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Atores do festival francês debatem sobre as convulsões sociais contemporâneas

Em entrevista ao Correio, atores como Alexandra Lamy e Benoît Magimel tratam da convulsiva situação política atual. Talentos integram festival de cinema francês com programação em Brasília e em mais 50 cidades

A delegação de artistas do Festival de Cinema Francês do Brasil chegou ao país para representar parte dos 20 filmes integrados ao festival, que, em Brasília, será realizado no Cine Cultura e no Cinesystem Caixa CasaPark) -  (crédito: Bonfilm/ Divulgação)
A delegação de artistas do Festival de Cinema Francês do Brasil chegou ao país para representar parte dos 20 filmes integrados ao festival, que, em Brasília, será realizado no Cine Cultura e no Cinesystem Caixa CasaPark) - (crédito: Bonfilm/ Divulgação)

Rio de Janeiro (RJ) — Dona de filmografia robusta, dentro de uma indústria de entretenimento audiovisual consolidada, com parque de exibição farto para filmes — são 6 mil telas de cinema—, a delegação de artistas do Festival de Cinema Francês do Brasil chegou ao país para representar parte dos 20 filmes integrados ao festival, que, em Brasília, será realizado no Cine Cultura e no Cinesystem Caixa CasaPark). Junto com filmes estrelados por nomes de ponta como Isabelle Huppert (que encabeça A ilustre desconhecida) e Virginie Efira (O sentido da vida), e rostos singulares como o de Pauline Clément (estrela de Bem-vindos à la Comédie-Française e Uma menina de ouro), o festival traz títulos que projetam a complexidade de convulsões sociais que afetam países como Brasil e França. Filmes incendiários como De Gaulle: A França Livre, com o astro Benoit Magimel; reflexivos como Compostela: O caminho da terapia (estrelado por Alexandra Lamy) e ainda O que é o amor?, que recondiciona conceitos como Deus e família, instigam a ida aos cinemas ao mesmo tempo em que rendem inspiradas conversas sobre problemáticas com os talentos que os viabilizaram.

Tunisiano, o cineasta Pierre Salvadori chegou, em meio à carga de novidades no cenário político brasileiro e na antevéspera da extensão da fissura social francesa, incrementada pela violência de protestos, e latente ameaça de greve. Falou com o Correio sobre o romântico e poético O beijo elétrico, com a sensual dupla Anaïs Demoustier e Pio Marmai, sem desprezar, entretanto, lampejos das manifestações franco-brasileiras. Cutucado sobre a conjuntura global, deu sua perspectiva como roteirista às vias do sufoco, na competição com a realidade. "É muito interessante, porque agora nos deparamos com algo totalmente inédito: a ausência de verdade. Ou seja, é extremamente difícil não mergulhar no caos quando não existe uma verdade objetiva. Precisamos de uma verdade objetiva. E, hoje, fala-se em fatos alternativos. Quando se fala em mentira, agora se usa o termo "fatos alternativos" — narrativas ou anti-fatos. É algo chocante: ver que é possível manipular, mentir e conquistar o poder difundindo, essencialmente, mentiras e ficções — pequenas ficções, como as que eu crio —, manipulando as massas. Há uma perversidade absoluta e uma ausência de moral que levam nossas sociedades ao colapso. É algo que me assusta profundamente; há, inclusive, um caráter quase epidêmico nisso", pontua.

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Na opinião de Salvadori, a convivência com distorções rima com Trump. "A busca pelo poder, a permanência nele e a possibilidade de mantê-lo por meio da mentira — o fato de ser possível ser tão corrupto e sair impune — é algo que está se tornando epidêmico. Tudo começou com Trump; os danos são enormes, e vimos o que aconteceu no Brasil. Cheguei ao Brasil no dia da vitória de Lula. Tive a sensação de estar presenciando um milagre, pois eu estava convencido de que tudo havia acabado, que estava tudo perdido e que era o triunfo da mentira, da manipulação e do dinheiro", relatou. Salvadori se viu alimentado na veia do otimismo, pelo Brasil: "Certas pessoas ao redor do mundo se viram esperançosas. Espero que algo semelhante aconteça, também, nos Estados Unidos".

O recente movimento estudantil que mitigou a corrupção e o desleixo governamental na Sérvia abastece as expectativas junto à França. "Talvez, a grande lição de tudo isso seja que a juventude pode nos salvar — se ela tomar consciência de seu próprio poder e de sua força, como aconteceu no Brasil. Talvez, seja esse o filme a ser feito. Um filme sobre a juventude que decide que faz parte do mundo e que não deve se submeter a ele", observa. Endossando as reflexões da atualidade, dois outros potentes nomes do cinema francês, Benoit Magimel e Alexandra Lamy, conversaram com o Correio sobre desdobramentos de outros dois títulos do Festival de Cinema Francês do Brasil, que se estende até 11 de novembro. Confira abaixo:

Entrevista // Benoît Magimel, ator de De Gaulle: A França Livre

É possível relativizar a liberdade na França?

