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Não passei pelo Sisu. E agora? Especialista orienta estudantes

Negativa em processos seletivos pode gerar frustração, ansiedade e abalar a autoestima, mas não define o futuro acadêmico ou profissional. Entenda os impactos emocionais e saiba quando buscar apoio

Amanda S. Feitoza
postado em 20/01/2026 18:26
A negativa pode afetar diretamente a autoestima e a autoconfiança, tanto no curto quanto no longo prazo -  (crédito: Freepik)
A negativa pode afetar diretamente a autoestima e a autoconfiança, tanto no curto quanto no longo prazo - (crédito: Freepik)

Janeiro costuma ser um mês decisivo para estudantes que concluíram o ensino médio. É nesse período que devem se inscrever para o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e logo vem a expectativa, que marca o fim de um longo ciclo de preparação e o início de uma fase de espera que, segundo especialistas, pode ser emocionalmente desgastante.

De acordo com Anna Dornas, pedagoga e especialista em aprendizagem, o mês representa um “limbo emocional” para muitos jovens. “Após um ano inteiro de dedicação, o estudante sai de uma rotina intensa de estudos e entra em um estado de alerta, de expectativa. O descanso fica carregado de culpa e incerteza. Ele não consegue desligar”, explica. Esse cenário tende a ser ainda mais intenso entre candidatos a cursos de alta concorrência.

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Quando a vaga desejada não vem, os sentimentos mais comuns são frustração e insuficiência. “Costumo comparar esse momento a um luto. O estudante sente que perdeu um ano e acredita ter decepcionado todas as pessoas que apostaram nele”, afirma a especialista. A comparação com colegas aprovados também costuma intensificar a dor, criando a sensação de que ficou para trás.

A negativa pode afetar diretamente a autoestima e a autoconfiança, tanto no curto quanto no longo prazo. Inicialmente, podem surgir desânimo, isolamento e dificuldade para recomeçar. “No longo prazo, quando não há um trabalho de ressignificação, o jovem pode construir uma autoimagem de fracasso e passar a acreditar que não é capaz de aprender ou de lidar com conteúdos mais complexos”, alerta.

Risco de desacreditar no futuro

Segundo a especialista, há risco de o estudante passar a desacreditar do próprio futuro quando a aprovação é vista como a única forma de validação pessoal. “Quando mudar de curso ou de rota passa a ser entendido como um carimbo de insucesso, famílias e adultos próximos precisam ficar atentos”, diz.

Sinais como apatia persistente, alterações no sono e na alimentação, abandono de atividades que antes davam prazer, choro frequente ou agressividade podem indicar que a frustração deixou de ser pontual. “Se esse sofrimento ultrapassa o primeiro mês, já é importante considerar uma avaliação profissional”, orienta.

O acolhimento familiar é considerado fundamental nesse processo, mas deve evitar minimizar a dor. “Frases como ‘isso não é nada’ ou ‘isso não te define’ podem invalidar o sentimento do jovem. A dor é real”, destaca a especialista. Para ela, o mais importante é reconhecer o esforço, oferecer escuta e reforçar que o estudante não está sozinho na busca por novos caminhos.

“É estar ao lado, dizer ‘eu sei que está doendo, eu vi o quanto você se esforçou e estou aqui para pensar nos próximos passos’”, resume.

O insucesso em processos seletivos, segundo a especialista, não limita o futuro acadêmico ou profissional. “Temos inúmeros exemplos de grandes profissionais que levaram anos para alcançar a aprovação. Uma prova não substitui toda a trajetória escolar nem mede o potencial de ninguém”, afirma.

Para desconstruir a ideia de fracasso definitivo, ela recomenda um diagnóstico cuidadoso do processo de aprendizagem. “É preciso entender onde estão as dificuldades reais, o que pode ser aprimorado e quais estratégias precisam mudar. Isso dá consciência do caminho e devolve ao estudante a sensação de controle".

Caminhos alternativos e novos planejamentos

Apresentar alternativas, como listas de espera, ProUni, bolsas de estudo, outros cursos ou até um novo planejamento de preparação, ajuda a reduzir a pressão emocional. “Quando o jovem percebe que não é tudo ou nada, o nível de estresse cai. Com menos pressão, o cérebro aprende melhor e o plano de ação se torna mais eficaz”, explica.

Entre as estratégias práticas para ressignificar a reprovação estão a construção de uma rotina saudável, metas realistas e a valorização de pequenas conquistas. “Estudar mais não significa estudar melhor. Celebrar avanços, por menores que sejam, faz parte do processo”, orienta.

A busca por apoio psicológico é indicada quando o sofrimento começa a gerar prejuízos funcionais. “Ansiedade intensa, compulsões, isolamento prolongado, crises de choro diante dos estudos ou sensação constante de incapacidade são sinais claros de que é hora de procurar ajuda profissional”, diz a especialista.

Uma mensagem para quem não passou

Para os jovens que iniciam o ano com a sensação de terem falhado, a especialista deixa um recado direto: “Você não falhou. Uma prova avalia o desempenho de um dia específico, não o seu potencial nem o tamanho do seu futuro”.

Ela reforça que a negativa pode ser uma oportunidade de autoconhecimento. “Um bom diagnóstico, um plano de ação consistente e uma rotina ajustada são a base da aprovação. Ela não é sorte, é construção. Se não foi agora, respire, se permita descansar e recomece. O caminho continua.”

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