Durante muito tempo, saber quanto uma unidade da Universidade de Brasília (UnB) tinha disponível para gastar podia ser uma tarefa tão complexa quanto administrar o próprio orçamento. Os dados estavam registrados nos sistemas oficiais do Governo Federal, mas transformá-los em informação útil exigia conhecimento técnico, acesso a sistemas específicos e, muitas vezes, a solicitação de relatórios às áreas responsáveis. É justamente essa distância entre o dado e quem precisa dele que a UnB reduz com o Painel Gestão UnB, lançado em novembro de 2025.
Desenvolvida pelo Decanato de Administração (DAF) e pelo Decanato de Planejamento, Orçamento e Avaliação (DPO), com apoio dos laboratórios InsightGov e Latitude e recursos da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), a ferramenta organiza informações orçamentárias e financeiras em uma plataforma visual e de consulta pública. "Essa era a barreira real: um diretor de faculdade, instituto ou centro precisava recorrer às áreas técnicas até para saber quanto tinha disponível no próprio orçamento. Para o cidadão comum, a dificuldade era ainda maior", relata o decano de Administração, Jeremias Pereira da Silva Arraes.
O painel reúne sete dimensões da execução orçamentária: orçamento anual, disponibilidade orçamentária, restos a pagar, saldo dos empenhos, emendas parlamentares, pagamentos realizados e previsão de despesas. Filtros, indicadores, gráficos e um glossário ajudam a traduzir conceitos que normalmente permanecem restritos à linguagem contábil. "A execução orçamentária pública tem conceitos e etapas que não são intuitivos para quem está fora da área — e o desafio não era simplesmente jogar os dados em um gráfico. Um número isolado pode estar tecnicamente correto e, ainda assim, induzir a uma leitura equivocada se não vier acompanhado de contexto", afirma Arraes.
A ferramenta permite que gestores acompanhem quanto receberam, quanto já empenharam, liquidaram e pagaram e quais recursos permanecem disponíveis. O objetivo é substituir a dependência de relatórios solicitados às áreas técnicas por uma consulta mais autônoma. "O painel transforma o orçamento em uma ferramenta efetiva de gestão, não apenas em um repositório de dados", diz o decano. "Primeiro, o painel dá visibilidade ao dado; depois, permite que o gestor compreenda sua real situação orçamentária; e, a partir dessa compreensão, ele tem melhores condições para decidir sobre prioridades e uso dos recursos públicos", completa.
Leia também as reportagens anteriores da série:
- Administradores impulsionam vidas por meio de modelo humanizado de negócios
- Estratégias projetam o Brasil com gestão de excelência que fortalece as regiões e agregam valor à sustentabilidade
- Gestores mostram que, em relação à IA, o diferencial estratégico deve vir do topo
A transparência também muda a relação da UnB com estudantes, professores, técnicos, pesquisadores e cidadãos. Todos podem consultar uma mesma base para acompanhar a execução dos recursos. "Quando todos consultam a mesma fonte, o debate muda de qualidade", afirma Arraes. "As discussões sobre orçamento deixam de depender de números apresentados pontualmente em reuniões ou documentos e passam a poder ser verificadas diretamente pela própria comunidade", defende.
O painel não substitui auditorias. O ganho está no fortalecimento da governança interna e na organização das informações para monitoramento e prestação de contas. A experiência já foi replicada em outro órgão e despertou interesse de instituições federais. "Mais do que uma ferramenta pronta para ser simplesmente copiada, o que a UnB tem a oferecer é um modelo", afirma Arraes.
A Justiça que ensina
Semeando cidadania a longo prazo
Da informação à participação
Os três casos partem de problemas diferentes, mas revelam uma mesma estratégia de gestão: identificar a distância entre a instituição pública e a sociedade e criar mecanismos para reduzi-la. Na UnB, o obstáculo é a complexidade dos dados. No TJDFT, a distância simbólica entre a Justiça e o cidadão. No TCDF, o desconhecimento sobre o funcionamento do Estado e sobre o direito de fiscalizá-lo. Em comum, há a aposta em informação, educação, tecnologia e cooperação institucional. O resultado não está apenas na criação de ferramentas ou programas, mas na capacidade de fazer com que mais pessoas compreendam, acompanhem e participem daquilo que é público.
As experiências revelam, sob a perspectiva da administração pública, diferentes etapas de uma mesma estratégia de aproximação entre Estado e sociedade. A educação cidadã oferece o repertório para compreender como funcionam as instituições; a imersão, por meio de visitas e simulações, torna esse funcionamento concreto; e a transparência ativa fornece os dados necessários para que o cidadão acompanhe, interprete e fiscalize a gestão.
Para Emerson Clayton Arantes, diretor de Gestão Pública do Conselho Federal de Administração (CFA), essas iniciativas se reforçam mutuamente: "Transparência sem educação produz 'opacidade por excesso', com milhares de dados que ninguém consegue interpretar", enquanto a educação sem acesso à informação "gera frustração e descrédito". A combinação permite transformar informação em conhecimento e conhecimento em participação, desde que a linguagem técnica seja acompanhada de mediação, acessibilidade e ferramentas que permitam ao cidadão avançar do conteúdo mais simples ao dado detalhado.
O especialista também chama atenção para o desafio de fazer com que experiências bem-sucedidas deixem de depender de projetos isolados ou de gestores específicos e adquiram continuidade institucional. Para isso, aponta a necessidade de governança formal, equipes e orçamento permanentes, articulação entre órgãos, avaliação baseada não apenas em quantidade de acessos ou participantes, mas em compreensão, uso dos dados, participação e efeitos sobre a gestão. Nesse sentido, os três casos podem ser compreendidos como experiências de uma transformação mais ampla: a passagem de um Estado que apenas informa para um Estado que cria condições para que a sociedade compreenda, participe e fiscalize. "O que transforma o país não é um projeto brilhante, e sim a repetição consistente e a articulação dessas práticas em toda a administração pública", afirma Arantes.
Saiba Mais
-
Trabalho & Formação
Pronatec oferece 1,5 mil vagas em cursos ligados à sustentabilidade
-
Trabalho & Formação
Sebrae entrega 665 certificados a novos empreendedores no DF
-
Trabalho & Formação
Iges-DF abre processo seletivo para assistente social
-
Trabalho & Formação
AgSUS abre vagas com salários de até R$ 17,7 mil para saúde indígena no DF
Trabalho & Formação
Trabalho & Formação
Trabalho & Formação
Trabalho & Formação