
O Hotel Torre Palace, no Setor Hoteleiro Norte, foi implodido, pontualmente, às 10h nesse domingo (25/1). Em poucos segundos, o edifício — que durante décadas simbolizou conforto, sofisticação e encontros da elite política e social de Brasília — veio abaixo, transformando-se em escombros e encerrando um ciclo de mais de 50 anos de história e 13 de abandono.
A implosão ocorreu de forma controlada e precisa. Cerca de 165kg de explosivos, distribuídos em aproximadamente mil furos nos pilares, foram acionados após uma contagem regressiva que lembrou uma vinheta de televisão. O impacto foi rápido e cinematográfico, acompanhado por drones e registros aéreos feitos por profissionais em helicópteros.
Fundado pelo empresário libanês Jibran El-Hadj, o Torre Palace enfrentou um longo processo de deterioração após o fechamento, agravado por disputas judiciais entre sete herdeiros. Localizado em área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o prédio tornou-se, ao longo dos anos, um esqueleto urbano em plena região central da capital.
Segurança
Para garantir a segurança da operação, uma força-tarefa foi montada com a atuação integrada do Detran, Defesa Civil, Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. Alertas sonoros e mensagens por celular foram emitidos três minutos antes da implosão, enquanto um perímetro de isolamento de até 300 metros foi mantido evacuado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP).
Hotéis vizinhos, como Brasília Tower Hotel, LET's Idea e Nobile Suites, tiveram hóspedes retirados preventivamente. O trânsito na região sofreu alterações, com bloqueios nas vias N1 e N2 e desvios pela W3. Estacionamentos próximos também foram interditados, devido à possibilidade de queda de escombros.
Segundo o secretário de Segurança Pública, Sandro Avelar, a operação foi bem-sucedida. "Acho que foi um sucesso, porque houve todo um planejamento que foi bem executado. As forças de segurança trabalharam de forma integrada, cada corpo fez o seu papel junto com a equipe técnica responsável pela explosão", afirmou ao Correio. Ele explicou que a próxima etapa envolve vistoria da área e a retirada dos escombros, além de treinamentos do Corpo de Bombeiros no local.
Memórias
Mesmo com as restrições, o momento atraiu moradores e curiosos, que se concentraram em pontos seguros, especialmente nas proximidades da Torre de TV. Entre eles, pessoas que carregam histórias pessoais ligadas ao antigo hotel.
A empresária Luciana Campos de Sousa, 44 anos, trabalhou no Torre Palace em 2004, primeiro como copeira e depois como garçonete. "A experiência não foi muito agradável, pois os herdeiros já estavam em processo de briga familiar pelo patrimônio. Eu saí antes do prédio fechar, mas a gente já via que estava caminhando para isso. Tinha muitos atrasos de pagamento, dava para ver que não estava legal", lembra.
Para ela, assistir à implosão foi um misto de sentimentos. "Ao mesmo tempo dá uma pena, mas eu estou sabendo que vai ter um novo prédio. Vai gerar emprego, vai gerar turismo para Brasília", diz Luciana.
Já o aposentado Antônio Carlos Xavier Gomes, conhecido como Carlão, 77, percorreu 450km, saindo de Tocantins, apenas para acompanhar o momento. "O senhor Jibran era colega meu no Iate Clube. Eu já vim várias vezes jantar com ele. Ele disse um dia, enquanto a gente jantava, que, talvez, o hotel não tivesse continuidade depois da morte dele. Chegar aqui, hoje, traz muitos sentimentos", relata.
O empresário do ramo da gastronomia Paulo Bessa, 65, também esteve presente por laços afetivos com a família fundadora. "A gente já se hospedou aqui, já fez jantares, o restaurante japonês era maravilhoso. É uma história triste para Brasília, mas espero que nasça uma coisa que seja sucesso, como esse hotel foi", afirmou.
O que vem depois
A implosão foi realizada pela empresa RVS Construções. O terreno pertence hoje a um grupo investidor que planeja erguer um novo hotel no local, com padrão internacional. A expectativa é a construção de um edifício com 16 andares, entre 230 e 250 apartamentos.
Porta-voz do grupo comprador, o empresário Marcos Cumagai explicou que, nos próximos 30 dias, o local passará por ações de limpeza e treinamentos do Corpo de Bombeiros. "A partir daí, começa a remoção dos resíduos sólidos, com separação e descarte sustentável, sendo que parte será reaproveitada nas fundações", afirmou.
Segundo ele, a previsão é de que em cerca de quatro meses sejam obtidos os alvarás necessários para o início das obras. "Será um hotel de categoria internacional, cinco estrelas, adequado para receber autoridades, chefes de Estado e eventos, com foco também na experiência de bem-estar", destacou. O projeto prevê suítes, dois restaurantes — um deles com proposta Michelin —, spa, academia e área de eventos.
A estimativa é de que o novo empreendimento fique pronto entre 2027 e 2028, inaugurando uma nova fase para a hotelaria no centro de Brasília.
Impactos após implosão
A implosão do antigo Hotel Torre Palace deixou destroços e causou danos em um dos hotéis nas imediações. De acordo com informações apuradas no local, pelo menos cinco vidraças do Nobile Suites Monumental foram quebradas após o colapso do prédio. Além disso, a parte frontal do hotel ficou tomada por fragmentos de concreto e poeira, exigindo trabalho de limpeza logo após a implosão. Não houve registro de feridos.
Em nota, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) informou que, em princípio, até o início da tarde de hoje, as três faixas de rolamento à direita da via N1 permanecem isoladas em razão dos escombros da demolição.
Além dos danos registrados no Nobile Suites Monumental, outros pontos chamaram a atenção do público e geraram questionamentos nas redes sociais. Usuários estranharam o fato de o edifício ter tombado lateralmente, em vez de ceder em um ângulo reto durante a demolição controlada.
A engenheira responsável pela operação, Lorrana Oliveira, explicou que o comportamento da estrutura já estava previsto nos cálculos técnicos. Segundo ela, o acionamento dos explosivos seguiu uma lógica específica para direcionar a queda. "Os explosivos têm temporizadores. Os da quina acionariam primeiro", afirmou. "Foi uma situação para evitar que o prédio pendesse para o lado dos hotéis", completou.
De acordo com a engenheira, inclusive as árvores derrubadas durante o tombamento do edifício estavam consideradas dentro do planejamento técnico da implosão, por estarem localizadas na área prevista de impacto.
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