Conjuntura

Crise no varejo está ligada à alta dos juros, apontam especialistas

Retração no consumo e erros de gestão também são alguns dos fatores que explicam a recuperação judicial de grandes redes, como as Casas Bahia

Loja fechada das Casas Bahia: com uma dívida de R$ 17,3 bilhões para bancos e fornecedores, empresa pediu recuperação judicial no domingo (16) -  (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
Loja fechada das Casas Bahia: com uma dívida de R$ 17,3 bilhões para bancos e fornecedores, empresa pediu recuperação judicial no domingo (16) - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

A crise financeira que levou o Grupo Casas Bahia a protocolar um pedido de recuperação judicial acendeu um alerta sobre a situação do varejo nacional. Com uma dívida de R$ 17,3 bilhões, a companhia atribui parte da deterioração financeira ao cenário macroeconômico, marcado por juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos de financiamento e redução do consumo de bens duráveis no país.

Especialistas ouvidos pelo Correio acreditam que a combinação de juros elevados e dificuldades na gestão são dois dos principais fatores por trás de uma crise de recuperação judicial no varejo. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Para Cesar Bergo, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), empresas do setor também são particularmente afetadas pelo chamado "risco sacado", operação em que o varejista recebe o pagamento do consumidor antes de repassar os recursos ao fornecedor. O intervalo entre as duas etapas possui um custo financeiro que aumenta conforme os juros sobem.

O cenário de dificuldades financeiras no setor empresarial também aparece nos dados da Serasa Experian. O Indicador de Falências e Recuperações Judiciais registrou 60 processos de recuperação judicial em abril de 2026, envolvendo 141 CNPJs. Em março, foram registrados 82 processos e 184 empresas envolvidas. 

Bergo afirma que o problema se agrava quando os juros reduzem o consumo. Com menos vendas, as empresas precisam manter estoques por mais tempo, aumentando os custos financeiros e pressionando o caixa. "Com a restrição ao consumo provocada pelos juros altos, as vendas caem e surge a necessidade de manter estoques elevados, gerando um custo financeiro que muitas organizações não conseguem gerir de forma eficiente antes de remunerar os seus fornecedores," explica.

Medidas preventivas

Um dos pontos levantados na crise do varejo é o crescimento do comércio eletrônico. César Bergo avalia, no entanto, que essa circunstância não deve significar a substituição das lojas físicas pelo comércio eletrônico. Para ele, a tendência é a integração dos dois formatos. O economista cita o processo enfrentado por empresas como Magazine Luiza para mostrar que a adaptação ao novo modelo de consumo pode ocorrer de maneiras diferentes. "O caminho correto não é permitir que o e-commerce engula o varejo físico, mas sim, realizar uma mudança conceitual no modelo de negócios que viabilize a convivência de ambos," afirma.

A comentar o cenário varejista, o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Renan Pieri observou que empresas de menor porte podem enfrentar dificuldades ainda maiores em um cenário de juros elevados. Segundo o economista, grandes companhias possuem mais instrumentos para renegociar dívidas, alongar prazos e buscar fontes alternativas de financiamento. "Os juros altos apertam dos dois lados: encarecem o financiamento da própria empresa e, ao mesmo tempo, reduzem a disposição do consumidor para comprar, principalmente bens financiados."

Pieri afirma que a combinação reduz as margens e pressiona o caixa dos varejistas. Nesse cenário, a recomendação é preservar recursos, controlar estoques e custos fixos e buscar a renegociação das dívidas antes que as dificuldades financeiras evoluam para uma crise de liquidez. Outra questão que fica após a recuperação judicial das Casas Bahia é como fica a situação dos consumidores. Em nota, a empresa afirmou que mantém as operações normalmente e que está adotando medidas para preservar o funcionamento das lojas e do comércio eletrônico.

Consumidores

O advogado especialista em reestruturação empresarial Filipe Denki destaca que o pedido de recuperação judicial não altera, de imediato, os direitos dos consumidores. Segundo ele, a empresa continua responsável por garantias, trocas, entregas, instalações e serviços de manutenção relacionados aos contratos já firmados. A diferença é que a Casas Bahia passa a ficar sob supervisão judicial, embora eventuais dificuldades de caixa possam provocar atrasos em obrigações como devoluções de valores.

Denki explica ainda que consumidores que não receberam produtos e têm direito à restituição em dinheiro, assim como aqueles que possuem créditos decorrentes de falhas na prestação de serviços, podem entrar na recuperação judicial como credores quirografários. Nesse caso, os valores ficam sujeitos às condições que serão estabelecidas no plano de recuperação, com possibilidade de redução dos créditos ou de alongamento dos prazos de pagamento.

A mesma lógica se aplica aos fornecedores comuns da companhia, que também são classificados como credores quirografários. Já fornecedores considerados estratégicos, especialmente aqueles que possuem contratos de exclusividade ou oferecem produtos diferenciados, podem ter maior poder de negociação com a empresa durante a reestruturação.

Para o especialista, o comportamento da companhia nos próximos meses será determinante para avaliar a viabilidade da recuperação judicial. "Consumidores que já receberam seus produtos normalmente não possuem crédito contra a empresa na recuperação. Espera-se que nos próximos quatro a seis meses — com possibilidade de extensão até 12 meses caso haja prorrogação — seja possível avaliar se o plano é realista ou adiar o inevitável," conclui.

  • Google Discover Icon
postado em 19/08/2026 00:01 / atualizado em 19/08/2026 11:14
x