administração que transforma o país

Gestores públicos levam transparência e educação cidadã à população

Com transparência de informações baseadas em inovação tecnológica e educação de base, instituições como UnB, TJDFT e TCDF apontam exemplos bem-sucedidos de como a gestão aproxima o poder público brasileiro da sociedade

Patrick Selvatti
postado em 27/09/2026 06:00
 Equipe executora do projeto TCendo o futuro, da Escola de Contas Públicas do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), liderada por Ivana Dessen
 -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Equipe executora do projeto TCendo o futuro, da Escola de Contas Públicas do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), liderada por Ivana Dessen - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Durante muito tempo, saber quanto uma unidade da Universidade de Brasília (UnB) tinha disponível para gastar podia ser uma tarefa tão complexa quanto administrar o próprio orçamento. Os dados estavam registrados nos sistemas oficiais do Governo Federal, mas transformá-los em informação útil exigia conhecimento técnico, acesso a sistemas específicos e, muitas vezes, a solicitação de relatórios às áreas responsáveis. É justamente essa distância entre o dado e quem precisa dele que a UnB reduz com o Painel Gestão UnB, lançado em novembro de 2025.

Desenvolvida pelo Decanato de Administração (DAF) e pelo Decanato de Planejamento, Orçamento e Avaliação (DPO), com apoio dos laboratórios InsightGov e Latitude e recursos da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), a ferramenta organiza informações orçamentárias e financeiras em uma plataforma visual e de consulta pública. "Essa era a barreira real: um diretor de faculdade, instituto ou centro precisava recorrer às áreas técnicas até para saber quanto tinha disponível no próprio orçamento. Para o cidadão comum, a dificuldade era ainda maior", relata o decano de Administração, Jeremias Pereira da Silva Arraes.

O painel reúne sete dimensões da execução orçamentária: orçamento anual, disponibilidade orçamentária, restos a pagar, saldo dos empenhos, emendas parlamentares, pagamentos realizados e previsão de despesas. Filtros, indicadores, gráficos e um glossário ajudam a traduzir conceitos que normalmente permanecem restritos à linguagem contábil. "A execução orçamentária pública tem conceitos e etapas que não são intuitivos para quem está fora da área — e o desafio não era simplesmente jogar os dados em um gráfico. Um número isolado pode estar tecnicamente correto e, ainda assim, induzir a uma leitura equivocada se não vier acompanhado de contexto", afirma Arraes.

A ferramenta permite que gestores acompanhem quanto receberam, quanto já empenharam, liquidaram e pagaram e quais recursos permanecem disponíveis. O objetivo é substituir a dependência de relatórios solicitados às áreas técnicas por uma consulta mais autônoma. "O painel transforma o orçamento em uma ferramenta efetiva de gestão, não apenas em um repositório de dados", diz o decano. "Primeiro, o painel dá visibilidade ao dado; depois, permite que o gestor compreenda sua real situação orçamentária; e, a partir dessa compreensão, ele tem melhores condições para decidir sobre prioridades e uso dos recursos públicos", completa.

Leia também as reportagens anteriores da série: 

A transparência também muda a relação da UnB com estudantes, professores, técnicos, pesquisadores e cidadãos. Todos podem consultar uma mesma base para acompanhar a execução dos recursos. "Quando todos consultam a mesma fonte, o debate muda de qualidade", afirma Arraes. "As discussões sobre orçamento deixam de depender de números apresentados pontualmente em reuniões ou documentos e passam a poder ser verificadas diretamente pela própria comunidade", defende.

O painel não substitui auditorias. O ganho está no fortalecimento da governança interna e na organização das informações para monitoramento e prestação de contas. A experiência já foi replicada em outro órgão e despertou interesse de instituições federais. "Mais do que uma ferramenta pronta para ser simplesmente copiada, o que a UnB tem a oferecer é um modelo", afirma Arraes. 

 18.09.2026 Carlos Vieira CB/DA Press. Decanato de Administração e Finanças (DAF)- UnB e Professora Doriana Daroit, em primeiro plano
Equipe responsável pelo Painel Gestão UnB: em primeiro plano, a professora Doriana Daroit e o decano de Administração e Finanças, Jeremias Arraes (foto: Carlos Vieira CB/DA Press.)

