrico, um som muito moderno", comemora Ivone. "É um disco que a gente fica muito feliz, que vai ao encontro da obra viva, é um museu vivo, contemporâneo. E é isso que o Donato queria."
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Donatinho, que gravou com o pai os álbuns Sintetizamor e Sintetiza2, escolheu a solar Lua dourada, para a qual criou um arranjo moderno com fundos eletrônicos que valorizam a leveza da canção e dialogam com a própria assinatura musical de João Donato. "Conheço bem a obra do meu pai, então quis escolher uma música que não fosse óbvia, que não fosse das mais conhecidas, uma menos gravada, conhecida e tocada, A intenção era fugir do óbvio", explica o músico. "Peguei alguns músicos que tocavam com ele e são meus amigos para ficar meio que em casa, uma coisa gostosa e confortável."
Donatinho começou a tocar de forma autodidata e tocou na banda de Donato, na qual descobriu o próprio jeito de tocar. Em 2015, ganhou o Prêmio da Música Brasileira com o álbum Zambê na categoria especial de álbum eletrônico. Três anos depois, ganharia novamente o mesmo prêmio com Sintetizamor, em parceria com o pai, cuja música é marcada por uma universalidade musical que perpassa gerações. "Ele não tem idade, ele fazia música com todo mundo, sempre foi universal, não tinha tempo ruim, ele se dava bem em qualquer lugar, com qualquer pessoa, sem limites, sem barreiras", lembra Donatinho.

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