REFORMA DO JUDICIÁRIO

Dino propõe nova reforma para destravar 75 milhões de processos no Judiciário

Com foco em agilidade e ética, ministro do STF sugere mudanças que vão do combate à corrupção interna ao fim da aposentadoria compulsória como punição para magistrados

Os dados do Relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), revelam atrasos críticos que fundamentam a necessidade da reforma, segundo o ministro -  (crédito: Luiz Silveira / STF)
Os dados do Relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), revelam atrasos críticos que fundamentam a necessidade da reforma, segundo o ministro - (crédito: Luiz Silveira / STF)

O Judiciário brasileiro começou 2026 com um estoque de 75,5 milhões de processos pendentes até 28 de fevereiro e mais de 5,6 milhões de novas ações protocoladas apenas nos dois primeiros meses do ano. Diante desse cenário de congestionamento e de recentes denúncias de interferências indevidas, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), defende a urgência de uma nova reforma do sistema, 22 anos após a última grande mudança constitucional no setor.

A proposta visa fortalecer o sistema de Justiça para garantir segurança jurídica, velocidade e combate à corrupção interna, se afastando de medidas meramente “retaliatórias” ou “autoritárias”. O magistrado trouxe esses pontos no artigo “A Nova Reforma do Judiciário”, publicado no portal ICL Notícias.

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Os dados do Relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), revelam atrasos críticos que fundamentam a necessidade da reforma, segundo o ministro. Ele julga que as execuções fiscais são o principal fator de morosidade, representando 31% dos casos pendentes e 59% das execuções, com uma taxa de congestionamento de 87,8%, uma tramitação média que supera os sete anos e que, sem esses processos, o índice global de congestionamento cairia de 70,5% para 64,7%.

Dino também traz que processos de crimes contra a vida levam, em média, 3.705 dias (mais que 10 anos) para a tramitação total. Crimes de estupro de vulnerável demoram cerca de 617 dias, e atos de improbidade administrativa aguardam 1.803 dias para serem concluídos.

Segundo o ministro, o debate sobre a reforma se intensificou após decisões do Supremo em temas sensíveis como armamentismo, fake news, emendas parlamentares e os ataques de 8 de janeiro de 2023.

A nova reforma delineada pelo magistrado abrande mudanças estruturais e éticas em pontos principais:

  • Acesso aos Tribunais Superiores: novos requisitos processuais para recursos ao STJ e STF para agilizar as ações;

  • Precatórios: definição de critérios para expedição e cessão de créditos a empresas/fundos para eliminar precatórios fraudulentos;

  • Instâncias especializadas: criação de núcleos ágeis nos tribunais para julgar crimes contra a pessoa, crimes sexuais e improbidade administrativa;

  • Agências reguladoras: criação de um rito judicial próprio para examinar decisões dessas agências, buscando segurança jurídica em grandes investimentos;

  • Crimes contra a administração da Justiça: revisão do Código Penal para endurecer penas de corrupção, peculato e prevaricação para juízes, promotores e advogados;

  • Julgamentos disciplinares conexos: procedimentos para quando magistrados, promotores e advogados estiverem envolvidos na mesma infração;

  • Justiça Eleitoral: medidas para evitar o prolongamento indevido de processos que causam insegurança política;

  • CNJ e CNMP: mudanças na composição e competência dos conselhos para tornar a fiscalização e punição de ilegalidades mais eficientes;

  • Carreiras jurídicas: revisão de ética e remuneração, incluindo o fim da aposentadoria compulsória punitiva e da multiplicação de verbas indenizatórias;

  • Sessões virtuais: estabelecimento de critérios claros para julgamentos virtuais em tribunais e varas;

  • Competências constitucionais: revisão das atribuições do STF e dos Tribunais Superiores;

  • Presença física: garantia de que juízes e membros do sistema de Justiça estejam fisicamente presentes nas comarcas e unidades de lotação;

  • Inteligência artificial: criação de regras e limites para o uso de IA na tramitação de processos;

  • Transparência de fundos: maior controle sobre a arrecadação e uso dos Fundos de Modernização e de honorários da Advocacia Pública;

  • Desjudicialização: medidas para reduzir o estoque de processos, com foco inicial na retirada das execuções fiscais do Judiciário;

Contexto

A urgência da reforma proposta por Flávio Dino é reforçada por pronunciamentos de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em abril deste ano. O ministro Marco Aurélio Bellizze alertou que o volume de processos compromete a qualidade técnica das decisões, enquanto o ministro João Otávio Noronha, no dia 14, denunciou o crescimento de tentativas de influência e “venda de votos” no cenário jurídico de Brasília.

O ministro do STF argumenta que, ao contrário da reforma de 1977, realizada por ato autoritário durante a ditadura militar, a nova mudança deve ser construída de forma dialógica, com a participação do Congresso Nacional e de entidades de classe, inspirada nos Pactos entre os Poderes de 2004 e 2009. O objetivo central é entregar uma Justiça “rápida, acessível e confiável”.

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postado em 20/04/2026 12:48
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