Geopolítica

Ex-embaixador não vê mudança em relação com a China se Lula não for eleito

Marcos Caramuru, que viveu 12 anos no país asiático, acredita ainda em mudanças na balança comercial com o Brasil a médio e longo prazo

Diplomata acredita que as empresas chinesas devem ganhar mais espaço no Brasil nos próximos anos e reverter a balança comercial entre os dois países
     -  (crédito: Raphael Pati/CB/D.A Press)
Diplomata acredita que as empresas chinesas devem ganhar mais espaço no Brasil nos próximos anos e reverter a balança comercial entre os dois países - (crédito: Raphael Pati/CB/D.A Press)

São Paulo (SP) — Membros do Brics desde o início do século XXI, Brasil e China compartilham uma relação positiva tanto no campo econômico quanto na geopolítica, sobretudo desde o início do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2023. Mesmo com a possibilidade de uma derrota do petista nas urnas em outubro, o ex-embaixador do Brasil no país asiático Marcos Caramuru Paiva acredita que as duas nações devem manter uma relação pragmática nos investimentos e no comércio bilateral.

“Eu não acredito que possa haver uma mudança de cenário muito radical, mesmo que nós tenhamos um governo que é menos simpático, menos ligado à realidade e acho que isso vai acontecer na América Latina inteira”, disse o diplomata, nesta quarta-feira (19/8), durante o 34º Congresso & Expo Fenabrave, promovido pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores, em São Paulo.

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Mesmo com uma possível vitória de Flávio Bolsonaro (PL), que já fez críticas expressas à aproximação de Lula com o governo de Xi Jinping, Caramuru acredita que a China deve manter a mesma estratégia de investimentos no Brasil, assim como com outros países da América Latina que elegeram líderes ligados à direita no espectro político, como na Argentina, no Chile e no Equador.

O ex-embaixador relembrou o caso da Huawei, que sofreu pressão, inclusive, dos Estados Unidos para que não atuassem com o 5G no país quando a tecnologia ainda estava em fase de implementação no Brasil. Na época, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o chefe do Executivo liberou a entrada da gigante chinesa desde que cumprisse exigências, como a criação de uma rede privativa para atender ao governo federal.

“A Huawei continuou a ser uma empreendedora. Ali houve uma atuação muito forte dos investidores, houve uma atuação muito forte dos compradores, das empresas provedoras de internet, que compraram e houve uma pressão do próprio Congresso, de formadores de opinião e outras”, relembrou.

Durante uma palestra que abordou a relação geopolítica entre os dois países, o ex-embaixador disse que nem os chineses e nem as empresas brasileiras teriam interesse em uma reversão da política comercial já estabelecida entre ambas as nações.

“O Brasil tem forças muito fortes, muito expressivas, que fazem com que mudanças radicais da realidade não funcionem de uma forma tão simples, como simplesmente a decisão de algum governo numa direção que não faz sentido em uma relação com o passar das gerações”, acrescentou Caramuru.

Balança comercial

O comércio entre Brasil e China, atualmente, é favorável para os brasileiros. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o saldo de janeiro a julho da balança comercial foi favorável em US$ 114 bilhões. O resultado indica um crescimento de 14,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Apesar de o Brasil exportar muitos produtos agropecuários para a China, o ex-embaixador acredita que a tendência é em uma reversão desse cenário, com o país asiático investindo ainda mais na produção para consumo próprio. Ele também menciona a expansão das empresas chinesas como um fator que deve impulsionar a compra desses produtos a médio e longo prazo.

“Com a maior presença de empresas chinesas no Brasil, vai aumentar a importação de produtos chineses e o nosso superavit comercial vai ser reduzido. Além disso, a China tem em 10 anos planos de reforma do seu setor agrícola para se tornar algo menos dependente dos cereais que tem no exterior. Ou seja, ao longo do tempo, a balança comercial vai se transformar”, destacou Caramuru.

O diplomata também já atuou como secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, além de ter sido presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e diretor executivo do Banco Mundial, em Washington. Na Ásia, foi embaixador em Pequim e em Kuala Lumpur, na Malásia. Também foi cônsul geral em Xangai.

*O jornalista viajou a convite da Fenabrave

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postado em 19/08/2026 17:01 / atualizado em 19/08/2026 17:06
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