Eu, Estudante

Enem 2025

Enem 2025 cita Paolla Oliveira e propõe reflexão sobre pressão estética feminina

Questão do exame usa a atriz como exemplo para discutir a padronização da beleza, o papel das redes sociais na vigilância sobre o corpo das mulheres e a necessidade de repensar o gênero na cultura digital

No primeiro dia de aplicação do Enem 2025, realizado neste domingo (9/11), uma das 90 questões da prova chamou a atenção por abordar a pressão estética sobre o corpo feminino. O exame citou a atriz Paolla Oliveira como exemplo de figura pública que enfrenta críticas e comentários sobre sua aparência — reflexo da padronização da beleza e das cobranças sociais impostas às mulheres.

Nos últimos anos, Paolla tem sido uma voz ativa contra esses padrões, expondo nas redes sociais os ataques e julgamentos que recebe por seu corpo e defendendo a autoaceitação. O texto da questão também ampliou o debate ao mencionar casos como o de Margot Robbie, criticada por “não ser bonita o suficiente” para interpretar a Barbie, e ao citar a escritora Naomi Wolf, que em 1991 definiu a dieta como “o sedativo político mais potente na história das mulheres”.

Para Rebeca Monteiro, professora de filosofia do CED 02 do Paranoá, as temáticas de direitos humanos abordadas no exame são reflexo de uma educação pensada sobre debates contemporâneos, já que as legislações que regem esse sistema cobram tais aspectos para a construção de indivíduos integralmente formados.  

“Falando especificamente sobre a problematização em torno do gênero, é de suma importância que se faça cada vez mais presente, já que as redes sociais têm criado uma normalização de misoginia entre os jovens, principalmente meninos”, explica. “O Enem trazer questões concernentes à problemática é uma forma de dar visibilidade para o tema e suscitar uma mudança de perspectiva- ou, minimamente, uma reflexão sobre.”

O enunciado menciona a “padronização da beleza feminina”, historicamente construído e reforçado pela mídia, pela publicidade e, mais recentemente, pelas redes sociais. Rebeca cita a escritora e filósofa inglesa Mary Wollstonecraft ao afirmar que “os direitos da humanidade têm sido confinados à linha masculina desde Adão”, sendo difícil conceber quando se inicia esse processo, mas que é reforçado por Hollywood, por exemplo.

“Não por acaso, mulheres como a própria Margot Robbie são alvo de críticas acerca de sua aparência. Não dá pra deixar de fazer um recorte racial acerca da temática, visto que mulheres não brancas são as maiores vítimas da tentativa de reproduzir mulheres moldadas, e tudo que foge ao caucasiano pode ser gerador de repulsa”, disserta a professora. 

Figuras públicas como Paolla e Margot — que performam o padrão de beleza tradicional —  mostram que até mulheres reconhecidas pela beleza sofrem ataques. “O corpo da mulher vive um reality show permanente: é sempre vigiado e fiscalizado, como se fosse domínio público”, opina Rebeca. Para ela, a frase de Wolf também utilizada na questão retrata uma regra de imobilizar a beleza. “O mandamento é obedecer às regras sociais do bom comportamento corporal, 'como deve ser', não nos atos, mas na forma.”

Vale destacar a importância do posicionamento dessas mulheres sobre pressão estética. A especialista ressalta a escolha da atriz australiana de repudiar o uso de programas de imagem para a manipulação da própria imagem. “A padronização de corpos é o primeiro passo para a padronização de mentes. Existe um sistema que lucra com a insegurança feminina e sempre vai trazer novas formas de gerar mais “defeitos” para que a mulher se sinta inferior. Sentir-se confortável consigo mesma é ato revolucionário”, argumenta. 

Rebeca referencia Simone de Beauvoir na fala “não se nasce mulher, torna-se” ao explicar a tentativa de controle sobre corpos femininos: “Cria-se a ideia de que há um jeito certo de ser mulher, e, não por acaso, o jeito amplamente aceito é o daquela que serve ao gênero oposto. A inferiorização das mulheres, principalmente no aspecto físico, traz nas entrelinhas essa necessidade de subjugar o protagonismo feminino. É inconsistente dizer que essas mulheres são feias, mas ainda assim será dito; é conveniente que se faça outras mulheres pensarem 'se elas são feias, imagine eu'.”

Nas redes sociais, o engajamento aumenta ou diminui conforme o corpo é exposto. “Não por acaso, inúmeras artistas femininas precisam se render à exposição demasiada para que sejam percebidas”, ilustra a professora. “ Ainda assim, esse corpo a ser exibido não pode ser qualquer um: é vítima de vigilância constante, como se precisasse de avaliação contínua para existir.”

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

O fenômeno já era descrito por Michel Foucault como “panoptismo” — um sistema de vigilância contínua e invisível impulsionado pela internet. “Com isso, podemos gerar indivíduos dependentes da validação social em diversos aspectos de si, além de tirar o pertencimento do corpo à dona, mas trazer a ideia de que é algo público a ser discutido, comentado, exibido. A exposição constante pode levar, também, à idealização de corpos irreais e uma busca desenfreada por algo impossível de se conseguir”, Rebeca esclarece. 

Confira a questão completa: 

(29) Margot Robbie foi criticada por "não ser bonita o suficiente" para interpretar a Barbie. Recentemente, Paolla Oliveira foi chamada de gorda. Só fico pensando o que serei eu com mais de 50 (também no peso), com a minha aparência comum. O corpo da mulher vive um reality show permanente: é sempre vigiado e fiscalizado, como se fosse domínio público. A mulher que não atender aos estereótipos está sujeita a sofrer penalidades básicas, como distúrbios, obsessões, medo do próprio corpo e, é claro, dietas à base de rúcula. "A dieta é o sedativo politico mais potente na história das mulheres", escreveu Naomi Wolf, em 1991. A regra é não haver singularidade, mascarar a passagem do tempo, imobilizar a beleza (já imaginou como isso seria enfadonho?). O mandamento é obedecer às regras sociais do bom comportamento corporal, "como deve ser", não nos atos, mas na forma.

Nesse texto, para introduzir a ideia de que a fiscalização permanente sobre o corpo afeta todas as mulheres, a autora

Alternativas:

A) Faz um comentário sobre sua própria imagem.

B) Destaca avaliações particulares entre parênteses.

C) Cita um formato de programa influente no segmento da beleza.

D) Utiliza declaração de uma jornalista como argumento de autoridade.

E) Enumera críticas à aparência de mulheres consideradas padrões de beleza.

 

Gabarito:

E) A fiscalização permanente sobre o corpo – tema central do texto – aparece, a princípio, por meio de uma breve enumeração: a autora apresenta críticas dirigidas a mulheres famosas que, em tese, se enquadram nos padrões de beleza. Ao citar que Margot Robbie (a “Barbie típica” do filme “Barbie”) foi considerada “não bonita o suficiente” e que Paolla Oliveira (até recentemente rainha de bateria de uma grande escola de samba) foi chamada de gorda, a autora abre o texto mostrando como até mulheres reconhecidas por sua beleza são alvo de julgamentos constantes. Essa estratégia é justamente a de listar exemplos de ataques à aparência de mulheres consideradas bonitas, evidenciando que o problema é generalizado. As demais alternativas não correspondem ao modo como o tema é introduzido: a autora não inicia fazendo um comentário pessoal, não utiliza parênteses como recurso central de introdução do tema, não começa citando uma autoridade e tampouco usa, no início, uma declaração de formador de opinião. Assim, a enumeração das críticas às mulheres dentro dos padrões é o mecanismo introdutório predominante, justificando a alternativa E.