
Acaloradas sessões, durante os 10 dias de Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na 59ª edição, demarcaram a identidade do público com a lista de sete títulos dispostos para apreciação do júri, que, na noite de sábado, soltou o veredito dos vencedores. "Temos um muito histórico com este festival. Sempre são sessões muito marcantes e fortes; são sessões únicas, com o calor do público", observa Gabriel Martins (diretor do aguardado Vicentina pede desculpas), montador do consagrado filme de 2026 do Festival: Se eu fosse vivo... vivia, vencedor de prêmios Candango de melhor filme, roteiro e figurino, além de menção honrosa para os idosos protagonistas. O entusiasmo de realizadores e de público do Cine Brasília (EQS 106/107) coloca no centro a curiosidade pelo futuro encontro, com novos projetos dos diretores a caminho.
O premiado cineasta André Novais Oliveira (de Se eu fosse vivo... vivia) adianta que, da manga, sairá o longa derivado de projeto urdido por anos: E os meus olhos ficam sorrindo, do qual espera completar o financiamento, para as filmagens de 2027. "É sobre uma senhora que resolve correr atrás dos sonhos que não conseguiu realizar, durante o resto da vida. Não sei se realmente tenho uma sensibilidade para criar personagens femininos, mas eu me arrisco. Acho importante, exercitar isso, dar vozes a personagens assim", comentou o mineiro.
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Visibilidade que fortalece
Entre os competidores da arena central do Festival, a representante de Brasília com o longa Sabes de mim, agora esqueça, Denise Vieira adianta o novo projeto, com a atriz Cida Souza, chamado Pisa manso, couro grosso. "Concluí o roteiro e será um filme de caça ao tesouro com uma personagem que vive no Sol Nascente. Partimos da ideia de que a protagonista enterrou o umbigo do filho num lugar no Sol Nascente, que tem mudado muito. Ela já não sabe mais onde seria o local. A trama tem os mitos de que onde está o umbigo, a mulher pode voltar e ter a volta do filho perdido. Nisso, ela encontrará uma pedra que traz riqueza", explica a cineasta, que venceu projeto de desenvolvimento no FAC, e está em fase de concorrência em edital para captação.
Vencedor de prêmios importantes como o de melhor diretor e de atuações (Guilherme Théo e a coadjuvante Aivan), Pequenas tragédias deu visibilidade para o cinema de Goiás e para o cineasta Daniel Nolasco (de Vento seco). No futuro, ele investirá no longa Entressafra, vencedor de edital de produção do Fundo Setorial do Audiovisual; sob orçamento de R$ 2,5 milhões, a ideia é de rodar em 2027. "Será um filme em uma cidade do interior goiano e fala sobre um pistoleiro com serviço pendente, na fronteira com Mato Grosso. Tratando de pistolagem, trará questões de violência", conta o cineasta. A pretensão do catalano é trabalhar com atores de sólida carreira no teatro, como ele tem apostado.
Um dos mais destacados cineastas na premiação, que obteve prêmios de prêmios Especial do Júri e melhor filme (júri popular), além do troféu Saruê, votado pela equipe de Cultura do Correio, o carioca Marcos Guttmann, de Tudo é tempo, vai apostar em um projeto de ampliação do tema do documentário, desenvolvido por 20 anos e que trata de eleições. Além disso trará a dramatização da história de Lars Grael, velejador e medalhista olímpico que teve a perna amputada após um acidente. "O filme tem Daniel de Oliveira, Carol Abras e Mouhamed Harfouch no elenco. Viver de vento revelará detalhes de Lars nunca contados. Se o amor de sua mulher, Renata, foi o que o manteve vivo, foi seu irmão, Torben, quem o levou de volta à água... Quero uma forte comunicação com o público, sem abrir mão da minha marca autoral, e o filme deverá ser lançado em 2027", conta.
Dupla de grande trânsito no Festival de Brasília, Glenda Nicácio e Ary Rosa, atualmente, grava série que expande o filme Café com canela (êxito de 2017) para o Canal Brasil. "Tratamos da capacidade de encontrar em outras pessoas um caminho para continuar. A série tem seis episódios e se passa no Recôncavo da Bahia. No elenco estão os vencedores dos troféus Candango Valdineia Soriano e Aldri Anunciação, além de Babu Santana, Fabrício Boliveira e a brasiliense Mariana Nunes. Uma rede de afetos será representada e mostramos andamentos de amores, reordenação de famílias e amizades colocadas à prova", observa o cineasta.
Entre animações e bichos
Tendo participado do Festival de Brasília, como a primeira cineasta negra a dirigir um filme de animação em longa-metragem (Ana, en passant), a cineasta mineira Fernanda Salgado (vencedora do Prêmio Zózimo Bulbul de melhor filme, dado pela Apan) contou ao Correio, sobre o atual projeto em desenvolvimento, um outro longa de animação chamado Aimó. "Será uma adaptação de livro do Reginaldo Prandi, e que teve etapa de processo no Women in Animation (segmento do Festival de Annecy, em 2024). A intenção é de começar a produzir no ano que vem, ao menos, encontrar financiamento. Na trama, há a jornada da menina Aimó para reencontrar a sua memória, sua história, e entender se vale a pena voltar à vida. O roteiro é meu, com Vitor Dias, e, a direção, dividirei com a animadora Giuliana Danza", adianta a diretora. O longa virá baseado em livro de Reginaldo Prandi, cercado de orixás, mitologias e apreço pelo candomblé.
Num mundo apinhado de bichos, alguns empalhados, e dose de polêmica, o cineasta Gustavo Vinagre (do longa Privadas de suas vidas, vencedor de prêmios Candango de melhor atriz, atriz coadjuvante e direção de arte) desenvolve o novo projeto, em etapa de montagem, e que conta com Regina Braga, Cássio Scapim e Gilda Nomacce no elenco. "Falamos de um veterinário que trabalha num aplicativo de eutanásia de animais. Trará discussões de identidade, já que esse mesmo profissional vende quetamina, a mesma que ele usa para as eutanásias, em festa de pet play (no campo do BDSM), então surgem dilemas morais no caminho", observa Vinagre.
Presente no elenco do novo filme de Gustavo Vinagre, o diretor brasiliense Gurcius Gewdner (codiretor de Privadas de suas vidas) incluiu Vinagre no elenco de seu filme em andamento: Viaggio arrabbiata. "Será uma homenagem ao cinema italiano, especialmente aos filmes de gênero dos anos 1970, de gângster e filme de terror também. O longa traz flerte com filme de fantasia, tem um fauno — é um filme de gângster queer", explicou o realizador do DF.
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Mariana Morais
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