Política costuma ser associada às urnas e aos órgãos onde as decisões de interesse público são legisladas, executadas e fiscalizadas, mas também está presente onde crianças e adolescentes passam boa parte do dia: a escola. É nesse espaço que aprendem sobre direitos e deveres, convivência coletiva, relações de poder, tomada de decisões e participação social. Com esse olhar, a Universidade de Brasília (UnB), por meio do Instituto de Ciência Política (Ipol), desenvolve o projeto de extensão Política na Escola (PNE), para mostrar que a cidadania está presente nas decisões diárias.
Voltado a estudantes do 4º e do 5º ano do ensino fundamental da rede pública, o projeto escolhe uma escola por ano para desenvolver as atividades. Neste ano, a instituição selecionada foi a Escola Classe 115, da Asa Norte. A cada 15 dias, integrantes do PNE vão até a unidade de ensino para conduzir atividades e ensinar aos alunos conceitos relacionados à política.
De acordo com o coordenador do projeto de extensão, Vladimir Ferrari Puzone, a proposta vai além do debate sobre eleições. "A ideia é que a gente consiga discutir alguns temas da política que os alunos aprendem na graduação. Não só a questão eleitoral, mas o que significa cidadania, o que significa participar da vida comunitária, além de questões como racismo e povos originários. Tudo isso para que os alunos do Ipol possam contribuir para a educação política de crianças", explica o professor.
Embora a maioria dos participantes seja do Instituto de Ciência Política (Ipol), o projeto aceita estudantes de todos os cursos da UnB para contribuírem de diferentes formas. "Temos alunos, por exemplo, da pedagogia, que dão uma contribuição e uma outra visão muito boa", completa Valdimir.
Antes de entrar em sala de aula, os estudantes passam por uma preparação que inclui formação psicopedagógica para lidar com temas que podem gerar diferentes opiniões e debates entre as crianças. "Os alunos já vêm com essa carga de discussões e leituras, mas também fazem uma preparação psicopedagógica. A gente conta com pessoas especializadas na área, tanto da pedagogia quanto da psicopedagogia, para poder auxiliar os alunos com a tarefa mais difícil, que é lidar com certas questões que podem ser polêmicas entre os alunos", conta o coordenador. "Os participantes também reveem os roteiros. A gente faz uma preparação prévia sobre cada um dos temas, examina o roteiro, estuda e adequa", completa.
Em ação
O estudante de ciência política Kaio Pereira, de 21 anos, é um dos responsáveis por organizar os roteiros que ocorrem nas classes. Ele conta que o intuito dos programas é fugir do senso comum que as crianças aprendem com os pais ou na própria escola por meio de atividades lúdicas e interativas. "Tentamos mostrar que elas já são atores políticos, mesmo sendo crianças. Por isso, criamos brincadeiras para que elas consigam entender temas políticos complexos em uma linguagem mais fácil e acessível", destaca.
Maria Burmann, 20, também aluna de ciência política e coordenadora de comunicação do PNE, relata que abordar a política nas salas de aulas é um "desafio" porque as crianças não têm a mesma visão que outros estudantes desenvolvem no ensino médio ou na universidade e, por isso, as dinâmicas são importantes. "É muito significativo, porque elas entendem por meio das brincadeiras de voto e começam a aplicar isso (aprendizado do PNE) no dia a dia, votando sobre o vão comer no recreio ou outras questões da sala", conta.
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Kaio também narra que entrou no projeto ao ser apresentado por veteranos da universidade. "Gostei da ideia de transmitir os ensinamentos da política para as crianças", defende. Maria reforça que a experiência trouxe mais ânimo de participar. "Depois dos encontros que realizamos na Escola Classe 21 do Gama, as professoras estavam desesperadas e perguntavam o que nós fizemos com as crianças, porque elas queriam decidir algo apenas por votação. Isso me marcou muito", lembra.
Consciência
Em sala de aula e nas atividades do dia a dia, as pedagogas da Escola Classe 115 enxergam que a experiência amplia o olhar das crianças. Para a educadora Rahyssa Ferraz, o projeto estimula a formação de cidadãos mais críticos. "Política é aquilo que eles estão vivendo, como a escolha de um representante de turma, a decisão se vão jogar vôlei, queimada ou futebol na quadra. A ideia é formar cidadãos críticos. Nós, como educadoras, queremos crianças questionadoras", disse.
Mariana Espíndola afirma que ajudou na compreensão de temas que costumam ser considerados complexos, como a divisão dos poderes. "Quando veio o nome do projeto, eles falaram: 'Vai ser algo sobre o governo'. Quando eles perceberam que é uma prática do dia a dia deles, clareou ainda mais essa visão. Temas que muitas vezes são bichos de sete cabeças para muitos adultos, como os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, por meio de brincadeiras, se tornaram algo que eles têm muita desenvoltura para falar", observou a pedagoga. "Acho que traz essa chama investigativa. Quando eles puderem votar, não vão só olhar a propaganda eleitoral, e falar: 'Me identifiquei com esse'. Eles vão saber por onde investigar, qual é toda a estrutura de governo para que eles possam ter uma melhor decisão e não só por influência dos outros", concluiu Mariana.
Também pedagoga, Juliana Queiroz Ferreira avalia que o projeto complementa o trabalho desenvolvido pela escola. "A escola sempre foi muito politizada. O projeto veio para somar. É importante construir essa reflexão acerca de que eles fazem parte do cotidiano civil e político. Crianças também trazem assuntos bem aprofundados a respeito de política. Eles falam sobre a estrutura de governo, alguns falam de candidatos propriamente ditos e propostas. Estão bem antenados sobre isso", conclui.
*Estagiário sob a supervisão de Patrick Selvatti
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