Existe, de fato, um senso crítico na França, especialmente em relação aos políticos; mas, na verdade, tornou-se muito difícil zombar deles hoje em dia. Todos os programas que faziam piada com políticos desapareceram. Antigamente, tínhamos marionetes (na tevê), por exemplo. Isso foi completamente eliminado. Hoje, se alguém faz uma piada sobre o presidente, ele entra com um processo. São coisas que não existiam antes. Aceitava-se o ateísmo, aceitava-se a zombaria, o deboche, enfim. E isso é algo que desapareceu na França. Na minha opinião, a França regrediu bastante. Por exemplo, hoje atiram contra os jovens na França — algo que não acontecia antes; não se atirava contra estudantes. É claro que houve o Maio de 68, mas lembro-me da última vez que participei de uma manifestação, quando tinha 20 anos. Naquela época, não atiravam na gente como fizeram agora; recentemente, atiraram contra os jovens. Então, sim, existe liberdade, mas é uma liberdade cada vez mais dissimulada, entende? A violência policial na França tem crescido muito. A Anistia Internacional chegou a abordar isso. Estamos chegando a um ponto de saturação com a violência policial. É uma situação bastante preocupante. Enfim, há muitas coisas que nos incomodam. Então, a democracia acaba ficando sempre um pouco disfarçada, sabe? E é verdade que o futuro na França é um tanto preocupante, porque a extrema-direita está ganhando muito espaço — assim como na América. Não sabemos como será o dia de amanhã.

De Gaulle mexe com questões identitárias, em que medida?

Por muito tempo, tirando o esporte — o futebol, especificamente, e os grandes momentos esportivos —, era difícil se identificar com a bandeira francesa; ela acabou sendo associada, de certa forma, à extrema-direita. Era, de certa maneira, o emblema da extrema-direita na França. Agora, pela primeira vez, estamos nos reconciliando com a bandeira francesa. Quanto aos que lutaram — e aos seus descendentes —, o filme trata com bastante benevolência todos esses homens que se engajaram. E é possível perceber todas as contradições que a história revela. De Gaulle não foi levado a sério; ele incomodava. Pela primeira vez, ele é retratado como um homem comum, como qualquer outro — em sua banheira, um tanto desajeitado —, mas que, ainda assim, levantou-se contra a situação em um momento em que ninguém mais o fazia. Esse De Gaulle é fascinante; é uma faceta que a gente não conhecia. Nós estávamos acostumados com a imagem de De Gaulle carregada de toda a sua imponência — o homem, a sua estatura. Mas, aqui, vemos que ele é apenas um de nós. Isso, pelo menos, é algo que conseguimos compreender. Nesse aspecto, o filme é muito interessante. O diretor, por exemplo, fez a obra para o seu filho, com o objetivo de transmitir-lhe uma visão da guerra e do que ela representou — especialmente agora, com o conflito na Ucrânia e na Rússia, que acontece bem às nossas portas.

Sua visão do combatente central no filme foi alterada?

Na escola, nos livros, não me ensinaram a história da Segunda Guerra Mundial — pelo menos não sob a ótica de De Gaulle — dessa maneira. Eu não aprendi isso. Gostei dessa abordagem, com contradições. É uma biografia de origem inglesa, o que traz um olhar diferente daquele a que estamos acostumados, diferente do que nos foi transmitido na França. E achei extremamente interessante, porque é a primeira vez que nos deparamos com essa relação específica com o patriotismo. É a primeira vez que um filme desperta em mim esse desejo: o desejo de fazer parte, de participar. Não saberia dizer que tipo de homem eu teria sido naquele período. Mas ver que um punhado de homens se engajou em nome da liberdade, contra a ocupação... é algo muito impressionante. Não sei... nós pertencemos a gerações que não conheceram a guerra. Por isso, acho difícil nos identificarmos. Eu tenho muito respeito, mas... tive dificuldade em trazer as coisas para mim, já que sou incapaz de me definir em relação ao homem que eu poderia ser — ou que eu poderia ter sido naquele momento. Mas acho que esses homens em questão são admiráveis. Isso baliza jovens como os que chegam com todo o impulso de defesa da atualidade.

Entrevista// Alexandra Lamy, atriz de Compostela

No filme, você aposta no percurso de Santiago de Compostela, algo que expande horizonte e revela dados da exuberância da natureza. Nota, de que modo, que a nossa natureza agoniza?

