
O corpo virou uma fonte de dados. Passos, batimentos cardíacos, calorias, qualidade do sono, estresse, recuperação e até a intensidade de um treino podem ser acompanhados por dispositivos que cabem no pulso, no dedo ou na tela do celular. A tecnologia também chegou à alimentação, com aplicativos capazes de registrar refeições, calcular nutrientes e auxiliar na organização da rotina.
Mais recentemente, os smart rings ganharam espaço ao transformar o dedo em mais um ponto de monitoramento contínuo. A promessa é transformar números em autoconhecimento. Modelos como o Galaxy Ring, da Samsung, utilizam sensores para acompanhar frequência cardíaca, movimento e temperatura da pele, além de sono e pontuação de energia. A geração mais recente do Oura Ring também aposta em monitoramento de sono, atividade e recuperação, com recursos de inteligência artificial.
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Jordana Muner, 25 anos, profissional de relações governamentais, iniciou o uso da tecnologia para monitorar o desempenho durante os exercícios. "Comecei a usar tecnologia para entender melhor a intensidade dos meus treinos e identificar os dias em que tenho um desempenho melhor ou pior", conta.
Na academia e nas corridas, ela inicia o exercício pelo relógio e compara os resultados com os outros dias da semana. "O que mais gosto é ter um histórico dos treinos e conseguir ver quando fui melhor ou pior e quando bati ou não minhas metas. Isso me motiva a continuar e a tentar melhorar", afirma.
A estudante Narla Beatriz, 21, também utiliza um relógio inteligente, adquirido por sugestão do irmão. "Eu sempre gostei de treinar, mas sentia falta de um aparelho que registrasse minhas metas e objetivos", relata. Além dos exercícios, ela usa o dispositivo para observar o sono e o nível de estresse. "Eu uso o relógio, praticamente, em todos os momentos, pois ele me ajuda a manter uma boa rotina e mostrar quando eu devo descansar um pouco da correria", explica.
Os números chegaram a mudar a organização das atividades de Narla. "Antes, eu acabava não priorizando a ordem nem a duração dos treinos. Com o aparelho, eu acabo montando meus treinos de acordo com o efeito mais benéfico, seguindo as estatísticas do pós-treino", diz.
Mais dados, mais consciência?
A professora Maria Aparecida de Almeida, 37 anos, combina um SmartWatch com um aplicativo de treino, alternativa encontrada após reduzir os encontros presenciais com a personal. "Os aplicativos deixam os dados mais claros e fazem com que a gente consiga criar metas e estabelecer objetivos mais reais", justifica.
Mas, para a personal trainer Paula Paiva, existe diferença entre registrar informações e saber interpretá-las. "Algumas (tecnologias) inferiores não são exatas, mas dispositivos como o Garmin são bem confiáveis", avalia. "Nunca irá substituir o acompanhamento presencial, porém, se o aluno tiver um nível de consciência corporal e de execuções, é mais seguro seguir só com app. Caso contrário, não é o melhor ponto de partida", alerta Paula.
Aplicativos podem sugerir exercícios, organizar séries e acompanhar cargas, enquanto sistemas de inteligência artificial prometem personalizar as atividades. Para Paula, existe um limite. "A inteligência artificial vai atuar de forma superficial, sem considerar padrões de postura, execução real e adaptações necessárias", explica.
E o que vai para o prato?
Se o treino pode virar gráfico, a alimentação também. Para a nutricionista Danielle Luz Gonçalves, coordenadora do curso de nutrição do Centro Universitário Uniceplac, o principal benefício está na consciência alimentar. "Muita gente nunca parou para observar o que realmente come ao longo do dia, e o simples ato de registrar já gera um efeito educativo importante", afirma.
O problema começa quando os números viram verdade absoluta. "Essas ferramentas não conhecem o histórico clínico, exames laboratoriais, uso de medicamentos, alergias, intolerâncias ou objetivos individuais da pessoa", alerta Danielle. Até os aplicativos que identificam alimentos por foto têm limitações. "São úteis como ponto de partida, mas ainda têm limitações relevantes", alerta.
A popularização de ferramentas como o ChatGPT criou a possibilidade de pedir uma dieta completa a uma inteligência artificial. Para Danielle, esse é um dos usos que exigem mais cautela. "O maior risco é acreditar que uma dieta se resume a uma lista de calorias e à proporção de carboidratos, proteínas e gorduras", afirma. "Por isso, a inteligência artificial pode criar planos alimentares com deficits calóricos perigosos, excluir grupos alimentares importantes ou recomendar estratégias incompatíveis com condições de saúde que, muitas vezes, nem foram diagnosticadas", alerta.
Nesse cenário, surgem plataformas voltadas especificamente para a saúde, como o MedSeek, da Liberty Health, que reúne artigos científicos, diretrizes médicas e protocolos oficiais, incluindo os do SUS. José Carlos Vasconcellos, CEO da empresa, explica que a ferramenta foi desenvolvida para apresentar as fontes usadas nas respostas. "Em saúde, uma resposta que convence sem poder ser conferida é mais perigosa do que não ter resposta", afirma. "O ganho não está em o aplicativo decidir por alguém. Está em cada um chegar mais preparado no momento em que a decisão acontece."
No fim, a quantidade de informação disponível pode ser aliada, desde que não substitua o bom senso. Jordana percebeu isso na própria rotina: "Com a tecnologia, passei a ter um histórico mais completo, acompanhar melhor minha evolução e ajustar meus objetivos. Isso tornou minha relação com a atividade física mais consciente e motivadora."

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