
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, afirmou que o futuro do Judiciário deve ser consolidado como um processo contínuo de aperfeiçoamento pautado pela fraternidade, pela dignidade humana e pela responsabilidade compartilhada. O magistrado participou da abertura do seminário “A Justiça do Amanhã”, realizado nesta sexta-feira (19/6), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
Diante de especialistas e acadêmicos, o ministro ressaltou que a Justiça não é um “ponto de chegada”, mas uma direção coletiva que exige a correção de imperfeições a cada geração.
Fachin destacou que o futuro não é um destino distante, mas uma construção que começa no presente por meio das escolhas institucionais e tecnológicas atuais. Ele utilizou a expressão latina “festina lente” (apressa-te lentamente) para definir a postura necessária diante das transformações: agir com urgência, mas sem abrir mão da prudência, pois nenhuma mudança duradoura nasce da pressa desordenada.
Para o magistrado, a imagem tradicional da Justiça — olhos vendados com uma balança na mão — precisa ser complementada por “olhos abertos” para enxergar realidades complexas e pela “mão estendida” para reconstruir possibilidades de convivência, em vez de apenas aprofundar rupturas.
O impacto da inteligência artificial (IA) e da transformação digital foi um dos eixos centrais do debate. Ao analisar o tema, o presidente do Supremo estabeleceu uma distinção clara entre a eficiência dos dados e a experiência humana.
Ele reconheceu que a tecnologia é superior no processamento e na organização de informações, além de ser eficaz na redução de burocracias e na identificação de precedentes. No entanto, alertou que os sistemas automatizados possuem limitações críticas, pois não são capazes de compartilhar sofrimento, demonstrar empatia ou assumir a responsabilidade moral de decidir sobre a vida de terceiros.
Diante desse cenário, o ministro defendeu que o combate à desinformação e à manipulação algorítmica exige um esforço conjunto e coordenado entre as plataformas digitais, o Poder Legislativo, a imprensa, a academia e a sociedade civil.
O segundo grande desafio detalhado foi a emergência climática, descrita como a maior questão intergeracional da humanidade. Fachin citou o pensador indígena Ailton Krenak para lembrar que “a vida não é útil”, ou seja, possui valor em si mesma e não deve ser vista apenas como um “recurso” a ser explorado.
Ele enfatizou que os tribunais já lidam com temas como racismo ambiental, proteção de biomas e direitos de gerações futuras, exigindo que a Justiça olhe para além dos conflitos imediatos.
Durante o evento, a fraternidade foi apontada como o fundamento ético essencial para evitar que a igualdade se torne uma abstração e a liberdade seja reduzida a um privilégio. O discurso também reforçou o compromisso com a proteção da privacidade e dos dados pessoais, classificando essa garantia como uma nova dimensão da dignidade humana no século XXI.
Fachin encerrou reforçando que a autoridade da Justiça nasce da confiança da sociedade e que a mensagem para as futuras gerações deve ser a preservação da hospitalidade em vez da hostilidade na vida pública.

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