A Justiça que ensina

Se na UnB a inovação aproxima o cidadão dos números da administração, no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios ela começa pela aproximação entre a Justiça e quem ainda está formando sua compreensão sobre direitos e deveres.
Criado em 2025, em parceria com a Secretaria de Educação do DF, o Programa Conhecendo a Justiça do DF estabelece uma via de mão dupla: "A Escola vai à Justiça" e "A Justiça vai à Escola". Coordenada pela Escola de Formação Judiciária do TJDFT (EjuDFT), dirigida pela desembargadora Gislene Pinheiro, a iniciativa leva estudantes ao Tribunal e magistrados e servidores às escolas.
"O programa parte de uma premissa muito simples: a Justiça precisa ser conhecida para ser verdadeiramente acessível", afirma Gislene. E reforça: "Ao aproximar o Tribunal das escolas e os estudantes do Tribunal, o programa cria uma via de mão dupla entre duas instituições fundamentais para a formação cidadã".
Os alunos conhecem espaços do Tribunal, participam de atividades como design thinking, bingo jurídico e audiência simulada e conversam diretamente com magistrados. Também discutem temas relacionados ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) a partir de situações próximas de sua realidade. "O impacto de uma ação educacional não está necessariamente relacionado à sua complexidade ou ao seu custo", explica Gislene. "Muitas vezes, uma experiência concreta e significativa produz mais aprendizagem do que uma grande quantidade de informação transmitida de maneira exclusivamente teórica", acrescenta.
A proposta é transformar o estudante em protagonista. Em vez de apenas ouvir sobre o funcionamento do Judiciário, ele pergunta, participa e experimenta. "O que antes poderia parecer algo abstrato ganha rostos, situações e significado", afirma a desembargadora.
Para transformar visitas pontuais em uma política contínua, o TJDFT precisou articular órgãos, preparar equipes, definir fluxos e adaptar as atividades às diferentes faixas etárias. A avaliação também vai além da quantidade de escolas atendidas. Pesquisas de satisfação ajudam a identificar o que os alunos compreenderam, suas dúvidas e mudanças na percepção sobre o Judiciário. "O verdadeiro sucesso está em fazer com que, depois da experiência, o estudante saia do Tribunal sabendo mais sobre a Justiça, sentindo-se mais próximo dela e reconhecendo-se como sujeito de direitos e deveres", diz Gislene.
O programa também trabalha a equidade. "O acesso à Justiça começa muito antes de uma pessoa precisar ingressar em um processo. Ele começa pelo conhecimento dos próprios direitos e pela compreensão de onde buscar proteção quando esses direitos são violados", afirma a desembargadora.
O contato com magistrados e servidores ainda apresenta aos jovens possibilidades profissionais. Mas a intenção, segundo Gislene, vai além de despertar vocações: é formar cidadãos capazes de reconhecer seus direitos e buscar os canais institucionais adequados para garanti-los.
A experiência também reforça a importância da cooperação entre instituições. "O Judiciário possui o conhecimento sobre a Justiça; a escola possui a experiência cotidiana com os estudantes; professores conhecem a realidade de suas comunidades; magistrados e servidores podem traduzir sua experiência profissional em conhecimento acessível", explica a diretora do projeto. "Quando essas competências se encontram, todos ganham e, principalmente, ganha o cidadão", resume.
A formação não termina nos estudantes. Em parceria com a UnB, o TJDFT iniciou o primeiro Doutorado Profissional em Administração Pública para magistrados e servidores, com pesquisas voltadas a desafios concretos da instituição, como acesso à Justiça, governança, inovação, gestão de dados e avaliação de políticas públicas. "Esses estudos contribuem para a geração de conhecimento aplicado e de propostas concretas de melhoria aos problemas reais enfrentados pela instituição", afirma Gislene.
Em um cenário marcado pela inteligência artificial, a qualificação ganha outra dimensão. "Não basta conhecer as novas ferramentas, é preciso compreender seus impactos, oportunidades, riscos e limites", finalzia Gislene. A Escola vem investindo em capacitações, guias e referenciais para o uso ético e responsável da tecnologia. A lógica é semelhante à do painel da UnB: a inovação só faz sentido quando melhora a relação entre a instituição pública e a sociedade. 
22/09/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Desembargadora Gislene Pinheiro diretora da Escola de formação Judiciária
22/09/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Desembargadora Gislene Pinheiro diretora da Escola de formação Judiciária (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Semeando cidadania a longo prazo

