IA na educação

Escola precisa ensinar a pensar sobre a IA, defende especialista

Com a educação midiática obrigatória e o Pisa 2029 no horizonte, coordenadora do EducaMídia diz que o Brasil avança na legislação, mas ainda precisa formar professores e garantir acesso

João Pedro de Lara Resende
postado em 13/10/2026 20:03
Mariana Ochs, coordenadora de educação do EducaMídia, programa do Instituto Palavra Aberta, e autora do livro
Mariana Ochs, coordenadora de educação do EducaMídia, programa do Instituto Palavra Aberta, e autora do livro "Máquinas Entre Nós: Educação Midiática para a Geração IA!", lançado com apoio da Arco Educação e disponível para download gratuito - (crédito: Rodrigo Barbosa)

A educação digital e midiática passou a integrar as Diretrizes da Educação Básica Brasileira em 2025, por meio da Resolução CNE/CEB nº 2, que instituiu as Diretrizes Operacionais Nacionais sobre o uso de dispositivos digitais em espaços escolares. Em três anos, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) vai cobrar o resultado: a edição de 2029 incluirá, pela primeira vez, um módulo de letramento em mídia e inteligência artificial, no qual estudantes de 15 anos serão avaliados em ambientes digitais simulados. Entre a diretriz e a prova internacional, porém, falta uma cadeia inteira de preparação, da formação de professores à conectividade das escolas.

A avaliação é de Mariana Ochs, coordenadora de educação do EducaMídia, programa do Instituto Palavra Aberta, e autora do livro Máquinas entre nós: educação midiática para a geração IA!, lançado com apoio da Arco Educação e disponível para download gratuito. Jornalista e designer, mestre em ciência da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Ochs recebeu, em 2026, o Prêmio de Inovação em Educação Midiática do International Council for Media Literacy.

Para ela, o maior risco da inteligência artificial na escola não é a cola, e sim a conveniência. "A função principal de um chatbot não deveria ser a pesquisa, pois ele é otimizado para estruturar linguagem, não para acurácia factual", explica. "É apenas uma combinação probabilística de palavras, embrulhada de forma absolutamente convincente. Precisamos partir do que conhecemos, complementar com buscas em outros lugares; e também entender como funciona um buscador real, como ele ranqueia os resultados por relevância e confiabilidade, o que não é o caso do ChatGPT. É isso que a escola precisa ensinar."

Resumo de IA não é fonte

"A regra mínima é nunca usar esse resumo num trabalho escolar", afirma Ochs sobre os textos gerados por inteligência artificial que aparecem no topo de buscadores como o Google. "Esse formato naturaliza a ideia de não sabermos a origem da informação e de irmos direto para uma resposta pronta, em vez de fazermos o percurso da investigação. O caminho muitas vezes é trabalhoso, mas é daí que vem o aprendizado."

Para ela, o resumo de IA oferece conveniência, mas retira a possibilidade da autonomia e da construção do conhecimento, que é o que garante uma compreensão mais aprofundada.

O problema, segundo Ochs, não se resolve com detectores de plágio. "Há exemplos de trechos de livros clássicos submetidos a detectores que afirmam ser 100% IA", diz. A saída, defende, é a transparência: professor e aluno combinam, atividade por atividade, onde a inteligência artificial pode participar e onde não pode. Se um professor recebe uma dúzia de trabalhos muito parecidos, o caminho é mudar a atividade. "Num projeto longo, por exemplo, o professor pode permitir a IA na pesquisa inicial, para um brainstorming ou uma revisão ortográfica, mas proibir na fase de escrita", exemplifica. "A solução é a transparência e os combinados, que devem estar presentes nas políticas de uso da IA da escola, na ementa da disciplina e também, caso a caso, nas atividades propostas."

Celular: nem pânico, nem pochete

Em 2024, quando escolas adotaram pochetes trancadas para guardar os aparelhos dos alunos, Ochs classificou a medida como "mais teatral do que eficaz". Dois anos depois, com a Lei nº 15.100/2025, que restringiu o uso de celulares na educação básica, diz que sua posição não mudou. "Nunca fui desfavorável a limitar o uso individual dos dispositivos durante o período escolar. O que mudou foi o entendimento da sociedade", afirma. "Em 2024, estávamos num momento de pânico social, que leva a soluções que apontam um inimigo claro e adotam postura firme. Eu me referia ao simbolismo desagradável de ter algo trancado na escola, algo punitivo."

A legislação aprovada em 2025, segundo ela, encontrou um equilíbrio diferente: a lei restringe o uso não pedagógico, enquanto a resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) torna obrigatória a educação digital e midiática e permite o uso dos dispositivos quando solicitado pelo professor. "Os próprios adolescentes entenderam os malefícios do uso excessivo e não foram contrários à restrição", observa.

Banir menores das redes não funciona

A Austrália baniu menores de 16 anos das principais redes sociais em dezembro de 2025, o primeiro país a adotar a proibição. Os resultados iniciais são desanimadores: um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER), publicado em abril de 2026, mostra que 63,8% dos jovens de 14 e 15 anos sujeitos à proibição continuavam usando plataformas banidas quatro meses depois. Em junho, o percentual chegou a 92,2%.

Para Ochs, o dado confirma que o problema está na arquitetura das plataformas, não na presença dos jovens. "O banimento, além de ineficaz, retira direitos fundamentais dos adolescentes, como o acesso à informação e à participação", argumenta. Ela defende o modelo adotado pelo Brasil com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital, a Lei nº 15.211/2025, em vigor desde março de 2026: em vez de proibir, a legislação distribui responsabilidades entre plataformas, escolas e famílias e exige que contas de menores de 16 anos estejam vinculadas a um responsável.

O papel dos pais

Aos responsáveis, Ochs recomenda que atuem como mentores, não como censores. "O que os pais podem fazer é acompanhar e mediar a entrada dos jovens nos ambientes digitais. Isso significa ativar as opções de segurança, entender que conteúdos são adequados e monitorar o uso. Manter a porta aberta para o diálogo é muito importante para que crianças e jovens se sintam à vontade para recorrer aos pais quando encontrarem algo inadequado", diz. E acrescenta: "É fundamental que nós, adultos, sejamos exemplos. Muitas vezes fazemos um uso irrefletido das redes, perdendo horas e abrindo o celular sem intencionalidade alguma."

O que falta até 2029

Com o Pisa no horizonte, Ochs lista o que o Brasil precisa fazer: consolidar diretrizes curriculares de educação midiática, oferecer formação continuada a professores, expandir a conectividade a todas as escolas e garantir equidade no acesso às tecnologias. "Estamos nos primeiros passos de um longo caminho, mas estou confiante. O Brasil está indo numa direção bem construída, contemporânea e equilibrada, que consiste em aprender com as novas tecnologias e aprender sobre elas", conclui.

Livro: Máquinas entre nós: educação midiática para a geração IA!, de Mariana Ochs;

Download gratuito: educamidia.org

Editora: Instituto Palavra Aberta, com apoio da Arco Educação;

Acervo da autora: marianaochs.com

*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá

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