Bem, a natureza é um tema fundamental. Eu cuidava de cabras, vivia em uma fazenda, então conheço bem esse ambiente. Embora eu more em Paris, sinto sempre a necessidade de voltar para casa, nas Cévennes, porque a natureza é a essência da vida. Além disso, os animais nos ajudam a resgatar a empatia — e nos lembram de que precisamos preservar este planeta. Houve algo muito interessante: tive a oportunidade de conversar com Sophie Adenau, nossa astronauta francesa que esteve no espaço, e interagi com ela no auge de uma missão. Em um dado momento, ela me mostrou o planeta — estávamos frente a frente, e ela me mostrou a imagem do planeta, a distância. Ao ver aquele planeta, lembro-me de que ela disse (dentro da aeronave): "Aqui, tudo é hostil. Não poderíamos viver lá fora; tudo é hostil". Ao ver nosso planeta (apartado) em meio a um ambiente tão hostil, penso que deveríamos mostrar isso a todos, para que compreendam a necessidade de preservá-lo. Na verdade, se ele não estivesse aqui para nos proteger, morreríamos imediatamente; tudo ao redor é hostil. Sinto que o mundo inteiro deveria ter a chance de ver o nosso planeta, daquele ângulo. o pensamento geral seria: "Precisamos preservar este planeta". Porque, na verdade, se ele não estivesse aqui para nos proteger, morreríamos imediatamente.

Você acha que, hoje em dia, há ausência de crenças? Que falta isso  faz?

Eu venho do campo, então eu diria que tenho uma espiritualidade ligada à natureza. Creio nesse enraizamento na natureza; as paisagens, os animais. Tudo isso nos traz de volta à verdade da natureza, do mundo. E... sei que, por exemplo, esse caminho — as paisagens — nos faz até levantar o olhar. Normalmente, especialmente quando estamos nas grandes cidades, olhamos para baixo; mas ali, olhamos para cima, o que nos permite redescobrir a beleza do mundo. E, naturalmente, isso desperta emoções extremamente fortes. Eu costumo fazer muitas caminhadas, mas o Caminho de Santiago tem algo de particular; há, de fato, um componente espiritual. Para começar, partimos de Le Puy-en-Velay, com aquela catedral cujas portas se abrem, revelando o caminho à nossa frente. Estamos ali, dentro de uma igreja, acompanhados por um padre — isso já nos toca de uma forma especial. 

Os jovens de hoje se prendem a tutorial de internet ou arregaçam as mangas e vão às ruas. Como essa realidade te toca?

Certamente toca. Nós apoiamos muito os estudantes do ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem. Embora estejamos na França — onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes —, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores. É uma situação muito complexa: muitos jovens e estudantes hoje não têm condições — mesmo com a existência de auxílios na França — de arcar com os custos dos estudos. Eles precisam trabalhar por fora, muitas vezes em condições bem complicadas. Enfim, tudo isso nos lembra de que nada é garantido; por mais que sejamos um país com um forte sistema social, a verdade é que há muito sofrimento e que a França também enfrenta grandes dificuldades. É terrível lembrarmos, simplesmente, que é possível trabalhar e, ainda assim, não ter condições financeiras. É preciso escolher entre comer bem e aquecer a casa — mesmo trabalhando e recebendo um salário. Isso é algo que, antigamente, não acontecia para quem trabalhava. Meus pais e nossos avós ficavam felizes por poder sair de férias graças ao seu trabalho. Muito mudou, nos lembra a atual juventude. Existe, de fato, uma juventude que vive totalmente conectada aos seus celulares. Mas a geração dos "boomers", talvez, seja a que mais permanece conectada. Sentia, noutra época, que a minha geração era muito mais limitada. Os jovens de hoje conseguem discutir política; eles estão engajados em questões políticas, ecológicas e sociais, e apresentam reivindicações reais. Talvez, isso se deva, em parte, às redes sociais, onde esses temas são mais debatedos. A juventude é assim: capaz de se sacrificar por uma causa. E ela é revolucionária porque é, de fato, capaz de morrer por algo. Nós, com o passar do tempo, já não temos mais a menor vontade disso. Por isso, é bom ouvi-la e acompanhá-la.

O repórter viajou a convite da organização do evento.

  • Cena de O beijo elétrico: filme presente no Festival de Cinema Francês do Brasil
    A delegação de artistas do Festival de Cinema Francês do Brasil chegou ao país para representar parte dos 20 filmes integrados ao festival, que, em Brasília, será realizado no Cine Cultura e no Cinesystem Caixa CasaPark) Foto: Bonfilm/ Divulgação
  • O diretor Pierre Salvadori
    O diretor Pierre Salvadori Foto: Divulgação
  • Cena do longa De Gaulle: A França Livre – Parte 1
    Cena do longa De Gaulle: A França Livre – Parte 1 Foto: Synapse / Divulgação
  • Compostela, o caminho da terapia, com Alexandra Lamy
    Compostela, o caminho da terapia, com Alexandra Lamy Foto: Pandora/ Divulgação
  • O ator Benoît Magimel
    O ator Benoît Magimel Foto: Festival / Divulgação
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postado em 02/11/2026 05:01
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