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Caso Master chega ao Congresso com operação da PF contra Ciro Nogueira

Senador é alvo de diligência por suspeita de receber propinas para trabalhar pelos interesses de Vorcaro no Parlamento

Conforme as investigações, Ciro Nogueira recebia mesada de Vorcaro que ia de R$ 300 mil a R$ 500 mil, além de outras vantagens  -  (crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado)
Conforme as investigações, Ciro Nogueira recebia mesada de Vorcaro que ia de R$ 300 mil a R$ 500 mil, além de outras vantagens - (crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

A investigação da Polícia Federal sobre as fraudes envolvendo o Banco Master iniciou a trajetória que mira o alto escalão da organização criminosa montada para operacionalizar o esquema de lavagem de dinheiro e pagamento de propina. A nova fase das diligências chegou ao Congresso Nacional, ao focar no senador Ciro Nogueira (PP-PI), influente político do Centrão e alvo de buscas da PF nessa quinta-feira. A casa do parlamentar, no Lago Sul, foi visitada por guarnições da corporação, por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

Nogueira estava em casa quando os agentes chegaram. O senador se tornou alvo após investigadores encontrarem conversas dele com Daniel Vorcaro, dono do Master. Além disso, diálogos do ex-banqueiro com terceiros apontam que o parlamentar recebia mesadas de Vorcaro.

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De acordo com relatório da PF, o gabinete de Nogueira no Senado funcionava como um verdadeiro puxadinho do Master. Sustenta a corporação que ele "instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar".

Nogueira é suspeito de receber valores entre R$ 300 mil e R$ 500 mil por mês, de adquirir participação societária com "expressivo deságio" e de ter viagens, hospedagens em hotéis de luxo em Nova York, despesas em restaurantes de alto padrão pagas por Vorcaro. O empresário também teria disponibilizado um cartão de crédito para o senador.

"No plano patrimonial, aponta-se a percepção de vantagens reiteradas, materializadas por pagamentos mensais, aquisição societária com expressivo deságio, custeio de despesas pessoais e fruição de bens de elevado valor, além de indícios de recebimento de numerário em espécie", diz a decisão do magistrado.

Em troca, Nogueira usava seu mandato para defender os interesses de Vorcaro. De acordo com a decisão dessa quinta-feira, um dos principais episódios investigados envolve a apresentação da Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, protocolada por Nogueira em agosto de 2024. A proposta ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A PF sustenta que o texto teria sido elaborado pela assessoria do Banco Master e posteriormente reproduzido "de forma integral" pelo parlamentar no Senado.

A apuração destaca mensagens que indicam que Vorcaro comemorou a apresentação da emenda, afirmando que o texto "saiu exatamente como mandei". Segundo a PF, interlocutores ligados ao banco chegaram a afirmar que a mudança "sextuplicaria" os negócios do Master e provocaria uma "hecatombe" no mercado financeiro.

Ainda conforme a investigação, esse não teria sido um caso isolado. A PF afirma que, em novembro de 2023, minutas de projetos de lei de interesse de Vorcaro teriam circulado entre a residência do senador e pessoas ligadas ao ex-banqueiro antes de serem encaminhadas ao gabinete parlamentar. As diligências apontam que Vorcaro revisava projetos de lei a serem propostos por Nogueira.

De acordo com os investigadores, os repasses a Nogueira eram operacionalizados por Felipe Cançado Vorcaro, primo do dono do Master. Ele também foi alvo da operação dessa quinta-feira e único detido temporariamente, por ordem de Mendonça.

Outro alvo da PF foi Raimundo Nogueira Lima, irmão de Ciro Nogueira. Ele terá de usar tornozeleira eletrônica e está proibido de deixar o município de residência. Também deverá entregar o passaporte em até 48 horas. De acordo com as apurações, Lima era o "agente de sustentação formal e operacional" de uma empresa ligada à família do senador, a CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda, suspeita de dar cobertura documental à transferência das vantagens recebidas pelo parlamentar.

O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defende Ciro, criticou a decisão que autorizou mandados de busca e apreensão contra o senador. Em coletiva de imprensa realizada após a ação da Polícia Federal, o defensor afirmou que a medida causa “estranheza” por, segundo ele, ter sido baseada em informações extraídas do celular de terceiros.

Segundo Kakay, a defesa teve acesso apenas à decisão do ministro André Mendonça e ainda desconhece o conteúdo completo da investigação. O advogado afirmou que o próximo passo será solicitar acesso integral aos autos para compreender os fundamentos da operação e os elementos reunidos pela PF.

Na semana passada, o Correio adiantou que a Operação Compliance Zero teria novos desdobramentos a partir do material colhido em dois dos oito celulares de Vorcaro que foram apreendidos em etapas anteriores.

A condução do caso deve ser turbinada nos próximos dois meses, caso a PF e o Ministério Público aceitem uma proposta de delação entregue na quarta-feira por Vorcaro. Quando preparou a operação dessa quinta-feira, a PF já sabia do conteúdo da colaboração, mas a avaliou como superficial e pediu novas informações e aprofundamento do papel de autoridades com foro. A diligência que mirou Ciro se baseia inteiramente em materiais que foram colhidos pelos investigadores, não em depoimentos colhidos em acordos de delação.

 

 

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postado em 08/05/2026 03:55
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