Existe, porém, um passo anterior. Antes de acompanhar os dados ou procurar a Justiça, é preciso saber que o Estado pertence à coletividade e que qualquer cidadão pode participar do controle sobre aquilo que é público. É essa consciência que o Tribunal de Contas do Distrito Federal procura estimular por meio do TCendo o Futuro.
Desenvolvido pela Escola de Contas Públicas do TCDF, dirigida por Ivana Dessen, o projeto leva crianças e jovens ao ambiente do Tribunal e os coloca nos papéis de gestores, auditores e conselheiros. A proposta é explicar, por meio de experiências práticas, conceitos como planejamento, orçamento, fiscalização e responsabilidade com o dinheiro público. "A essência do TCendo o Futuro é formar cidadãos conscientes da sua capacidade de transformar a gestão pública. Quando levamos a linguagem do controle social para as crianças, estamos semeando a cidadania ativa a longo prazo, ensinando desde cedo como funciona a democracia e qual é o valor do bem público", afirma Ivana. 
Para a diretora, a formação da sociedade complementa a capacitação dos agentes públicos. "Capacitar os servidores e gestores é um pilar. Preparar a sociedade para dialogar, acompanhar e fiscalizar é o outro", resume. A metodologia aposta na experiência. Ao assumir funções de tomada de decisão e fiscalização, os estudantes deixam de ser espectadores e experimentam a complexidade das escolhas públicas. "Para a formação do cidadão, essa vivência prática desmistifica o orçamento público e mostra que cada centavo arrecadado em impostos deve retornar em serviços para a sociedade", afirma Ivana. "O aluno aprende a identificar problemas e a exigir soluções de forma crítica e fundamentada", complementa.
A experiência também pretende influenciar os futuros gestores: "Para os futuros gestores públicos, a experiência planta a semente da ética, do planejamento e do respeito ao erário desde cedo".
O projeto conquistou o primeiro lugar na categoria Fiscalização do 11º Prêmio Associação brasileira de Escolas Legislativas (Abel) 2026. O reconhecimento se soma aos resultados observados nas escolas e no próprio TCDF. Entre os estudantes, a equipe identifica maior consciência sobre patrimônio público e participação social. Nas escolas, professores relatam ampliação do repertório dos alunos e do sentimento de pertencimento às instituições. "Cada edição nos oxigena. O TCendo o Futuro humaniza o Tribunal e nos ensina a adaptar nossa linguagem", reflete Ivana.
Essa adaptação é resultado de um processo permanente de escuta. A equipe conversa com professores e gestores e modifica atividades, logística e recursos pedagógicos de acordo com o perfil dos estudantes. A iniciativa, por exemplo, passou a alcançar escolas mais distantes e adaptou suas dinâmicas para receber crianças com deficiência auditiva. "Ele é um projeto vivo e dinâmico. A partir de uma escuta ativa com professores e gestores, ajustamos constantemente nossas ações — não existe uma edição igual à outra", explica a diretora.
O aprendizado ultrapassou o público infantil. Ao traduzir conceitos de orçamento e fiscalização para crianças, a própria Escola de Contas aprimorou sua comunicação com servidores e jurisdicionados. "Se conseguimos tornar o controle externo claro para uma criança, conseguimos tornar nossas capacitações mais diretas, transparentes e eficientes para os próprios servidores e jurisdicionados", supõe.
O desafio agora é ampliar o alcance. A intenção é chegar às escolas mais distantes do Distrito Federal e consolidar o TCendo o Futuro como política permanente de educação para a cidadania, transparência e controle social.
 21/09/2026. Ed Alves/CB/D.A Press. Trabalho & Formação Profissional. Tcendo o Futuro.
Executora do projeto TCendo o futuro, da Escola de Contas Públicas do TCDF, Ivana Dessen (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Da informação à participação

Os três casos partem de problemas diferentes, mas revelam uma mesma estratégia de gestão: identificar a distância entre a instituição pública e a sociedade e criar mecanismos para reduzi-la. Na UnB, o obstáculo é a complexidade dos dados. No TJDFT, a distância simbólica entre a Justiça e o cidadão. No TCDF, o desconhecimento sobre o funcionamento do Estado e sobre o direito de fiscalizá-lo. Em comum, há a aposta em informação, educação, tecnologia e cooperação institucional. O resultado não está apenas na criação de ferramentas ou programas, mas na capacidade de fazer com que mais pessoas compreendam, acompanhem e participem daquilo que é público.

As experiências revelam, sob a perspectiva da administração pública, diferentes etapas de uma mesma estratégia de aproximação entre Estado e sociedade. A educação cidadã oferece o repertório para compreender como funcionam as instituições; a imersão, por meio de visitas e simulações, torna esse funcionamento concreto; e a transparência ativa fornece os dados necessários para que o cidadão acompanhe, interprete e fiscalize a gestão.

Para Emerson Clayton Arantes, diretor de Gestão Pública do Conselho Federal de Administração (CFA), essas iniciativas se reforçam mutuamente: "Transparência sem educação produz 'opacidade por excesso', com milhares de dados que ninguém consegue interpretar", enquanto a educação sem acesso à informação "gera frustração e descrédito". A combinação permite transformar informação em conhecimento e conhecimento em participação, desde que a linguagem técnica seja acompanhada de mediação, acessibilidade e ferramentas que permitam ao cidadão avançar do conteúdo mais simples ao dado detalhado.

O especialista também chama atenção para o desafio de fazer com que experiências bem-sucedidas deixem de depender de projetos isolados ou de gestores específicos e adquiram continuidade institucional. Para isso, aponta a necessidade de governança formal, equipes e orçamento permanentes, articulação entre órgãos, avaliação baseada não apenas em quantidade de acessos ou participantes, mas em compreensão, uso dos dados, participação e efeitos sobre a gestão. Nesse sentido, os três casos podem ser compreendidos como experiências de uma transformação mais ampla: a passagem de um Estado que apenas informa para um Estado que cria condições para que a sociedade compreenda, participe e fiscalize. "O que transforma o país não é um projeto brilhante, e sim a repetição consistente e a articulação dessas práticas em toda a administração pública", afirma Arantes. 

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